Nos anos setenta deu-se um acontecimento importante do ponto vista político a nível mundial. O golpe de Estado de Pinochet, em 11 de setembro de 1973. Começou então a emergir as políticas neoliberais que hoje dominam o mundo. Milton Friedman e os Chicago Boys transferiram-se para Santiago e aí puseram em práticas teorias neoliberais de Friedman.
Em 1979 foi a vez de Margaret Thatcher, no Reino Unido. Consta que, numa reunião, em que, era suposto, os economistas do Partido Conservador teriam como missão introduzi-la nos meandros da economia, Thatcher sacou de um livro do economista liberal austro-britânico Hayek e disse “está tudo aqui”. Nada teria a aprender com os economistas conservadores.
Em 1981 foi a vez Ronald Reagan conquistar a presidência dos Estados Unidos. Outro neoliberal.

Advogado
É mais fácil apanhar gambozinos que descortinar um programa, um projeto de esquerda…
Thatcher combateu os sindicatos mineiros (e ganhou), espatifou o Serviço Nacional de Saúde ( o que levou Cameron a pedir desculpa aos britânicos por isso) e impôs uma política neoliberal feroz.
A política neoliberal caracteriza-se pelo predomínio do sector privado e a redução do sector público ao mínimo. Crê na capacidade do mercado em resolver todos os problemas económicos e na crença do Estado como estorvo, sorvedor dos recursos do país e sem resultados benéficos para a população. Reagan, por exemplo, privatizou as cadeias, coisa que ainda hoje achamos estranha (ou achávamos).
Enquanto estes dois países, com a importância que têm no panorama mundial singravam por esta via, a Europa social-democrata ia sucumbindo também a essas ideias. Suécia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Alemanha, França, Itália, por exemplo, viram enfraquecer ou desaparecer os partidos e os sistemas social-democratas. O Reino Unido, com o partido trabalhista no poder também não voltou ao que era com Blair.
O PSI e o PSF desapareceram. O SPD não é o mesmo. E a Polónia, a Hungria, os Países Baixos e outros estão numa via de direita, neoliberal.
No meio, em 1974, houve a última esperança da esquerda europeia e não só: o 25 de abril em Portugal. Houve um alvoroço por essa Europa fora. Para Portugal convergiam dezenas e dezenas de olheiros para acompanhar a revolução portuguesa. Bom, o 25 de abril começou como golpe de Estado dos oficiais do regime que não se conformavam com a ascensão dos milicianos. Mas a coisa deu para o torto e, um académico golpe de Estado, transformou-se num movimento popular revolucionário… que não chegou ao fim. Nem sabemos bem qual o fim. A Constituição portuguesa que entrou em vigor em 1976 falava em socialismo, sem ninguém saber ao certo o que era isso. A coisa acabou numa democracia à moda ocidental, nem mais. Do socialismo, nem sombras…
Mas há uma coisa inequívoca: durante 19 meses, de 25 de abril de 1974 a 25 de novembro de 1975, viveu-se o período mais louco, revolucionário e de esperança de Portugal e não só. O PREC é um período lindo da história de Portugal e quando foi possível sonhar com um mundo diferente. Acabou a 25 de novembro a grande esperança que (me) nos alimentou. Estamos aqui, onde estaríamos sem 25 de abril. Ora merda!
Entretanto o Reino Unido teve também Tony Blair, aluno de Giddens, que arrumou de vez a social-democracia britânica com a famosa terceira via.
Ao avanço das ideias neoliberais, segue-se o xenofobismo, o reacionarismo mais atroz, o racismo, a intolerância ao outro, o combate ao género, o populismo, a ignorância mais abjeta, o apelo à autoridade, o combate à religião do outro, à supremacia do homem branco, o combate aos imigrantes (em Portugal, que tem sido um país de emigrantes. Enfim…).
Para este estado de coisas muito tem contribuído os sistemas políticos vigentes. Os nossos dirigentes são escolhidos pelos aparelhos partidários, sem sabermos com que critérios. Votamos nos partidos que põem na lista dos candidatos quem lhes dá na real gana. Depois, os eleitos, não têm de dar contas do que fazem ou deixam de fazer. No poder, fazem o contrário do que prometerem na oposição. E seguem serenos e seguros da sua importância. Isto é o que se passa, por exemplo, em Portugal. E ninguém fala disto, tal como Pangloss, vivemos no melhor dos mundos. E a democracia a afundar-se… independentemente da validade desta democracia.
Recentemente, a “ordem” de Trump para gastarmos 5% do PIB em defesa, mostra bem ao que chegamos em matéria de esquerda. Não houve uma reação, um queixume, uma discordância, uma discussão. A Europa, com o secretário-geral da Nato à frente, a Senhora Van Der Leyen e a menina Kallas prepara-se para se armar e desbaratar décadas de construção do Estado Social. A Europa, onde não há um computador, um smartphone ou uma aplicação universal. Miserável Europa, dirigida por pigmeus, lacaios do Trump.
E a esquerda onde está? É mais fácil apanhar gambozinos que descortinar um programa, um projeto de esquerda…
Porca miséria.
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