Durante décadas, a ficção científica advertiu-nos sobre mundos onde as pessoas deixavam de ser pessoas para se tornarem códigos. Muitos viam essas histórias como exageros distópicos, úteis para entretenimento mas distantes da realidade. Hoje, porém, a pergunta deixou de ser literária: até que ponto estamos a aceitar, quase sem perceber, essa transformação silenciosa?
Quando contactamos uma repartição pública, um banco ou uma seguradora, já não começamos por dizer quem somos. Dizemos o número de contribuinte, o número de cliente, o número de processo. O nome — essa marca de singularidade — tornou-se um detalhe administrativo. É verdade que a numeração facilita a gestão de milhões de registos; mas o efeito simbólico é mais profundo: o sistema conhece-nos menos como pessoas do que como entradas de base de dados. E o mais inquietante é que já nem estranhamos esta despersonalização.

Jurista
A verdadeira questão não é saber se já nos tornámos números. A questão é saber se ainda valorizamos o suficiente aquilo que só o nome — a identidade singular, irrepetível — pode representar
O mesmo sucede com a vigilância. As distopias clássicas imaginavam câmaras omnipresentes e um “Grande Irmão” vigilante. A realidade não copiou esse modelo — fez algo mais subtil e eficaz. Criou um ecossistema de rastreamento contínuo, feito de telemóveis, aplicações, plataformas e algoritmos que recolhem, cruzam e interpretam dados. Hoje, basta desbloquear o telemóvel para deixar um rasto. Não somos apenas observados; somos analisados, classificados e perfilados. A vigilância deixou de ser vertical e coerciva para se tornar distribuída, voluntária e invisível. Cedemos dados em troca de conveniência, e essa troca parece tão natural que raramente a questionamos.
A distopia contemporânea não precisa de força; basta ser útil. Não houve polícia secreta, toque de recolher ou censura explícita. Houve rapidez, conforto, eficiência. A vigilância entrou pela porta da frente, com notificações simpáticas e interfaces intuitivas.
É justo reconhecer que a quantificação também trouxe benefícios: sistemas de saúde mais organizados, serviços públicos mais rápidos, decisões mais informadas. Mas quando a lógica do cálculo se torna o critério dominante, aquilo que não cabe em métricas — a dignidade, a relação, a singularidade — começa a desaparecer do horizonte. E é precisamente aí que o risco se torna maior.
A verdadeira questão não é saber se já nos tornámos números. A questão é saber se ainda valorizamos o suficiente aquilo que só o nome — a identidade singular, irrepetível — pode representar. Entre o nome e o número, é essa escolha silenciosa que moldará o futuro da nossa liberdade.
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