Já se tornou uma espécie de refrão nacional. Sempre que se discutem aumentos salariais, surge alguém, com a solenidade de quem enuncia uma verdade irrefutável, a recordar que «não se pode distribuir aquilo que não se produz». E, de facto, dificilmente alguém de boa-fé contestará tal princípio. Nem é preciso ser economista para reconhecer que a riqueza, antes de ser repartida, tem de ser criada.
O que talvez mereça maior discussão é uma questão bem menos repetida: aquilo que já se produz tem vindo a ser distribuído com justiça?
Porque o debate público parece frequentemente deter-se na primeira parte da equação e esquecer a segunda. Fala-se abundantemente da necessidade de aumentar a produtividade, da competitividade das empresas, da criação de riqueza e da sustentabilidade das contas. Tudo temas legítimos. Mas fala-se muito menos sobre a forma como os frutos desse esforço coletivo são repartidos entre quem investe o capital e quem contribui com o seu trabalho.
Se os salários crescem menos do que a riqueza produzida, se muitos trabalhadores continuam a sentir dificuldades apesar de empresas apresentarem resultados positivos, será legítimo perguntar se o problema reside apenas na escassez da produção ou também nos critérios da distribuição.
Mas há uma terceira questão, talvez ainda mais importante.
Por que razão não produzimos mais?
A resposta raramente é simples e, seguramente, não pode ser reduzida a um único culpado. Serão as políticas públicas, tantas vezes marcadas pela visão de curto prazo, pela burocracia excessiva e por uma fiscalidade que desincentivará o investimento produtivo? Será a responsabilidade de algumas gestões empresariais incapazes de inovar, modernizar processos ou criar valor acrescentado? Ou será o défice de qualificação de parte da força de trabalho, consequência de insuficiências educativas e formativas acumuladas durante décadas?
A verdade é que todos estes fatores podem coexistir.
Há governos que anunciam estratégias sem estratégia, empresas que reclamam de falta de produtividade enquanto persistem em modelos de negócio assentes em baixos salários, e trabalhadores cuja capacidade de adaptação às exigências tecnológicas do presente nem sempre foi acompanhada pelos indispensáveis investimentos em formação.
Contudo, quando o problema é complexo, a tentação política consiste muitas vezes em simplificá-lo. Uns culpam exclusivamente os empresários. Outros apontam apenas aos governos. Outros ainda responsabilizam os trabalhadores. E assim se substitui a análise pelo slogan.
O resultado está à vista: multiplicam-se as acusações, mas escasseiam as respostas.
Talvez esteja aí a maior fragilidade do nosso debate público. Sabemos repetir fórmulas feitas. Sabemos identificar culpados convenientes. Sabemos proclamar que é necessário produzir mais. O que parecemos não saber, ou não querer, é discutir seriamente porque produzimos menos do que desejamos e porque, mesmo quando produzimos mais, continuam tantos a sentir que recebem menos do que justamente lhes seria devido.
A frase de que «não se pode distribuir aquilo que não se produz» continuará a ser verdadeira amanhã, como era ontem. O que falta acrescentar é outra verdade igualmente importante: uma sociedade não se avalia apenas pela riqueza que consegue criar, mas também pela justiça com que a reparte e pela inteligência com que procura remover os obstáculos que impedem a sua criação.
Enquanto estas perguntas permanecerem sem resposta, continuaremos a ouvir o mesmo argumento. E continuaremos, igualmente, a evitar o verdadeiro debate. Talvez porque algumas verdades sejam mais cómodas de repetir do que de explicar.
Leia também: O Mikas tem quem o socorra. E os nossos idosos? | Por Luís Ganhão















