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ANA FIDALGO - Psicóloga, sexóloga clínica, terapeuta de casal e co-fundadora da clínica 'O Teu Lugar'. Foto DR
Opinião

Millennials, dating e a dificuldade real de criar vínculo | Por Ana Fidalgo

“A solidão não é só ‘não ter ninguém’. É sentir que não se tem com quem pousar”

07:30 14 Fevereiro, 2026 16:01 13 Fevereiro, 2026 | Cristina Mendonça
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Ao longo da última década tenho sentido uma realidade, dentro e fora do consultório, que se repete como um disco riscado, e talvez tu também – “Conheço pessoas. Tenho dates/encontros. Mas não consigo construir nada.”

Pensei durante algum tempo que isto fosse apenas uma impressão clínica, uma espécie de eco seletivo do consultório e da minha comunidade. No entanto, ao investigar um pouco mais, percebi que a verdade é que o contexto relacional mudou globalmente, e há evidência científica e dados sociais que ajudam a colocar uma lupa nesta sensação.

Como acredito que o amor é o motor da vida, e a gravidade invisível que mantém o mundo no lugar, recuso-me a “baixar os braços” perante este cenário – e para construir esperança, acredito que é necessário primeiro assumirmos a realidade: as probabilidades e os custos psicológicos mudaram.

O que antes era sobretudo um encontro mediado por contexto (amigos, trabalho, “bairro”, comunidade) passou, para muita gente, a ser um encontro mediado por sistema: plataformas, perfis, métricas, comparações, micro-decisões rápidas. E isto mexe com o vínculo que (não) se cria, de forma muito subtil.

Durante uma formação com a minha supervisora, onde o tema era, precisamente, a vinculação, navegámos numa conversa sobre este aspeto da modernidade: O dating contemporâneo tende a aumentar a exposição e a reduzir a continuidade.  Mais contactos possíveis, menos tecido social a segurar a história.

O que a ciência (já) consegue dizer, e o que ainda não consegue

Há três peças bastante robustas:

A. Conhecer online tornou-se uma via dominante (em vários contextos), e isso desloca “terceiros” que antes davam contexto e confiança.
O trabalho de Rosenfeld e colegas mostra como o “meeting online” ganhou centralidade e como o encontro mediado por amigos/família perde peso, alterando a forma como a confiança se constrói (menos reputação, menos contexto partilhado, menos rede comum).

B. “Muita escolha” pode criar um estado mental mais rejeitante e menos investido.
O estudo sobre choice overload (sobrecarga de escolha) e “rejection mindset” (mentalidade de rejeição) sugere que o acesso contínuo a muitos potenciais parceiros pode treinar uma postura mais pessimista/rejeitadora, e isso afeta a disposição para investir.

C. As apps não são “boas” ou “más” por si; têm efeitos previsíveis sobre cognição e vínculo.
A análise crítica de Finkel e colegas (PSPI) é útil por ser equilibrada: as plataformas aumentam acesso, mas também podem incentivar comoditização – quando começamos a tratar pessoas como se fossem um produto numa prateleira, algo comparável, substituível, “escolhível” com base em características rápidas, em vez de alguém com uma história, complexidade e um processo de vínculo que precisa de tempo –  comparação e menor compromisso, dependendo de como são usadas e desenhadas.

No entanto, há muita coisa que ainda só podemos medir qualitativamente através da nossa experiência – ainda é difícil medir porque os dados detalhados das plataformas não são públicos. Portanto, “está mais difícil” não é uma frase com uma única métrica. É um mosaico: mudanças nas rotinas, na economia, na vida social, nas expectativas, no género, e no design do dating (ou estrutura dos encontros).

Apps: quando a facilidade de conhecer colide com a dificuldade de escolher

As aplicações resolveram um problema antigo com uma solução ótima: como conheço alguém fora do meu círculo?

Mas criaram um problema novo: como é que eu paro de procurar e começo a construir?

Há três mecanismos psicológicos comuns:

1. O cérebro entra em “modo catálogo”

Num catálogo, as pessoas tornam-se comparáveis. E, quando tudo é comparável, tudo é substituível.
Isto não significa que sejamos “frios”. Significa que o ambiente nos treina para avaliar mais do que encontrar.

A investigação aponta precisamente para esse risco: navegar e comparar muitos perfis pode aumentar a objetificação e reduzir a disposição para compromisso.

