Cindy miava de dor e de tristeza. A gata não conseguia ver o caminho, como se um nevoeiro intenso a impedisse de ver as formas. O inchaço da cara provocava-lhe uma dor dilacerante a cada avanço de pata, tudo lhe estremecia por dentro, até a alma, sim, que os animais também têm alma, ao contrário de alguns humanos, desprovidos dela. Como os que lhe tinham apedrejado os olhos e, por sorte, não lhos vazaram. Por sorte? De que valia mantê-los, se ficasse cega? O sangue que deles escorria e a infeção obstruíam-lhe a visão, os olhos semicerrados apenas lhe permitiam ver vultos. Picavam-lhe no rosto os galhos secos que se confundiam com o castanho da terra, assustavam-na as buzinas dos automóveis que perto dela passavam, quase atropelando-a. Soltavam-se-lhe as lágrimas dos cantos dos olhos e do coração. Que ia ser dela? Vaguear pelos campos até ao último sopro de vida? Se pouco ou nada descortinava a um palmo do focinho, como podia caçar para sobreviver? A esperança morria a cada dia, a vida esquivava-se-lhe, dependente do alastramento da infeção.
Que razões levaria alguém fazer-lhe tamanha atrocidade? Por mais que se pense, não se encontram razões! Prazer em atirar pedras ao animal? Aposta entre quem consegue acertar no alvo? Só que o alvo é um ser, não um tronco, uma garrafa, ou um prato! É um animal, que caminha, salta, corre, mata e come para sobreviver, como os humanos. Que poder é atribuído ao ser humano de tirar a vida a quem a tem?
Um pelo fofo, peito alvo, lombo preto, olhos verdes atentos ao movimento, aos voos dos insetos, às corridas dos pequenos roedores, inadvertidamente apanhados por uma das patas dianteiras, “olho de lince” que nada deixa escapar. Não deixava! Olhos agora quase cegos, que nem distinguem um galho de um ferro ferrugento entre o desperdício! Desloca-se às apalpadelas, afasta-se, assustada, das vozes que ouve próximo. Como é irónico o destino de alguns!
Nascida no concelho de Tavira, em Santa Luzia (topónimo que adotara o nome da Santa curadora de doenças dos olhos), que milagre poderia esperar? E se os Santos só atendessem as preces dos humanos, desprezando os outros seres? Se à proteção divina só interessassem as pessoas, como se justificaria a construção da Arca de Noé?
Estava-se na semana do Natal e do Ano Novo, passara o dia 25, época em que todo o mundo andara nas últimas compras para colocar sob a árvore de Natal. Antigamente punha-se o “sapatinho na chaminé” e no dia 25, bem cedinho, era ver a pequenada a levantar-se e ir a correr ver o que o Menino Jesus tinha deixado junto ao sapato, perto do fogão! Os tempos mudaram, o Pai Natal veio substituir o Menino, as prendas são deixadas na sala, junto à árvore enfeitada.
Dentro das casas iluminadas, enchem-se as mesas de filhós, de carnes assadas, de luzes e de risos, depois a preparação da grande festa da passagem do velho para o novo Ano, novamente com a azáfama das compras para uma ceia especial ou, para alguns, a aquisição de um vestido com lantejoulas ou de uma gravata diferente, ou ainda a corrida às passas de uva que quase estavam esquecidas e que não podem faltar às 00.00 horas do 31 de dezembro para o 1 de janeiro!
Chegou a primeira madrugada de 2026. Lá fora, o frio enregelava os ossos, queimava as narinas. Ninguém ia incomodar-se com os gemidos de uma gata ferida, faminta, encharcada! Nada lhe restava senão aguardar o momento fatal.
Dizem que por aqueles dias, há pouco mais de 2000 anos, uma estrela guiara os reis magos. Talvez a mesma estrela passasse agora, neste dia e nesta terra portuguesa, que indicasse o caminho a uma certa viatura conduzida por um ser movido da magia do amor, e que viesse recolher a gata moribunda. Era habitual passar por ali Alice, a fundadora da associação de proteção animal ADOTA, na ronda da assistência a colónias de gatos de rua, e que, por esta razão, conhecia Cindy. Parou o carro imediatamente, reconheceu a gatinha que mal conseguia andar, aproximou-se dela, apercebeu-se do seu estado lastimoso. Quem poderia salvá-la? Que Santa Luzia, a quem se atribuem tantos milagres, curasse os seus olhinhos! Por estes dias festivos, quase tudo estava fechado, nem todas as clínicas veterinárias tinham as urgências a funcionar e, neste caso, os animais acidentados seriam levados pelos bombeiros para os postos de socorro mais próximos, de acordo com as instruções da autarquia. Alice dirigiu-se rapidamente para o quartel dos Bombeiros de Tavira, por onde tinha passado uns dias antes para admirar o bonito presépio que os soldados da paz tinham armado no átrio, a lembrar Aquele que nascera um dia para ensinar a amar “uns aos outros”, aos humanos e certamente aos animais que com estes convivem. De imediato, uma viatura saía apressada, dirigindo-se ao hospital veterinário de Faro. Que o Menino que nascera para salvar o mundo, resgatasse agora este pequeno felídeo indefeso! Que o Natal acontecesse, de novo! Não rodeado de prendas embrulhadas em papeis coloridos, nem de luzes em série, mas nos braços daqueles que passam a sua vida a salvar a dos outros! E que as palavras que se ouviam na véspera “Bom Ano! Feliz Ano Novo” se concretizassem, que fosse um Bom Ano Novo para todos, com “saúde, paz e prosperidade”. O coração de Alice batia fortemente, dominado pela incerteza se Cindy sobreviveria. Ainda que a visão não recuperasse totalmente, iria voltar a saltar nos campos, a aguardar diariamente os cuidados da ADOTA, com a comida fresca de que tanto gostava! Talvez uma família humana viesse a adotá-la, como acontecia frequentemente com os gatos de rua dados para adoção responsável. Talvez a gatinha no Novo Ano viesse a ter um “Natal com paz e amor”, a mensagem traduzida pelas figurinhas do presépio!
No dia seguinte, Alice recebeu um telefonema do hospital veterinário, com a notícia da morte de Cindy. A gatinha não sobrevivera a tamanho sofrimento. Nas ruas, por vários dias, ouvir-se-ia “Bom Ano” e “Feliz Ano Novo” entre os transeuntes.
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