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Cultura.Sul, Edição Papel, Opinião

Entrevista a José Eduardo Agualusa sobre Os Vivos e os Outros: “O que devemos esperar dos escritores?”

LETRAS & LEITURAS – Artigo de Paulo Serra publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de dezembro

10:32 3 Dezembro, 2020 11:11 29 Novembro, 2024 | Cristina Mendonça
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PAULO SERRA
Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve
Investigador do CLEPUL

Os Vivos e os Outros é o novo romance do autor angolano José Eduardo Agualusa que pode, e deve, ser lido no seguimento do anterior A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, publicado em maio de 2017. Três anos depois, o autor regressa uma segunda vez a uma personagem sua, o Daniel Benchimol de Teoria Geral do Esquecimento, jornalista que investiga desaparecimentos, e que foi também o protagonista do romance A Sociedadedos Sonhadores Involuntários, onde o autor explora o papel dos sonhos na vida das pessoas. Entre estes dois romances, Os Vivos e os Outros e A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, há pontos em comum ainda que não imediatamente reconhecíveis.

A Sociedade dos Sonhadores Involuntários constitui uma sátira política e, ao mesmo tempo, uma homenagem, motivada pela prisão dos 17 jovens angolanos, onde se destacava Luaty Beirão, que a 20 de Junho de 2015 foram presos em Luanda quando se reuniam para discutir um livro de filosofia política: Da ditadura à democracia de Gene Sharp. Os jovens foram então acusados de preparar um golpe de Estado e foram presos. Este livro, escrito na altura em que começaram a surgir as primeiras manifestações em Angola pró-democracia, revela como o romance representa uma poderosa arma crítica.

Em Os Vivos e os Outros abandona-se o tom satírico e a questão política, dando lugar a uma divertida – mas nada leviana – exploração da literatura e do seu papel na vida dos leitores e na vida dos escritores, dos temas (por vezes saturados) que hoje são caros à crítica e à moderação de tertúlias literárias, a mesa dos escritores negros, etc.

Havia esta premência em compreender o papel da literatura actual (vou evitar dizer africana ou lusófona ou qualquer outra etiqueta restritiva)?
Compreender não. Talvez interrogar. Interessa-me pensar no papel dos escritores nos dias de hoje, em particular dos escritores africanos. A literatura foi importante para afirmação dos movimentos independentistas no continente africano. E hoje, o que podemos ou devemos esperar dos escritores?

Há inclusivamente deliciosos momentos de humor, em especial em torno das percepções destes escritores sobre a literatura, sobre a sua escrita e expectativas dos leitores, sobre as perguntas saturadas da audiência na plateia, sobre o inquirir o escritor como se ele fosse um vidente… Atrevo-me a dizer que esta nota de humor é nova…
Este romance tem um lado de sátira política, como tem “O Vendedor de Passados”, ou “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Acho que em todos os meus romances há uma certa ironia.

O escritor José Eduardo Agualusa

Há, claramente, uma elegia a diversos autores, ora mencionados, ora indirectamente evocados: «Camões, Alberto de Lacerda, Rui Knopfli, Luís Carlos Patraquim, Nelson Saúte» (p. 88). A própria escritora Cornelia lembra a autora nigeriana Chimamanda (p. 88). Podemos pensar que alguns destes autores são também aqueles que mais aprecia ou a quem escolheu prestar homenagem?
Há hoje em dia um número considerável de escritoras nigerianas com sucesso internacional. Assim de repente, lembro-me da Bernardine Evaristo (Booker Prize), da Taiye Selassi (que vive em Lisboa), da Helen Oyeyemi, de que gosto muitíssimo e da Chinelo Okparanto. O boom da literatura nigeriana pode explicar-se devido a um vasto conjunto de factores, começando na atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao Soyinka, em 1986, até à diáspora nigeriana no Reino Unido e nos EUA. Seja como for, é um facto: há hoje um grande número de jovens escritores nigerianos com amplo reconhecimento internacional. A minha personagem, Cornelia, pode ter um pouco de todos eles. Conheço muito bem a Chimamanda e, acredite, não se parece com a Cornelia. Alguns dos outros personagens começaram por se basear em figuras reais, mas depois cresceram e foram adquirindo personalidade própria. A Cornelia foi dos que mais cresceu. Para mim é a personagem mais interessante do livro.

Tal como no romance anterior, mas de forma ainda mais complexa, esta narrativa encaixa diversas histórias, a começar pelo facto de o próprio livro ter tido origem num conto do autor, «O construtor de castelos» publicado em 2012 e que terá continuado a crescer em si – esta explicação surge na nota do autor no final do livro, se bem que um leitor atento estranhará as várias páginas que essa história efectivamente ocupa dentro do romance. Pode explicar como é esse processo (se for sequer consciente) de uma história ficar a crescer dentro do autor?
Esse conto é o coração do livro. É o que de certa forma o justifica e explica — o que eu pretendia era escrever um romance sobre pessoas aprisionadas numa cápsula do tempo, num território fora do alcance do presente. Numa espécie de Purgatório, entre o fim de um mundo e o começo de outro.

