O debate gerado pelas declarações de Rui Paula, a referir que prefere nepaleses a portugueses, foi rapidamente transformado numa discussão sobre portugueses versus nepaleses.
Mas essa não é a verdadeira questão.
A diferença não está na nacionalidade.
Está na mentalidade.
Portugal é um dos países da Europa que mais exportou talento ao longo da sua história. Milhões de portugueses emigraram para França, Luxemburgo, Suíça, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Canadá e tantos outros destinos. Fizeram-no porque procuravam uma vida melhor, melhores salários e mais oportunidades para as suas famílias.
E a verdade é simples: muitos portugueses continuam hoje a ganhar muito mais dinheiro fora de Portugal do que ganhariam no seu próprio país.
Por isso, a pergunta não deveria ser porque existem trabalhadores estrangeiros em Portugal.
A pergunta deveria ser: porque é que cada vez menos portugueses estão disponíveis para ocupar determinadas funções?
A resposta não é única.
Existem muitos portugueses extraordinários que continuam no país por amor à sua terra, à sua família e à sua comunidade.
Chef Paula num momento generalista esqueceu de vocês num ataque xenofóbico. Se um português chega ao restaurante dele a pedir emprego, o que faz? Ignorar e mandar embora?
Há muitos portugueses que trabalham todos os dias. Muitas vezes em condições difíceis, sustentam empresas, criam emprego e fazem Portugal avançar. A essas pessoas deixo um abraço sincero e um enorme agradecimento.
São frequentemente esquecidas nestes debates e merecem muito mais reconhecimento.
Mas também existe outra realidade.
Existe uma parte da sociedade que se habituou à procura constante de conforto, estabilidade e ausência de risco.
Pessoas que não procuram novos desafios, que evitam sair da sua zona de conforto e que, muitas vezes, acreditam que a responsabilidade pela sua situação está sempre nos outros: no governo, nos empresários, nos estrangeiros ou no sistema.
É precisamente aqui que muitos discursos populistas prosperam.
Vendem a ideia de que os problemas vêm sempre de fora.
Que o culpado é o imigrante, a globalização ou qualquer outro fator externo.
Mas a verdade é que o desenvolvimento começa sempre dentro de cada um de nós.
Não estou a dizer que todos devem trabalhar mais horas. Não estou a dizer que todos devem emigrar. Nem estou a dizer que todos devem ser empresários.
Estou apenas a dizer que devemos procurar fazer bem aquilo que escolhemos fazer.
Se alguém varre uma rua, por muito temporariamente que seja, se o for, que o tente encontrar fazer com orgulho. Se alguém serve mesas, que o faça com profissionalismo. Se alguém gere uma empresa, que o faça com responsabilidade. O valor do trabalho não está no cargo.
Está na atitude com que o desempenhamos.
Talvez um dos maiores problemas da sociedade moderna seja a forma como muitas pessoas encaram o trabalho: como um castigo que é necessário suportar até chegar o momento de viver.
Como se a vida acontecesse apenas depois das cinco da tarde, ao fim de semana ou nas férias.
Mas a vida acontece todos os dias.
Acontece também no trabalho.
Acontece nos desafios, nas aprendizagens, nas relações que construímos e nos objetivos que alcançamos.
Nem todos os dias serão bons.
Nem todos os empregos serão apaixonantes.
Mas existe quase sempre algo positivo que podemos encontrar no que fazemos, algo que nos permite crescer, aprender ou contribuir.
Dito isto, importa também reconhecer um ponto importante.
Quando figuras públicas afirmam que determinados trabalhadores estão mais disponíveis para trabalhar do que outros, existe sempre o risco de a mensagem ser interpretada da forma errada.
Muitos trabalhadores poderão ouvir estas declarações e concluir que aquilo que os empregadores realmente procuram são pessoas dispostas a trabalhar mais horas, aceitar piores condições ou receber menos pelo mesmo trabalho.
Essa preocupação é legítima.
Infelizmente, existem empresas e empregadores que, em vez de procurarem produtividade, procuram apenas mão de obra barata e disponível para aceitar condições que outros recusariam.
E quando isso acontece, o problema não está na nacionalidade dos trabalhadores.
Está no modelo de gestão e nas condições oferecidas.
Não estou a afirmar que seja esse o caso de Rui Paula. Não vou cair na ignorância de generalizar e atacar. Não conheço a realidade das suas empresas nem as condições que oferece aos seus colaboradores.
Mas é importante compreender que declarações deste tipo podem ser interpretadas dessa forma por muitas pessoas.
O desafio para qualquer empresa moderna não deve ser encontrar quem trabalhe mais horas pelo mesmo salário.
Deve ser criar um ambiente onde as pessoas queiram trabalhar, crescer, aprender e ser recompensadas pelo valor que geram.
O trabalho duro é uma virtude.
A exploração não é.
Ambição não significa aceitar qualquer condição. Significa procurar evoluir, criar valor e ser justamente recompensado por isso.
Por isso, quando discutimos temas como imigração, falta de mão de obra ou produtividade, devemos evitar cair em simplificações.
Nem todos os empresários querem explorar trabalhadores. Nem todos os trabalhadores recusam esforço. E nem todos os problemas do mercado de trabalho se explicam pela falta de vontade de trabalhar.
O verdadeiro debate não é entre portugueses e nepaleses.
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