Há épocas em que as populações, de forma quase inconsciente, manifestam ruidosamente um descontentamento coletivo. Não se trata de uma revolução estruturada de minorias, nem de uma revolta sustentada por uma ideologia ou por símbolos definidos. Constitui um fenómeno mais subtil e disperso: uma agitação que se insinua nos diálogos quotidianos dos cafés, nas salas de espera da crise dos serviços públicos, nos jantares de família e no silêncio cético com que uma parte da sociedade acolhe a retórica dos governantes.
As Assembleias Populares parecem estar de regresso, mas reinventadas.Além da tradicional votação de braço no ar e dos aplausos, contabiliza-se agora quem está disposto a passar mais uma noite ao relento. Embora este reaparecimento possa ser visto como um mero impulso da juventude que se esvanecerá sem deixar rasto, seria um erro – ou um facilitismo político – desvalorizar o fenómeno. Urge, por isso, perguntar: que descontentamento profundo motiva estas ações? Que falhas do sistema procuram estas iniciativas colmatar?
Há regimes que hoje mudam por completo sem que seja disparado um único tiro ou convocada uma revolução; basta dar tempo ao tempo. Com a lentidão fria da burocracia, o passar dos dias vai minando a esperança e transformando a vida em cidadania numa luta crua pela sobrevivência. À superfície, o cenário é perfeito: o povo cumpre os seus deveres, os parlamentos debatem e as urnas continuam a abrir-se na data certa. Mas falta o essencial. Sem confiança, o oxigénio da democracia desaparece. Quando as pessoas deixam de acreditar que o seu voto pode mudar alguma coisa, o regime democrático passa a ser apenas um palco deserto e sem alma.
É neste ambiente que floresce um tipo particular de político: aquele que começou na vida pública com a promessa de servir o povo, mas logo percebeu que a sua verdadeira prioridade era garantir o próprio cargo. Sem uma vocação clara, destaca-se apenas pela sua incrível capacidade de se manter no poder. Marca presença em qualquer evento, corta fitas com a solenidade de quem muda a história e faz promessas fáceis sem intenção de as cumprir. Nos seus discursos, os aplausos soam tão artificiais quanto a própria propaganda eleitoral.
Se algo não falta a estes políticos, é a capacidade de sobrevivência. O que talvez lhes escape é a noção de que, por trás de cada voto, há uma vida real que não se orienta por meras notas de imprensa. Para quem faz da representação uma carreira, o votante é um ser com hábitos peculiares: passa quatro anos recolhido no seu anonimato para, de repente, às portas das eleições, ser calorosamente redescoberto, ouvido e tratado pelo nome. Multiplicam-se as visitas, os abraços, as fotografias e os compromissos. O mesmo dirigente que antes mal tinha agenda para o cidadão comum ganha agora uma proximidade quase afetiva. Encontramo-lo em feiras, coletividades e romarias, distribuindo apertos de mão e discursos calculados com a precisão de um ator ensaiando ao espelho. Por breves momentos, o eleitor recupera a sua dignidade de indivíduo; fechadas as urnas, regressará à sua condição de simples número.
Mas, o eleitor não é uma abstração que responde a apelos automáticos; é o cidadão comum, confrontado diariamente com as dificuldades da vida real. Trata-se de quem trabalha ou procura emprego e vê, com demasiada frequência, o salário esgotar-se antes do fim do mês. É a mulher que adia cuidados de saúde, o casal que abdica do lazer e a família obrigada a cortar despesas básicas. É o pai que vê os filhos emigrar, não por desapego, mas pela impossibilidade financeira de pagar uma habitação. É, finalmente, o jovem que perde a fé na educação como via para o sucesso, o idoso que receia ser um fardo e o reformado que, após uma vida de contribuições, percebe que ter uma velhice digna se tornou um privilégio incomportável.
A política deveria responder perante os cidadãos comuns, aqueles que estão afastados do poder. Contudo, à semelhança de velhas dinastias, a classe política habituou-se a disfarçar os seus próprios privilégios como se fossem o bem comum. Vivem obcecados com sondagens, focados nas exigências dos partidos e ocupados com alianças de bastidores longe do olhar dos eleitores. Com isto, o conceito de serviço público é distorcido: serve para justificar ambições pessoais, ignora-se na hora de assumir culpas e evapora-se quando é preciso dar explicações ou prestar contas.
Os números importam, mas não contam a história toda. Governar um país através de folhas de cálculo e ignorar o sofrimento real das pessoas é quase uma ironia. Uma estatística positiva não aquece uma casa sem eletricidade. Um discurso otimista não enche um frigorífico vazio. E uma promessa, por mais que seja repetida, nunca se transformará em sustento real para quem precisa.
Sob a capa da “modernização”, a política transformou-se: em vez de ouvirem os cidadãos, os políticos focam-se no marketing e nos discursos que lhes trazem mais benefícios. Tornaram-se peritos em fugir a respostas, desvalorizar queixas e tratar a indignação popular como egoísmo. Quando a narrativa falha perante a realidade, justificam-se sempre com um “problema de comunicação”. É irónico ver os governos atuais culparem o povo por não compreender aquilo que eles próprios foram incapazes de executar.
