Há dias, na CNN Portugal, António José Telo, comentador habitual naquele canal televisivo, explicava que os Estados Unidos estariam a preparar a “estratégia da anaconda” contra o Irão. Sim, isso mesmo: a estratégia da anaconda. A imagem é perfeita para o nosso tempo. Uma anaconda não discute, não negocia, não redige comunicados conjuntos. Aperta. Devagar, pacientemente, até que o outro deixe de respirar. É simples, é visual, é cinematográfica — e sobretudo evita a necessidade de pensar.
Vivemos numa época em que a diplomacia deixou de ser apenas desvalorizada: tornou-se suspeita. Negociar é lento, exige ambiguidades, obriga a reconhecer que o adversário tem interesses legítimos. E isso basta para ser visto como fraqueza ou traição. A guerra, pelo contrário, oferece uma narrativa pronta para consumo imediato: bons e maus, liberdade contra tirania, culpados e inocentes. Dá audiências, dá votos, dá certezas. Quando a realidade insiste em ser complexa, não a enfrentamos: inventamos um animal para a esconder.
A anaconda, neste caso.
Antes dela, tivemos falcões e pombas. Há tigres económicos, dragões asiáticos, ursos russos e leões de toda a espécie — porque nenhuma potência que se preze aceita ser comparada a um texugo. Agora chegam as anacondas. Não tardará muito e os departamentos de Relações Internacionais terão de abandonar Clausewitz e adotar um manual ilustrado de zoologia. Em vez de estratégia de contenção, a tática da jibóia. Em vez de equilíbrio de poderes, o método do crocodilo. Para os países pequenos, talvez reste a sobrevivência do camaleão: mudar de cor depressa e esperar que ninguém repare.
As metáforas são inevitáveis; ajudam-nos a compreender. O problema começa quando deixam de explicar a realidade e passam a substituí-la. Porque o Irão não é uma presa e os Estados Unidos não são uma serpente gigantesca. São países, sociedades, regimes, instituições, interesses contraditórios e milhões de pessoas. Há ali memórias da Operação Ajax(1), da guerra Irão-Iraque, rivalidades com a Arábia Saudita, ambições nucleares, petróleo, sanções, alianças e medos. Nada disso cabe numa serpente. Nada disso se deixa apertar.
Mas nós estamos cansados da complexidade. Queremos saber rapidamente quem tem razão. Queremos escolher uma equipa. Queremos um mapa com cores diferentes e setas suficientemente grandes para não deixar dúvidas. E queremos, acima de tudo, uma explicação que possa ser repetida entre dois anúncios publicitários.
A anaconda cumpre admiravelmente essa função. Aperta.
É simples. É ameaçadora. E dispensa aquela pergunta incómoda que a diplomacia insistiria em colocar: e depois?
Depois de apertar o Irão, acontece o quê? Cai o regime? Negocia? Resiste? Radicaliza-se? Fragmenta-se? O poder passa para alguém melhor ou apenas para alguém diferente? Quem controla as consequências? Quem paga o preço? Quem garante que a serpente sabe quando deve parar?
São perguntas menos cinematográficas do que uma anaconda, reconheça-se. Mas talvez sejam um pouco mais importantes.
O verdadeiro problema não é haver quem fale de estratégias da anaconda. As metáforas têm o seu lugar. O problema é a facilidade com que parecemos satisfeitos quando uma metáfora ocupa o lugar de uma política. A diplomacia tornou-se suspeita porque implica falar com quem não gostamos. O compromisso passou a parecer fraqueza porque obriga a ceder alguma coisa. A ambiguidade é quase uma falha moral. E assim vamos dividindo o mundo entre heróis e vilões, enquanto os diplomatas — esses seres estranhos que ainda acreditam que falar pode evitar que se dispare — são acusados de falta de firmeza.
Talvez um dia descubramos que a geopolítica não é, afinal, um jardim zoológico. Ou talvez já seja tarde.
Nesse caso, resta-nos preparar-nos. Virão as anacondas, naturalmente. Depois os crocodilos. Os falcões continuarão a sobrevoar os estúdios de televisão. Os pombos serão considerados ingénuos. E, algures, discretamente, os diplomatas continuarão a tentar conversar. Num mundo que exige tudo a preto e branco, talvez sejam os únicos que ainda percebem que existem outras cores. Mesmo que, infelizmente, não tenham o carisma televisivo de uma anaconda.
(1) A Operação Ajax foi uma intervenção secreta dos EUA e do Reino Unido que depôs Mossadegh, após este ter nacionalizado o petróleo iraniano, até então controlado pela Anglo Iranian Oil Company (hoje BP). O golpe reinstalou o Xá como líder autoritário e abriu caminho a 25 anos de repressão política, culminando na Revolução Islâmica de 1979.
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