Vi por estes dias um documentário sobre a presença de Portugal em Goa. Mais do que revisitar a presença portuguesa no Oriente, fiquei a pensar numa coisa bastante mais próxima: o que fazemos hoje com o mundo que, durante séculos, fomos ajudar a construir?
Em Goa, o passado português não desapareceu em 1961. Ficaram palavras, nomes, igrejas, música, arquitetura, costumes, formas de organização social e jurídica. Ficou uma língua. Ficaram famílias, tradições e memórias. Ficou, em muitos goeses, o orgulho de uma herança portuguesa que o tempo não apagou. A História, afinal, deixa marcas que nenhuma mudança de soberania consegue simplesmente apagar.
É talvez essa a primeira lição: a história comum não termina quando se troca uma bandeira.
Portugal foi pequeno em território, mas extraordinariamente grande na sua capacidade de atravessar o mundo. Chegámos à Índia, à China, ao Japão, ao Brasil e a África. Levámos connosco a língua, a religião, o direito, os costumes e as instituições — mas também trouxemos palavras, alimentos, conhecimentos, pessoas e formas de ver o mundo. A nossa identidade nunca foi apenas europeia. Foi também construída no contacto com o outro mundo.
Por isso é curioso que, hoje, perante a chegada de pessoas vindas desse outro lado do mundo, uma parte do discurso português pareça descobrir de repente que existe um “nós” e um “eles”. Mas o Oriente não está a chegar a Portugal. Portugal está presente no Oriente.
Não se trata de transformar o passado colonial numa epopeia, nem de negar a violência, as desigualdades e as contradições desse passado. Trata-se de reconhecer uma evidência histórica: Portugal foi, durante séculos, um país de circulação. E a circulação deixou marcas dos dois lados.
Talvez devêssemos olhar para a imigração a partir dessa memória — não para exigir gratidão a quem chega, nem para romantizar a presença portuguesa no mundo, mas para perceber que as sociedades se transformam precisamente quando pessoas, culturas e ideias atravessam fronteiras.
Há uma ironia particularmente portuguesa nisto tudo. Fomos um país que inventou novas fronteiras para si próprio e hoje discutimos como se a fronteira pudesse ser apenas uma linha no chão. Pode ser também uma ideia. E talvez estejamos a construir hoje uma ideia de fronteira muito mais estreita do que aquela que Portugal alguma vez teve.
Portugal não precisa de deixar de ser Portugal para ser um país aberto. Aliás, olhando para a nossa própria história, talvez seja difícil sustentar que alguma vez fomos outra coisa senão um país moldado pelo encontro. Portugal é pequeno quando se reduz à sua geografia. É grande quando se afirma universalista. Goa lembra-nos isso de uma forma particularmente desconcertante.
O mundo que Portugal ajudou a ligar tornou-se agora o mundo que bate à nossa porta. E talvez seja essa a verdadeira mudança de perspetiva que precisamos: deixar de olhar para a presença de asiáticos em Portugal apenas como um fenómeno migratório e começar a vê-la também como parte de uma história muito mais longa — a história das relações entre o Ocidente e o Oriente, na qual Portugal não foi apenas espectador.
Goa talvez nos devolva, por isso, uma pergunta incómoda: se durante séculos quisemos que o mundo conhecesse Portugal, estaremos agora preparados para conhecer o mundo que chega a Portugal? Portugal passou séculos a procurar o que estava para lá da fronteira. Seria uma estranha forma de honrar essa história se agora decidíssemos que a fronteira serve precisamente para impedir que o mundo chegue até nós.
Um país que fez do mundo a sua fronteira não pode agora fazer da fronteira o seu mundo.
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