Quem conduz automóvel já pode ter visto este gesto sem perceber exatamente o que queria dizer. Um motociclista segue à frente, acaba de ultrapassar ou abranda ligeiramente e, de repente, tem o gesto de esticar uma perna para trás ou para baixo durante alguns instantes.
À primeira vista, o movimento pode parecer estranho, desnecessário ou até uma distração. Mas, na prática, faz parte de uma linguagem informal usada por alguns motociclistas na estrada. Pode significar agradecimento ou aviso de perigo. Em certas situações, pode também acompanhar uma redução de velocidade, mas não substitui os sinais formais de circulação.
Um “obrigado” sem largar o guiador
Um dos significados mais frequentes é o agradecimento. Quando um automobilista facilita a passagem, abre espaço numa fila de trânsito ou permite uma ultrapassagem em segurança, o motociclista pode esticar ligeiramente uma perna para trás como forma informal de agradecer.
É uma alternativa usada por alguns motards ao gesto com a mão. Ainda assim, importa fazer uma distinção: este gesto não é um sinal previsto no Código da Estrada. Em Portugal, o artigo 90.º determina que os condutores de motociclos não devem conduzir com as mãos fora do guiador, salvo para assinalar manobra, nem seguir com os pés fora dos apoios.
Também pode ser um aviso
Noutras situações, a perna pode servir para alertar quem segue atrás. Segundo guias de condução motard, como os sinais de grupo divulgados pela Motorcycle Safety Foundation, um motociclista pode usar o pé ou a perna para indicar a presença de um perigo na via, sobretudo quando o obstáculo está do lado direito. Pode tratar-se de gravilha, óleo, um buraco, um objeto caído na estrada ou outra irregularidade no piso.
Este sinal é mais frequente entre motociclistas que circulam em grupo, mas também pode ser útil para outros condutores. Nestes casos, o gesto deve ser interpretado como um pedido de atenção ao que vem na estrada.
Pode acompanhar uma redução de velocidade
Há ainda condutores que baixam a perna antes de uma curva, de uma travagem mais forte ou de uma zona de piso irregular.
Esse gesto pode surgir no mesmo momento em que a mota abranda, mas não deve ser visto como sinal formal de travagem ou de mudança de direção. Para os automobilistas, o mais importante continua a ser observar a luz de travagem, a trajetória da mota, os piscas e a distância de segurança.
De acordo com o Código da Estrada, qualquer condutor que pretenda reduzir a velocidade, parar, mudar de direção, mudar de via ou iniciar uma ultrapassagem deve assinalar a intenção com a necessária antecedência. A luz de travagem e os indicadores de mudança de direção continuam, por isso, a ser os sinais relevantes.
E a ligação às corridas?
Há uma técnica visualmente parecida no motociclismo de competição. No MotoGP, alguns pilotos tornaram conhecida a chamada “leg dangle”, ou perna estendida, em travagens fortes antes de curvas apertadas. A técnica ficou especialmente associada a Valentino Rossi a partir de 2005 e tem sido explicada por especialistas como uma forma de procurar equilíbrio, sensação de controlo, efeito aerodinâmico ou simplesmente conforto em travagem.
Mas isso não significa que o gesto usado na estrada para agradecer ou avisar de um perigo tenha necessariamente a mesma origem. Em condução normal, esticar a perna não deve ser tratado como uma técnica necessária para controlar a mota. É sobretudo um gesto informal de comunicação, e não um substituto dos sinais previstos na lei.
Como deve agir se vir este sinal
Se vir um motociclista a esticar a perna, não interprete automaticamente o gesto como provocação ou distração. O mais prudente é manter distância, observar a estrada e perceber o contexto. O artigo 18.º do Código da Estrada determina que o condutor deve manter uma distância suficiente para evitar acidentes em caso de paragem súbita ou diminuição de velocidade do veículo da frente.
Se a mota está a abrandar, prepare-se para reduzir também a velocidade. Se o gesto aponta para um lado da via, esteja atento a obstáculos ou piso em mau estado.
Acima de tudo, não tente ultrapassar de forma apressada nem se aproxime demasiado. Os motociclistas estão mais expostos em caso de acidente e, como recordam a ANSR, a GNR e a PSP nas campanhas de segurança rodoviária dirigidas às duas rodas, os acidentes com motociclos apresentam uma elevada proporção de vítimas graves.
Motociclistas também devem ter cuidado
Embora seja um gesto conhecido entre muitos motards, nem todos os motociclistas o devem imitar. Tirar o pé do apoio pode alterar o equilíbrio, sobretudo em curva, a velocidade elevada, com vento forte ou em piso irregular. Além disso, em Portugal, o Código da Estrada exige que os condutores de motociclos mantenham os pés nos apoios durante a condução.
Para condutores menos experientes, a prioridade deve ser manter uma condução estável, usar corretamente piscas e travões e evitar movimentos bruscos. O gesto não deve substituir a sinalização legal nem comprometer o controlo da mota.
Uma linguagem discreta da estrada
A estrada tem códigos formais, previstos no Código da Estrada, mas também tem pequenos gestos informais que ajudam alguns condutores a comunicar.
Entre motociclistas, há acenos, movimentos de cabeça e sinais com a mão ou com a perna que fazem parte da cultura das duas rodas. Para quem conduz carro, conhecer estes sinais ajuda a interpretar melhor o comportamento de quem segue de mota.
No final, aquele gesto aparentemente estranho pode ter uma explicação simples: o motociclista pode estar a agradecer, a avisar de um perigo ou a acompanhar uma redução de velocidade. Saber isso ajuda a reagir com mais calma e segurança, sem esquecer que os sinais legais continuam a ser os que contam na estrada.
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