2. Recompensas pequenas e intermitentes: a “máquina” de manter esperança

Match. Mensagem. Silêncio. Match. Conversa. “Talvez”.
Isto é emocionalmente exaustivo porque funciona em reforço intermitente: dá o suficiente para manter a esperança, não o suficiente para consolidar segurança.

E isto liga-se ao que hoje já aparece na literatura como dating app burnout (exaustão emocional, ineficácia, despersonalização da experiência).

3. Ghosting e dissolução “sem narrativa”

Quando uma ligação termina sem explicação, não termina apenas a relação, termina também a possibilidade de “fecho” interno. E isso deixa resíduos: ruminação, culpa, hipervigilância no próximo encontro.

Diferenças de experiência entre género: ruído vs invisibilidade

Aqui, os dados ajudam-nos a sair de uma guerra de narrativas comum entre género (“para vocês é fácil”; “para vocês é impossível”).

O Pew Research Center (2023) mostra um padrão consistente:

  • Muitas mulheres reportam sentir-se sobrecarregadas com mensagens e também mais experiências negativas (assédio, conteúdo sexual não solicitado).
  • Muitos homens reportam mais insegurança por falta de mensagens/retorno.

Isto cria uma assimetria que distorce o vínculo logo na origem: para umas, o desafio é filtrar ruído e risco; para outros, o desafio é lidar com escassez e rejeição.

E depois há a consequência subtil: quando o início é vivido como “mercado” (seja por excesso, seja por escassez), a tendência é entrar no encontro com menos ternura e gentileza e mais estratégia, o que raramente ajuda a criar intimidade.

Vida offline: o outro lado do problema (e talvez o mais esquecido)

Mesmo quem não usa apps descreve algo parecido: “não conheço pessoas novas”.
E aqui entra uma ideia: o romance moderno exige uma coisa estranha: que encontremos o amor “naturalmente” numa vida que já não cria condições naturais para encontros.

A erosão dos “terceiros lugares”

O sociólogo Ray Oldenburg chamou “third places” aos espaços entre casa e trabalho onde a vida social acontece com leveza: cafés, bibliotecas, associações, clubes, aulas, vizinhança. Sem isto, o amor fica dependente de:

  • trabalho (cada vez mais fechado/online), ou
  • apps (cada vez mais cansativas).

A ideia de “terceiro lugar” é um bom mapa para perceber porque a vida offline parece mais limitada.

Tempo: a intimidade precisa de repetição, e nós vivemos de exceções

O vínculo não nasce só de química. Nasce de repetição com segurança suficiente para relaxar.

Mas a vida dos 25-45 (carreira, instabilidade, múltiplos trabalhos, deslocações, burnout) cria uma cultura de “janela”: tenho terça à noite, mas não sei como vou estar.

E isto liga-se a algo maior: quando a vida fica demasiado cheia, o dating transforma-se numa tarefa … e a tarefa mata o desejo.

Habitação e transições adiadas (o elefante na sala)

Há dados europeus a mostrar mudanças estruturais: aumento de agregados unipessoais na UE e evidência de que a crise da habitação está a atrasar transições para autonomia e formação de casa (incluindo jovens adultos empregados a viverem com os pais, por país, em 2022).

Isto não “explica” tudo, mas muda o terreno: viver em suspensão entre casa dos pais, partilhas, rendas incomportáveis, altera privacidade, energia, projeto de vida e até a forma como alguém se apresenta no dating (“não sei bem o que posso oferecer”, “não posso prometer muito”).

Em Portugal, por exemplo, a idade média ao primeiro casamento é elevada (indicador do adiamento de etapas formais).

O pano de fundo emocional: mais solidão, menos comunidade

A solidão não é só “não ter ninguém”. É sentir que não se tem com quem pousar.
O Joint Research Centre da Comissão Europeia criou o primeiro inquérito UE-wide sobre solidão (2022) e apresenta estimativas de prevalência e padrões sociodemográficos.

Quando este pano de fundo está presente, é fácil que o dating se torne um movimento pendular:

  • procurar para aliviar a solidão
  • cansar e retirar-se para não doer
  • voltar a procurar porque a solidão volta.

E o que podemos fazer perante este cenário? Ideias práticas que aumentam probabilidade de vínculo (sem moralismos e fórmulas mágicas)

1. Trocar “maximizar escolha” por “maximizar condições”

Uma pergunta simples antes de abrir a app:

Estou a procurar encontro ou “anestesia”?

Se for anestesia, a experiência tenderá a deixar-te pior (porque nunca chega!).

