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JOSÉ FIGUEIREDO SANTOS, sociólogo e professor universitário jubilado. Foto DR
Nacional, Opinião, Política

O Adeus a Marcelo | Por José Figueiredo Santos

“Depois de um Presidente assim, tão próximo e tão visível, quereremos menos presença – ou já não saberemos mais viver sem ela?”

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Há um dado sociológico curioso: sempre que desponta um novo poder, ele resulta da inevitável associação a uma narrativa redentora, a que se associa uma rápida mudança de lealdades. Enquanto isso, o anterior é gentilmente empurrado para o plano do “anacrónico” ou do irrelevante para o presente – vale dizer – para a categoria de património relicário da história.Mas é da consciência de que o normativo assim é, que parece ousado justificar uma despedida.

Bem que o atual momento poderia ser o mais ajustado à tessitura de cálculos quanto a novos itinerários de segundas voltas presidenciais. Todavia, parece de elementar justiça abrir um parêntesis para falar de despedidas que se fazem em silêncio, outras com discursos solenes e algumas – as mais portuguesas – com um sorriso cúmplice, um abraço improvisado e, se possível, um sentido tchau melancólico.

O adeus a Marcelo Rebelo de Sousa, ao chegar ao fim do seu mandato presidencial, reclama este terceiro e justificado registo: um balanço irónico e carinhoso de um Presidente que fez da proximidade uma política de Estado e da omnipresença uma marca pessoal. 

Marcelo foi, antes de mais e acima de tudo, um Presidente comentador que se tornou objeto de comentário. Conhecia a cultura mais profunda do país, antes de este o eleger e, talvez por isso, tenha governado como quem explica: pedagógico, atento às câmaras, sempre pronto para uma nota de rodapé histórica ou constitucional. Não faltou quem visse nisso excesso de zelo; quem agradecesse a sensação de que, algures, entre Belém e um banho numa praia mais próxima, fosse a da Ribeira ou a de Monte Gordo,alguém estava a dar conta do recado.

Seja como for, o seu mandato presidencial deixa uma marca difícil de ignorar na vida política portuguesa. Eleito com uma votação expressiva e sustentado por elevados níveis de popularidade, ao longo de grande parte do seu percurso em Belém, Marcelo foi um Presidente singular: omnipresente, comunicador incansável e profundamente atento à perceção pública do cargo.

Assumiu, desde o início, uma interpretação muito própria da função presidencial. Professor de Direito Constitucional, conhecedor profundo do sistema político, Marcelo optou por exercer a magistratura de influência com intensidade máxima. Comentou, aconselhou, alertou, ameaçou com a “bomba atómica” e, não raras vezes, antecipou crises. Para os seus apoiantes, essa atitude terá reforçado a estabilidade institucional; para os críticos, terá ultrapassado os limites do equilíbrio entre o Presidente e os restantes órgãos de soberania.

Um dos traços mais distintivos do seu mandato traduziu-se na aposta clara na proximidade com os cidadãos. Marcelo transformou o contacto direto numa ferramenta política central: visitas improvisadas, presença constante em cerimónias públicas, telefonemas, selfies e abraços.

A “presidência dos afetos” urgiria, depois de um indesejado período de crispação com Cavaco Silva, contribuindo para humanizar o cargo e para reforçar a confiança de muitos portugueses nas instituições, sobretudo em momentos de crise social ou emocional.

E, aqui, importa abrir parêntesis à memória do período de crispação presidencial, marcado por uma Presidência de autoridade distante, formalista e politicamente vigilante, em que o silêncio era usado como instrumento de poder e cada intervenção pública surgia carregada de significado político. Cavaco exerceu o cargo mais como fiscal do sistema do que como mediador, privilegiando o controlo constitucional em detrimento da proximidade com os cidadãos. Esse estilo terá contribuído para um ambiente político mais ríspido e menos conciliador, reforçando o peso institucional da Presidência, ao mesmo tempo que acentuava a perceção de conflito permanente entre órgãos de soberania.

A proximidade de Marcelo teve, contudo, um reverso. A frequência das intervenções públicas e a rapidez com que comentava acontecimentos políticos dariam origem à perceção de um Presidente excessivamente interventivo. Houve momentos em que Marcelo pareceu disputar o espaço mediático com o Governo, comentando decisões ainda em curso ou condicionando o debate político, com avisos solenes e declarações calculadas.

A relação com os governos do Partido Socialista, em especial com António Costa, marcou decisivamente o seu mandato. Durante anos, mantiveram um equilíbrio delicado entre cooperação institucional e tensão política latente. Como é sabido, esse equilíbrio viria a romper-se com a demissão do primeiro-ministro, na sequência de uma crise política que levou à dissolução da Assembleia da República.

Para além do seu hiperpresidencialismo informal, seria também o Presidente dos símbolos improvisados. Nada o representaria melhor do que os famosos gelados Santini, elevados a ícone político involuntário. Comer um gelado tornar-se-ia um ato de Estado, uma espécie de ritual laico que denunciava uma mistura híbrida entre verão, informalidade e comunicação política. Para uns, constituiria um populismo doce; para outros, apenas a evidência de que o Chefe de Estado sabia que governar também poderia ser partilhar pequenos prazeres com os governados. Entre uma bola de limão e outra de manga, Marcelo consolidaria uma imagem de impossível replicação por sucessores mais contidos.

No entanto, nem tudo se resolveria com um sorriso e a frescura de um gelado. Ao longo do seu mandato, Marcelo enfrentou algumas das crises mais exigentes da democracia portuguesa recente: os grandes incêndios, a pandemia de COVID‑19, períodos de instabilidade económica e sucessivas turbulências políticas. Houve falhas, recuos e pedidos de desculpa públicos, assumidos sem reservas. Essa exposição ao erro, feita em direto e perante o país, terá contribuído para uma imagem de transparência, mas também acentuado o desgaste associado à sua presença constante.

Contudo, o seu maior trunfo seria também a sua maior fragilidade: a empatia. Marcelo abraçou tudo e todos – vítimas de incêndios, atletas vitoriosos, crianças em visitas de estudo, idosos em romaria, jornalistas em direto. Tornou-se o Presidente dos afetos, aquele que aparecia sem aviso, que atendia o telefone, que se associava ao voluntariado do Banco Alimentar Contra a Fome. Num país tantas vezes distante do poder, esta proximidade teve óbvias virtudes: humanizou a Presidência, aproximou as instituições das pessoas e devolveu alguma confiança num sistema político opaco.

O balanço final aponta para um Presidente cujo exercício do cargo marcou uma época, não pela rutura, mas pela intensidade (ainda que por vezes a confundisse com presença permanente) e um sentido de missão evidente. Marcelo Rebelo de Sousa reforçou o peso político da Presidência sem alterar uma linha da Constituição, apenas através da prática e da comunicação. Um homem que acreditou que a democracia se fortalece com afetos, mas que aprendeu – e ensinou – que os afetos também cansam. Ao despedir-se, deixa um legado ambivalente: aproximou o poder dos cidadãos, mas elevou as expectativas sobre a intervenção presidencial.

O adeus a Marcelo não será um ponto final, mas uma longa vírgula na História recente do país. Ficará a memória dos abraços, das explicações, dos avisos dramáticos e dos gelados ao sol. Mas, não deixará de ficar, sobretudo, um questionamento que ganhará centralidade para o futuro: depois de um Presidente assim, tão próximo e tão visível, quereremos menos presença – ou já não saberemos mais viver sem ela?

Leia também: Exorcismos de cronismo político ou a arte nacional de renovar o irreformável | Por José Figueiredo Santos

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