Durante décadas, os sindicatos em Portugal foram um dos pilares da democracia social.
A CGTP e a UGT representaram gerações de trabalhadores num país que saiu tarde da pobreza, da repressão e do atraso económico.
Nos anos posteriores ao Revolução dos Cravos, era natural que a prioridade fosse recuperar direitos básicos: salário digno, férias, segurança laboral, contratação coletiva, proteção social.
Mas Portugal mudou. E os sindicatos, em muitos aspetos, ficaram parados.
Do atraso à modernização
Nos anos 80, com a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, o país abriu-se ao mundo.
Surgiu uma nova classe média, novas empresas, novos setores, novas ambições.
Sob Aníbal Cavaco Silva, consolidou-se uma visão de modernização económica.
Nos anos 90, essa transformação económica exigiu também progresso social.
Foi o tempo em que com Guterres e o PS que temas como igualdade de género, direitos civis, descriminalizações, combate a conservadorismos antigos e modernização cultural ganharam espaço político. A esquerda teve mérito em várias dessas batalhas.
Mas ao ganhar guerras culturais, foi esquecendo perdendo a guerra laboral.
O abandono do trabalhador comum
Entre os anos 2000, 2010 e já em plena década de 2020, muitos trabalhadores passaram a sentir que já ninguém fala verdadeiramente por eles.
– Salários baixos
– Casas incomportáveis
– Jovens qualificados emigrados
– Contratos precários
– Custo de vida crescente
– Pequena classe média esmagada
– Trabalhadores independentes sem proteção
– Gig economy sem representação
Enquanto isso, parte da esquerda institucional concentrou-se em debates identitários ou simbólicos que, sendo legítimos, não resolvem o drama principal de quem trabalha e não consegue viver com dignidade.
Quando o cidadão sente que ninguém o defende, procura quem grite mais alto.
O risco: sindicatos capturados pelo populismo.
É aqui que surge o perigo.
Se a CGTP e a UGT continuarem desligadas da nova realidade laboral, abrem espaço para forças populistas como o Chega tentarem ocupar esse vazio.
Aconteceu em França e o seguimento foi o mesmo. A extrema direita iniciou com quem trabalhava na noite com a sensação de que o crime só vinha dos emigrantes. Taxistas, hotelaria, restauração, etc. Depois alastrou-se a zonas como Marselha ou Calais. Nada mais que um depósito de emigrantes ilegais a espera de ir para o Reino Unido.
E expandiu-se nos nichos conservadores. Agricultores, industriais e outros comecaram a ver os berros da extrema direita um único refugia para ter poder e voz. Mas não passaram dos 20%. Para a Presidente, Le Pen precisava de solidificar a classe média empregada no sector público como privado. Não haveria um outra hipotese.
E foi aí que se concentrou.
Hoje o Chega acabar por ser uma tentação semelhante àclasse média.
Não porque tenham tradição sindical. Não porque tenham melhores soluções económicas.
Mas porque percebem algo simples:
Onde há abandono, cresce revolta.
Onde há revolta, cresce quem a sabe explorar.
Hoje pode parecer improvável.
Amanhã pode já não ser.
O sindicalismo do século XIX no século XXI não funciona!
Muitos sindicatos continuam presos a ferramentas antigas:
– greves previsíveis
– linguagem burocrática
– aparelhos fechados
– pouca renovação geracional
– comunicação fraca
– quase inexistência digital
Uma autêntica vergonha.
Parece um bando de comunistas e Trotskis que apanharam uma máquina do tempo.
No século XIX, a luta fazia-se à porta da fábrica. Hoje faz-se num dia no fim-de-semana prolongado na praia.
No século XXI, a luta também se deve fazer no telemóvel
Uma empresa que paga mal, explora ou humilha trabalhadores devia enfrentar escrutínio público imediato.
Directo nas redes sociais. Com total transparência.
Transparência salarial, rankings laborais, mobilização digital, boicotes organizados, campanhas inteligentes isso também é ação sindical moderna.
E já agora isso também o mercado a funcionar. Se soubessemos a cadeia de supermercados e hipermercados que recrutam mais pessoas por volume de negocios e com melhores salários não tenho dúvida alguma que a concorrência seria sob boicote.
Mercado? Esquecemos lá isso.
Sindicatos ou estarão na mão dos comunistas, dos trotskis ou dos salazaristas.
Os sindicatos portugueses, em geral, ainda não perceberam o poder das redes sociais.
Melhor. Perceberam mas não querem explorar. Porquê? Porque perderiam poder.
Que poder? Nenhum.
O problema económico central: falta de liquidez
Portugal vive um bloqueio simples: as pessoas ganham pouco e consomem pouco.
Se os trabalhadores não têm rendimento:
compram menos
Se compram menos, empresas B2C (que vendem a clientes individuais e não empresas) faturam menos.
Se faturam menos, o investimento trava.
Estado arrecada menos, a economia estagna etc.
Não existe prosperidade sustentável com salários estruturalmente baixos.
Portugal precisa de duas coisas ao mesmo tempo:
– Trabalhadores a ganhar mais > Poder de Comprar.
– Empresas a vender mais e produzir melhor > Crescimento económico e produtividade.
Não é uma escolha entre patrão e trabalhador. É uma equação nacional.
O que fazer?
O novo sindicalismo português devia defender:
1. Salários dignos ligados à produtividade.
2. Habitação acessível.
3. Combate à precariedade real.
4. Proteção de freelancers e plataformas digitais.
5. Transparência salarial.
6. Formação contínua.
7. Pressão pública inteligente sobre maus empregadores.
8. Negociação moderna e não folclórica
Conclusão:
Se a esquerda continuar a falar para nichos e não para quem acorda às 6 da manhã para trabalhar, perderá os sindicatos.
E quando perder os sindicatos, perderá uma das últimas ligações ao país real.
O perigo é crescer nas fábricas, nos armazéns, nos call centers, nos hospitais, nos motoristas, nos jovens precários e nos trabalhadores cansados de esperar.
Porque quando os representantes desaparecem, aparecem substitutos fascistas indesejáveis. Com sede de poder a falar as maiores tretas do costume.
Hoje em França.
Amanhã em Portugal.
Depois não digam que eu não avisei.
Leia também: A Morte do Artista | Por Tiago Manuel















