Olhão está a trair os seus atletas. O desporto neste concelho— está a ser destruído pela incompetência e pela apatia de quem deveria liderar com visão e responsabilidade. E os factos falam por si.
As piscinas municipais, infraestrutura essencial para a prática desportiva, para a aprendizagem e para a saúde da comunidade, foram palco de dois episódios escandalosos num espaço de meses. Primeiro, um surto de Legionella em novembro de 2023 forçou o encerramento imediato das instalações. Depois, já em maio de 2024, quatro crianças ficaram doentes devido a uma nova avaria no sistema de ventilação. Estamos a falar de crianças, expostas a riscos gravíssimos num espaço que deveria protegê-las. Onde está a manutenção? Onde está a supervisão? Onde está a responsabilidade política?
Mas o abandono não termina nas piscinas. O caso da pista de atletismo é simplesmente revoltante. Prometida há anos, anunciada com pompa e circunstância, continua no papel — esquecida, empurrada para o fundo de uma gaveta qualquer da Câmara Municipal. Enquanto isso, o Clube Oriental de Pechão, com atletas olímpicos e títulos nacionais no currículo, é obrigado a treinar em Faro. Sim, Faro. Porque Olhão, cidade que gera campeões, não tem sequer uma pista decente onde os seus atletas possam treinar.
E convém dizê-lo claramente: em Olhão existe muito mais do que futebol e basquetebol. Há atletismo, natação, ginástica, judo, canoagem, patinagem, artes marciais, dança desportiva, e tantas outras modalidades que vivem ignoradas, invisíveis, abandonadas. O desporto não é só bola. O talento não se mede em golos. Mas quem governa parece não saber disso — ou pior, não querer saber.
A verdade é que o desporto em Olhão sobrevive à custa da força dos clubes e das associações, não do apoio sério da autarquia. E não, subvenções pontuais não são suficientes. Os subsídios não constroem pistas, nem reparam piscinas, nem garantem dignidade às centenas de jovens que treinam todos os dias com meios precários. É preciso infraestruturas. É preciso manutenção. É preciso visão.
E o mais triste é que, em muitos casos, as associações e os clubes, por desespero ou cansaço, já se contentam com migalhas. Ficam agradecidos pelos poucos tostões que caem do executivo, como se estivessem a receber um favor. Não estão. Estão a receber menos do que merecem. Estão a ser enganados, usados para alimentar a ilusão de que tudo está bem — quando tudo está por fazer. Esta complacência, alimentada por anos de abandono, é mais uma arma na mão de quem prefere manter tudo como está: parado, fraco, submisso.
Isto não é só um falhanço administrativo — é um atentado ao futuro do desporto local. É o retrato de uma cidade que abandona os seus melhores em nome da indiferença política. Como é que uma autarquia que se diz moderna permite este insulto contínuo ao esforço, dedicação e talento de quem representa Olhão ao mais alto nível?
A verdade é dura, mas precisa ser dita: o desporto em Olhão está a morrer, e quem devia protegê-lo está a assistir impávido, cúmplice desse colapso. Não se investe. Não se apoia. Não se respeita. A Câmara prefere alimentar promessas do que construir realidades. Prefere slogans a resultados. Prefere silenciar a vergonha do que enfrentá-la de frente.
Quantos atletas mais vão ter de sair de Olhão para alcançar os seus sonhos? Quantas gerações de talento vão ser desperdiçadas por pura falta de visão?
Basta. O desporto não é um luxo. É uma necessidade. É formação, saúde, comunidade, orgulho. E Olhão, com todo o seu potencial, não merece continuar a ser símbolo de abandono. Chegou o momento de exigir. De cobrar. De expor. Porque o silêncio só serve aos que preferem o esquecimento à mudança.
Se Olhão continuar neste caminho, o futuro do seu desporto será apenas isso: promessas esquecidas, pistas por construir, modalidades ignoradas, campeões que partem — e clubes que aplaudem migalhas enquanto o chão lhes foge dos pés.
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