Há quem diga que vivemos na era da informação. Eu, por pudor semântico, prefiro chamar-lhe a era da digestão — não de ideias, mas de slogans. A cada manhã, somos servidos com manchetes temperadas com intenções, factos desossados e opiniões empanadas em algoritmos. E nós, os comensais da verdade, mastigamos tudo com a docilidade de um cordeiro domesticado por notificações.
A propaganda, essa senhora de maquilhagem pesada e vocabulário sedutor, tomou o lugar da informação como quem ocupa um trono vazio. Já não se trata de informar, mas de formar — formar perceções, formar consensos, formar indignações sob medida. A realidade? Essa foi reformulada em PowerPoint, com gráficos coloridos e uma música de fundo que nos faz sentir que tudo está, de facto, a correr lindamente.

Jurista
O jornalismo, outrora farol, tornou-se candeeiro de mesa: decorativo, de luz morna e sempre pronto a ser desligado quando incomoda
E nós, os Tótós — palavra que aqui uso com a ternura de quem reconhece a própria condição — vamos aceitando. Aceitamos que nos digam que a inflação é uma sensação, que a crise é uma narrativa, que a pobreza é uma escolha de estilo de vida. Aceitamos que nos tratem como figurantes numa peça onde os protagonistas são os spin doctors e os influencers de ocasião.
O jornalismo, outrora farol, tornou-se candeeiro de mesa: decorativo, de luz morna e sempre pronto a ser desligado quando incomoda. A verdade, essa senhora tímida, já nem sai à rua sem escolta. E quando o faz, tropeça nos fact-checkers que, em vez de a proteger, lhe corrigem a gramática.
Vivemos num tempo em que a dúvida é um ato subversivo. Questionar é quase obsceno. E pensar — pensar! — tornou-se um luxo reservado aos que ainda não foram seduzidos pelo conforto da indignação pré-fabricada.
Mas talvez haja esperança. Talvez, um dia, os Tótós — esses seres que aceitam tudo com a resignação de quem já perdeu a vontade de lutar — se cansem de serem tratados assim, de serem meros espetadores de uma peça onde os protagonistas são os mestres da manipulação e os marionetistas do consenso fácil. Talvez, então, descubram que a verdadeira digestão começa na boca, mas o verdadeiro pensamento nasce no incómodo, na dúvida, na inquietação que desafia a preguiça do espírito.
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