Na condenação que é feita da Rússia a pretexto de ter violado a soberania ucraniana, emerge — quase como um subtexto não declarado — uma inquietante camada de animosidade que transcende o plano estritamente político. Trata-se de uma russofobia latente, por vezes mal disfarçada, que parece ressuscitar preconceitos históricos sedimentados no imaginário ocidental e obscurecer legados civilizacionais fundamentais para a compreensão da Europa contemporânea.
A russofobia, longe de ser um fenómeno recente, inscreve-se numa longa tradição de ambivalência ocidental face à Rússia. Desde o século XIX, o olhar europeu sobre o gigante eslavo oscilou entre a fascinação pela sua vastidão espiritual e cultural — frequentemente associada à ortodoxia, à literatura monumental e à resistência histórica — e o temor de um poder expansionista, autocrático, refratário aos valores liberais. Durante a Guerra Fria, essa aversão foi sistematizada e institucionalizada, alimentada por uma máquina propagandística que reduziu a complexidade soviética à caricatura do inimigo ideológico absoluto.

Jurista
O que torna a russofobia contemporânea particularmente insidiosa é o seu alastramento ao tecido cultural e social, contaminando esferas que deveriam permanecer imunes à lógica da retaliação política.
Artistas russos têm sido desconvidados de eventos internacionais, obras-primas da literatura e da música são boicotadas, e cidadãos russos enfrentam constrangimentos e discriminações em universidades, fronteiras e espaços públicos.
Este fenómeno adquire contornos paradoxais e até inquietantes quando se evoca o papel decisivo da Rússia — então União Soviética — na derrota do Terceiro Reich. O Exército Vermelho foi responsável por libertar vastas regiões da Europa Oriental e por infligir as maiores perdas ao exército nazi. A Batalha de Estalinegrado, a tomada de Berlim, a libertação de Auschwitz: são episódios que não apenas marcaram a viragem da guerra, mas que inscreveram a Rússia no panteão dos libertadores da Europa. No entanto, esse legado é frequentemente silenciado ou relativizado em narrativas que preferem exaltar o protagonismo dos Aliados ocidentais, como se a memória histórica pudesse ser moldada ao sabor das conveniências geopolíticas.
Esse apagamento torna-se ainda mais desconfortável quando se recorda que, durante a Segunda Guerra Mundial, não faltaram simpatizantes e colaboracionistas do regime nazi em diversos países europeus. Em França, o governo de Vichy colaborou ativamente com a ocupação alemã. Na Noruega, Vidkun Quisling tornou-se o epíteto da traição. Na Croácia, o regime Ustaše promoveu massacres étnicos com zelo fanático. Na Holanda, Bélgica, Hungria e outros países, milhares de cidadãos participaram na perseguição e deportação de judeus. Capítulos sombrios, frequentemente varridos para debaixo do tapete da memória coletiva. Neste contexto, a condenação moral à Rússia parece, por vezes, funcionar como um mecanismo de projeção — uma cortina de fumo que permite silenciar culpas não resolvidas e evitar o confronto com os próprios fantasmas históricos. Ao atribuir ao outro o papel de encarnação do mal absoluto, o Ocidente exime-se da tarefa mais difícil: a de olhar para si próprio com honestidade, reconhecer os seus próprios fracassos e revisitar os episódios que não cabem na narrativa heroica dominante. A história, transformada em campo de batalha simbólico, torna-se refém de uma memória seletiva, onde a verdade é frequentemente a primeira vítima.
Num mundo à beira de novas polarizações, onde o maniqueísmo ameaça substituir o pensamento crítico, torna-se imperativo recuperar a complexidade, o diálogo e a justiça histórica. A paz — essa palavra tantas vezes invocada e tão raramente praticada — não se constrói com simplificações, nem com demonizações. Exige coragem para enfrentar o passado sem filtros ideológicos, e empatia para compreender o presente sem preconceitos. Só assim será possível imaginar um futuro que não repita os erros do século XX sob novas roupagens.
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