Há expressões que atravessam séculos sem perder atualidade. “Bom senso” é uma delas. Usada durante séculos para designar a capacidade de julgar e agir com equilíbrio, prudência e razoabilidade nas situações do dia-a-dia, procurando distinguir o que é mais correto, justo e adequado ao contexto. Ou seja, uma forma de decidir sem se deixar dominar por impulsos, preconceitos ou exageros.
Entre a filosofia e a psicologia, o conceito lembra‑nos algo simples: pensar, sentir e ponderar antes de reagir ainda pode ser um processo humano simples.
Os filósofos clássicos não tinham dúvidas quanto à sua importância. Aristóteles ligava o bom senso à prudência, isto é, à capacidade de encontrar o justo meio com a finalidade de uma ação centrada na razão e justiça (virtuosidade). Para Descartes, o bom senso correspondia à capacidade inata de julgar corretamente, sendo as diferenças de pensamento explicadas pela forma ou método como cada indivíduo orientava o seu raciocínio.

Presidente da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
A psicologia contemporânea reforça essa ideia. Fala‑se hoje de regulação emocional, de raciocínio moral, de atenção à diferença. Ser sensato, no século XXI, implica reconhecer que a emoção e a razão não são inimigas, mas complementares. Ignorar uma em favor da outra é abrir caminho a decisões precipitadas.
É precisamente isso que parece poder estar a faltar num tempo marcado pela rapidez dos julgamentos e por uma crescente intolerância face a quem foge à norma.
Opinar tornou‑se imediato, muitas vezes à distância de um enter. Compreender, opcional. Neste contexto, o bom senso deixou de ser apenas uma virtude discreta para se transformar num verdadeiro ato de coragem.
Exige pausa num mundo apressado. Exige escuta num espaço público cada vez mais ruidoso. Exige compreensão numa sociedade que prefere rótulos a pessoas. Talvez por isso seja tão desconfortável pois obriga a abdicar de certezas fáceis e a encarar a complexidade humana.

Psicóloga e vogal da Direção Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
Recuperar o bom senso não significa adotar uma posição neutra ou indiferente. Pelo contrário. Significa exercer consciência crítica com respeito. Significa reconhecer que muitos dos que hoje são alvo de rejeição ou incompreensão não escolheram ser diferentes – apenas o são.
Num tempo de polarização e intolerância, cultivar o bom senso é reafirmar valores básicos como a empatia e a lucidez. Não resolve todos os conflitos, mas estabelece o mínimo indispensável para qualquer convivência civilizada. E, talvez por isso mesmo, seja hoje mais urgente do que nunca.
Na realidade, vivemos tempos curiosos, em que nunca tivemos tanto acesso à informação, no entanto tantas vezes parecemos carecer de orientação. Invoca-se o “bom senso” com insistência quase num refrão moral, mas raramente se esclarece o que realmente está em causa. O bom senso não é nem o simples senso comum, nem ciência.
Desde Platão, a questão do bom senso aparece ligada à ideia de moderação e autodomínio (sophrosyne). Em Aristóteles, o conceito adquire maior precisão através da phronesis, a qual é frequentemente traduzida por prudência ou sabedoria prática, a capacidade de deliberar bem sobre o que fazer em situações concretas. Trata-se de inteligência orientada para a ação, sensível às circunstâncias, que não se esgota em regras abstratas. Sêneca e Agostinho de Hipona pensam o bom senso como uma “reta razão” (recta ratio), uma espécie de medida interior que orienta a vida. Já René Descartes, na abertura do Discurso do Método, observava com ironia, ainda atual, que todos acreditam possuir bom senso, embora poucos o exercitem verdadeiramente.
A psicologia contemporânea permite-nos compreender que aquilo a que chamamos “senso comum” corresponde, em grande medida, a um conjunto de crenças intuitivas e socialmente partilhadas sobre o comportamento humano. A investigação em Psicologia mostra que essas intuições estão frequentemente enviesadas, pois nós vemos o que confirma as nossas ideias (viés de confirmação), sobrestimamos a nossa compreensão (efeito Dunning-Kruger) e simplificamos em excesso a complexidade das situações. O senso comum tranquiliza, mas não discerne.
A ciência psicológica, por seu lado, procura ultrapassar essas limitações. Enquanto disciplina empírica a Psicologia baseia-se em métodos rigorosos, onde são testadas hipóteses e validados resultados. Muitas das suas conclusões são, aliás, contraintuitivas precisamente porque corrigem os erros do pensamento espontâneo, testando-os de forma rigorosa e científica.
Mas então onde se situa o bom senso?
Claramente não no senso comum porque não é mera opinião partilhada, nem na ciência porque não é um sistema de prova. O bom senso aproxima-se antes daquilo que Henri Bergson descrevia como um “instinto esclarecido pela inteligência”, ou seja, uma capacidade de apreender o essencial de uma situação sem se perder, nem em automatismos, nem em abstrações. Em termos psicológicos, poderíamos entendê-lo como uma forma de integração. Integra experiência, emoção e cognição, articula conhecimento com contexto e ajusta princípios à realidade concreta. Aproxima-se, por isso, de competências como a inteligência emocional e a autorregulação, mas não se reduz a nenhuma delas, pois é mais exigente e implica discernimento, medida, oportunidade.
Também Richard Rorty mostra que o bom senso não é apenas uma competência cognitiva, mas também uma disposição ética, uma atenção ao humano concreto que impede tanto o rigorismo abstrato como a deriva relativista.
Em síntese poderíamos dizer que o senso comum nos diz o que “toda a gente sabe”, a ciência procura demonstrar o que é verdadeiro e o bom senso indica-nos o que fazer aqui e agora com atenção à realidade, aos outros e a nós próprios.
Mas como cultivá-lo?
Desde logo, exige a capacidade de suspender a pressa das certezas, criando um pequeno intervalo entre o impulso e a ação. Exige o hábito de questionar “e se eu estiver errado?” ou “o que me está a escapar aqui?”. Exige uma atenção fiel à realidade concreta e às pessoas tal como são (empatia), bem como às circunstâncias tal como se apresentam. O bom senso não aparece por acaso. Exercita-se e aprende-se. A psicologia do desenvolvimento mostra-nos que a capacidade de ponderar, de se autorregular e de considerar o ponto de vista do outro não surge espontaneamente. Forma-se. Jean Piaget demonstrou como o pensamento infantil evolui de formas egocêntricas para níveis progressivamente mais complexos de compreensão. Lawrence Kohlberg, por sua vez, evidenciou que o juízo moral se desenvolve por estádios, passando de uma lógica centrada na obediência para formas mais maduras de responsabilidade e justiça.
Isto significa que o bom senso não é apenas uma virtude individual. É uma tarefa educativa, cultiva-se quando se estimula a reflexão em vez da resposta automática, o diálogo em vez da imposição, a compreensão em vez da repetição.
Num tempo de excesso de ruído, com certezas rápidas e opiniões extremadas, o bom senso deixou de ser apenas uma virtude discreta para se tornar uma necessidade urgente.
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