Há qualquer coisa de inquietante nos protestos que levam os jovens à rua, da educação à habitação, dos salários ao custo de vida. À primeira vista, são reivindicações distintas, dirigidas a governos e políticas concretas. Mas talvez sejam manifestações de uma inquietação mais profunda: a perceção de que os pressupostos em que assentou a organização das sociedades europeias estão a perder credibilidade.
Durante décadas, a educação foi apresentada como o caminho para a mobilidade social, o trabalho como garantia de autonomia e a habitação como horizonte natural da vida adulta. O contrato social do pós-guerra, com todas as suas imperfeições, assentava numa expectativa de progresso: cada geração poderia aspirar a viver melhor do que a anterior. Hoje, um diploma já não garante um emprego estável, o emprego não assegura independência económica e, para muitos jovens, ter casa própria ou constituir família tornou-se um exercício de resistência financeira. Quando o esforço deixa de parecer suficiente para construir um futuro, a frustração transforma-se em desconfiança. E a desconfiança, quando se generaliza, ganha a rua.
Não estamos, porém, perante uma simples crise de expectativas. Estamos no dealbar de uma nova ordem mundial, num período de transformação que pode revelar-se tão profundo como a passagem da sociedade industrial para a economia globalizada. A ordem geopolítica construída depois da Guerra Fria fragmenta-se, as rivalidades entre grandes potências regressam ao centro da História e a força volta a desafiar as regras. Neste tabuleiro, a Europa surge fragilizada: dividida politicamente, vulnerável nas suas dependências estratégicas e confrontada com o risco de se tornar espectadora de um mundo que ajudou a construir, mas que já não consegue moldar.
A esta mudança juntam-se uma economia ameaçada pela estagnação, pressões inflacionistas persistentes e tensões demográficas que alteram o mercado de trabalho, os sistemas sociais e o equilíbrio entre gerações. Entretanto, a inteligência artificial acelera a transformação das profissões, redefine competências e promete ganhos extraordinários de produtividade. Mas quem ficará com esses ganhos? E quem suportará os custos da transição? O trabalho não desaparecerá necessariamente; poderá, porém, perder parte da sua capacidade de garantir estabilidade e integração social. De um lado, profissões altamente qualificadas e rendimentos crescentes; do outro, empregos precários, baixos salários e vidas adiadas. Uma economia pode criar mais riqueza e, simultaneamente, produzir mais insegurança. O crescimento, por si só, não garante progresso partilhado.
A História ensina-nos que as grandes transições raramente são socialmente neutras. A industrialização produziu riqueza e miséria, progresso e exploração, até que décadas de conflito social permitiram construir novos equilíbrios. O século XX mostrou também que as crises económicas, quando acompanhadas pela humilhação social e pela descrença nas instituições, podem abrir caminho aos extremos. As democracias raramente desaparecem de um dia para o outro. Começam, muitas vezes, por perder a confiança dos cidadãos; depois, a tolerância; finalmente, aceitam restringir a liberdade em nome da ordem e da segurança.
A revolta das ruas encerra, contudo, esta ambivalência: pode ser uma força de renovação democrática, mas também pode abrir espaço a movimentos que prometem ordem à custa da liberdade, apontam culpados em vez de enfrentarem problemas e transformam insegurança em ressentimento. Alimenta-se, assim, um ciclo perigoso: a radicalização da contestação favorece as respostas autoritárias, enquanto estas, ao confundirem ordem com silenciamento do descontentamento, podem aprofundar as razões da revolta.
O futuro não está escrito. A tecnologia pode libertar tempo, a Europa pode recuperar ambição estratégica e as políticas públicas podem transformar a mudança em progresso partilhado. Mas nada disso acontecerá por inércia. Exige instituições capazes de antecipar, repartir os custos da transformação e devolver às novas gerações algo mais do que promessas: uma perspetiva credível de futuro.
Para um moderado, talvez esta seja a conclusão mais inquietante. O perigo não está apenas nos extremos que avançam, mas no espaço que lhes é aberto quando as respostas moderadas deixam de convencer. Uma sociedade pode sobreviver à contestação; dificilmente sobreviverá, sem consequências, à perda prolongada de esperança. Porque, quando uma geração deixa de acreditar que o amanhã será melhor, não está apenas a contestar o presente. Está a pôr em causa a legitimidade da ordem que o produziu. E talvez seja precisamente isso que começa a estar em causa.
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