Esqueçam a economia ou a saúde; a grande ciência do século XXI é a “cosmética política”. Vivemos na era em que os governos preferem contratar um bom cirurgião plástico para a imagem pública do que resolver problemas. Sob a varinha mágica destes génios das relações públicas, uma derrota humilhante é promovida a “acumulação de experiência”, a hipocrisia passa a “maturidade tática” e a fuga a “recuo estratégico”. Se o ilusionista for bem pago, a incompetência passa a parecer virtude e o vazio absoluto finge ser dignidade. O único defeito deste plano perfeito é que o povo teima em ter a mania de comer todos os dias. E a realidade, essa chata, insiste em enviar faturas ao fim do mês e em deixar os pais sem palavras para explicar aos miúdos porque é que a “maravilhosa evolução do país” nunca sai do ecrã da televisão.
Destaca-se, nesta obra cómica, uma personagem singular: o representante político que, esquecendo a promessa de defender o bem comum, passa a priorizar os seus próprios interesses. O cargo sobe-lhe à cabeça, a função passa a ser vista como propriedade sua e a reeleição torna-se uma obsessão de importância nacional. Os problemas reais dos eleitores ficam para trás perante esta nova prioridade. E poucas coisas parecem tão prioritárias, na vida de certos políticos, como garantir que a sua vida política não termine.
O resultado é um país transformado em teatro de repertório, onde os atores são quase sempre as mesmas figuras reincidentes, embora alguns mudem de figurino, de cenário e, ocasionalmente, de convicções. O público conhece-lhes as falas, antecipa-lhes os gestos e já não se surpreende quando o protagonista anuncia, no final de cada ato, que o próximo será decisivo. Há sempre um novo começo, uma nova oportunidade, uma nova estratégia. O que dificilmente se encontra é um fim para as promessas que ficaram por cumprir.
Ora, a lealdade do cidadão à democracia depende da integridade dos seus representantes. A pobreza e a privação não são virtudes a testar com paciência infinita. Da mesma forma, os escândalos e as promessas adiadas não podem ser normalizados ou transformados em espetáculo. Há que distinguir o povo que espera com esperança daquele que apenas tolera por desespero. Confundir paciência com resignação é um erro político fatal.
Quem administra o Estado por objetivos deverá ter a delicadeza de os apresentar cumpridos no final do mandato. Não basta anunciá-los, ilustrá-los com gráficos ou distribuí-los em conferências de imprensa. A gestão pública não é um exercício de caligrafia administrativa, nem o cumprimento de um programa se mede pela elegância gráfica da sua impressão. Se os objetivos não foram alcançados, alguém deverá explicar porquê. E, se não há explicação, talvez seja porque o problema não está na comunicação, mas na própria governação.
A verdadeira governação foca-se nas pessoas e não no espetáculo. Administrar um país não é apenas gerir verbas e equilibrar o orçamento, mas sim compreender que cada decisão molda vidas. Uma percentagem representa famílias e um corte orçamental traduz-se em dificuldades reais. A dignidade humana não é um adereço emocional para relatórios, é o coração da política. É a razão primeira de qualquer organização política merecedora desse nome.
Uma sociedade pode apresentar bons indicadores económicos e produzir solidão, desigualdade e abandono. De que serve modernizar as cidades se continuarmos a isolar as pessoas? Estradas novas, edifícios altos e serviços digitais de nada valem se mantivermos a velha indiferença perante a pobreza. Um país que se renova por fora, mas continua frio por dentro, vive uma ilusão. O progresso que não acolhe e não protege os mais desfavorecidos é apenas uma fachada luxuosa: brilha aos olhos do mundo, mas não serve de abrigo a quem tem frio. É uma espécie de luxo arquitetónico: impressiona quem passa, mas não abriga quem precisa.
Entretanto, continuamos a presenciar uma cena caricata: políticos que temem mais a derrota nas urnas do que o divórcio com o eleitorado. O primeiro cenário gera pânico, comícios de emergência e noites em claro. O segundo mal belisca o seu sono. Para esta classe, perder o cargo é o fim do mundo; ver a sua credibilidade ruir é apenas um desvio nas sondagens. Agem como se o pior castigo fosse largar o poder, e não o facto de continuarem a governar surdos à vontade daqueles que os elegeram.
Mas, um país não é propriedade de quem o governa, dos partidos ou das elites instaladas que fingem mudar para manter o privilégio. A pátria é de todos os cidadãos: dos que votam e dos que não o fazem, dos que apoiam o sistema e dos que o contestam. Pertence tanto aos que têm voz ativa como àqueles que, em silêncio, já se habituaram a não ser ouvidos.
É possível que o verdadeiro legado das ditas Assembleias Populares, apesar das suas falhas, seja este: a urgência de reaver um espaço onde os cidadãos sintam a política como algo seu. Não se trata de uma nostalgia romântica do passado nem de acreditar, de forma cega, na infalibilidade das massas. Afinal, uma sociedade adoece quando os governantes se distanciam dos governados, e a crise agrava-se profundamente quando o próprio povo deixa de ver na política um serviço público digno.
Há uma linha clara que separa duas realidades na política, que não convém esquecer: governar pode limitar-se a uma profissão, a um cargo apetecível ou a uma carreira cómoda; mas merecer o respeito e a confiança do povo é um compromisso de outra ordem. Exige decência, princípios firmes e a humilde certeza de que o poder pertence a quem vota, não a quem é votado. As urnas legitimam mandatos, mas não moldam o carácter. Nenhum sucesso nas urnas será alguma vez capaz de redimir o governante que se esquece de que a sua única missão é servir o bem comum.
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