“Interessa-me o sonho enquanto utopia, enquanto matriz de mudança”

E com as várias histórias entram no romance várias personagens, a começar por Moira Fernandez, artista plástica que usava (no romance anterior) os seus sonhos como principal matéria-prima, e que Daniel já conhecia em sonhos. Ainda que se evitem biografismos, é difícil não pensar em Daniel Benchimol (autor de reportagens e livros que entretanto deixou o jornalismo) como um alter-ego de Agualusa, da mesma forma que Moira pode representar Yara, a realizadora moçambicana.
Daniel partilha elementos da minha biografia, sim, mas não partilha por exemplo as minhas convicções em relação ao movimento democrático. Ele representa um certo tipo de pessoas que se desiludiram com o processo revolucionário, e desistiram de combater pela democracia. Não é o meu caso. Eu estou mais próximo da filha dele em “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Em qualquer caso, agrada-me jogar com isso, como um dos personagens do livro, Jude, que escreve um romance autobiográfico com um narrador que é uma caricatura degradada dele próprio. Coetzee fez isso muito bem.

Este romance é também um memorial da ilha de Moçambique, da sua história e riqueza cultural, e dos ilhéus que lá vivem e que o acolheram – Agualusa vive já há alguns anos na ilha de Moçambique. Penso que se não fosse assim também não teria feito uma crítica tão feroz à política angolana no seu anterior romance.
O meu romance anterior foi escrito numa situação política que entretanto mudou — durante o regime de José Eduardo dos Santos. De alguma forma previu a queda dele. A situação atual é muito diferente, para melhor, no que diz respeito à liberdade de expressão e ao combate contra a corrupção. Mas ainda há muito para ser feito.

A capa do novo romance do escritor angolano

A sua relação pessoal com os sonhos continua muito presente, neste romance, como se a matéria literária e a matéria dos sonhos proviessem da mesma fonte. Temos personagens que relembram sonhos vívidos, que nos são brevemente narrados. O sonho não é fuga ao real nem libertação de desejos inconscientes, mas uma utopia, um desejo, uma aspiração a uma sociedade melhor. Para a qual a própria ficção concorre, até porque este é também um romance que versa o fim dos tempos, o encerramento de um mundo e o início de outro. É a manifestação de um desejo de renascimento (ainda mais atendendo aos tempos conturbados em que o livro saiu) através da palavra e da imaginação?
Sim, sem dúvida. Como no romance anterior, interessa-me o sonho enquanto utopia, enquanto matriz de mudança. Sonhamos com aquilo que nos preocupa. Com os sonhos tentamos encontrar respostas. É o mesmo com as utopias.

Além da temática central do sonho, tal como no romance anterior, mas desta vez sem se cingir à natureza dos sonhos, há diversos elementos mágicos – chega-se a falar em realismo mágico a dado passo da narrativa. E o final do livro, quando Daniel recebe um estranho manuscrito, remete-nos para o final épico de Cem Anos de Solidão…
A Ilha de Moçambique, como Luanda, é um território no qual as pessoas transitam tranquilamente entre a realidade e o imaginário — a ficção. Não colocam fronteiras. Algumas das histórias que conto, provavelmente as mais inverosímeis, recolhi-as na ilha. Aconteceram mesmo. Como a história do homem que tentou voar para Meca, isso realmente aconteceu.

“As pessoas que aqui chegam são como náufragos do futuro”

As próprias personagens, isoladas na ilha de Moçambique, sem internet nem comunicações, encontram-se numa espécie de limbo, que remete para a dualidade do próprio título: Os Vivos e os Outros. Estes escritores deslocados, convidados para um festival literário na ilha bem como os restantes habitantes, encontram-se assim entre dois mundos, o que parece ser a natureza da própria literatura, intemporal, situada num lugar atópico entre o real e o fantástico: «Os mundos germinam dentro da nossa cabeça, e crescem até não caberem mais, e então soltam-se e ganham raízes. A realidade é isso, é o que acontece à ficção quando acreditamos nela.» (p. 180). Será que conflui, nesta expressão de um certo deslocamento do real, a sensação de viver num espaço histórico um pouco esquecido, um pouco fora do tempo, ainda que haja uma ponte de 3 km a ligar a ilha ao continente?
Como disse antes, a ilha é uma espécie de cápsula do tempo, nada do que é presente nos alcança. Por exemplo, a pandemia que aflige o mundo todo neste momento mal se sente na ilha. Não é sequer tema de conversa. Sentem-se, contudo, as suas consequências. A ilha ficou ainda mais isolada. As pessoas que aqui chegam são como náufragos do futuro.

Por fim, e esta explicação surge também na nota final do autor, há episódios baseados em eventos reais. Não posso deixar de perguntar se isso se prende com a tempestade – que também contribui para o isolamento na ilha – e que me relembra a situação vivida na Beira, um pouco mais a sul, o ano passado, com a passagem do ciclone Idai que devastou a cidade, cortou comunicações e energia durante quase um mês (no livro decorrem apenas 5 dias), e rodeou povoações inteiras da «prodigiosa água que durante dias apagou o mundo» (p. 324). Além de que houve dias depois, um pouco mais a norte, a passagem de um segundo cicole em Pemba. A própria palavra ciclone (p. 233) é referida.
Sim, isso sim, sentimos na ilha os efeitos do ciclone. Por outro lado, é muito comum estarmos na ilha, com tempo limpo e muito calmo, assistindo a grandes tempestades na costa, a apenas três quilómetros de distância. O livro começa com essa imagem.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de dezembro)

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