2. Definir um ritual de uso (porque o infinito cansa)

  • 2-3 janelas por semana (ex.: 20–30 min)
  • sem swiping na cama (associa a ansiedade ao descanso)
  • pausa de 1-2 semanas quando surgir saturação (isto é higiene, não desistência)

A literatura sobre fadiga/burnout ajuda a legitimar este cuidado como algo comum, não como “fraqueza”.

3. Menos conversa, mais encontro (com critérios de segurança)

Para reduzir “purgatório de mensagens”:

  • Algumas mensagens para testar interesse/valores básicos
  • Proposta de café curto (45-60 min)
  • Se não há follow-up consistente, não alongar

Isto combate o efeito de reforço intermitente e a fantasia do “quase”.

4. Um “protocolo anti-catálogo”: 3 perguntas que humanizam

Em vez do tentador “o que fazes?”, que claro, faz parte, tentar também outras abordagens, como por exemplo:

  • “O que te tem dado energia ultimamente?”
  • “O que aprendeste sobre ti numa relação anterior?”
  • “O que é um bom domingo para ti?”

Parece pequeno, mas desloca a pessoa de produto para história.

5. Recriar vida offline com intenção (o antídoto dos terceiros lugares)

Se não há “encontros espontâneos”, cria-se probabilidade:

  • 1 atividade semanal repetida (aulas, clube, voluntariado, grupo de corrida, coro, dança)
  • 1 espaço social fixo (o teu café/biblioteca/mercado, sempre na mesma hora)
  • 1 prática mensal de “amigos trazem amigos” (jantares pequenos, não eventos gigantes)

Portanto, a ideia é “Oldenburg aplicada ao amor”: construir ecossistema, não depender de mil matches.

6. Clarificar “estou disponível para quê?”

Muita dor nasce de expectativas desencontradas.
Um gesto adulto (e profundamente sedutor) é dizer cedo:

  • “Procuro uma relação” / “procuro conhecer sem pressa” / “não estou disponível para compromisso agora”

Menos ambiguidade não mata o romance; mata o desperdício de energia e tempo.

Uma conclusão…

Talvez o problema dos millennials não seja “não saber amar”.
Talvez seja tentar amar num mundo que:

  • facilita o acesso
  • dificulta a presença
  • treina a comparação
  • e enfraquece os lugares onde a vida se cruza.

Para bem de todos, ainda assim, o vínculo continua vivo. Há esperança! Talvez precisemos de ser um pouco mais criativos e corajosos… o que pode significar deixar de tratar o amor como encontro raro e começarmos a tratá-lo como uma condição cultivada.

Referências bibliográficas

  • European Commission, Joint Research Centre (JRC). (2022). EU Loneliness Survey (página do projeto).
  • European Commission, Joint Research Centre (JRC). (2022). Loneliness prevalence in the EU (EU-LS 2022).
  • Eurofound. (2024). Young people aged 25–34 in employment and living in the parental home by EU Member State, 2022 (%) (data catalogue).
  • Eurofound. (2025). Foundational challenges: The housing struggles of Europe’s youth.
  • Eurostat. (2024). Household composition statistics (Statistics Explained).
  • Finkel, E. J., Eastwick, P. W., Karney, B. R., Reis, H. T., & Sprecher, S. (2012). Online Dating: A Critical Analysis From the Perspective of Psychological Science. Psychological Science in the Public Interest, 13(1), 3–66.
  • INE (Portugal). (2025). Indicador 0001348 – Idade média ao primeiro casamento (Portugal).
  • LeFebvre, L. E. (2019). Ghosting in Emerging Adults’ Romantic Relationships: The Digital Dissolution Disappearance Strategy. Journal of Social and Personal Relationships.
  • Oldenburg, R. (1989/2023). The Great Good Place (conceito de “third place”).
  • Pew Research Center. (2023). The experiences of U.S. online daters.
  • Pew Research Center. (2023). Key findings about online dating in the U.S.
  • Pronk, T. M., & Denissen, J. J. A. (2020). A Rejection Mind-Set: Choice Overload in Online Dating. Social Psychological and Personality Science.
  • Sharabi, L. L. (2024). Susceptibility to dating app burnout over time. New Media & Society.
  • Degen, J. L. (2025). Coping with mobile-online-dating fatigue… Current Psychology (Springer).
  • Rosenfeld, M. J., Thomas, R. J., & Hausen, S. (2019). Disintermediating your friends: How online dating in the United States displaces other ways of meeting. PNAS, 116(36), 17753–17758.

Leia também: “Baião D’Oxigénio” promete noites de gargalhadas no Teatro Municipal de Tavira

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