A comunidade de “therians”, formada por pessoas que dizem identificar-se, em diferentes graus, como animais não humanos, voltou a ganhar visibilidade nas redes sociais, sobretudo através do TikTok. Embora o fenómeno não seja novo, a circulação de vídeos com máscaras, movimentos inspirados na locomoção de quadrúpedes e linguagem própria trouxe para o debate público uma comunidade que, durante anos, se manteve sobretudo em fóruns online.
Segundo a Euronews, os therians já existiam em nichos da internet muito antes do TikTok, mas a plataforma ajudou a dar-lhes visibilidade junto de um público mais amplo. Em muitos vídeos, os participantes aparecem com acessórios alusivos a animais, como máscaras ou caudas, e fazem movimentos no chão, frequentemente associados a cães, gatos, raposas ou lobos.
Termo surgiu em fóruns online nos anos 90
A palavra “therian” tem origem em “therianthrope”, termo associado à ideia de uma figura meio-humana e meio-animal. A expressão começou a circular nos anos 90 em fóruns online como alt.horror.werewolves, inicialmente ligados à ficção e a universos de fantasia, mas acabou por ser adotada por pessoas que passaram a usá-la para descrever uma identificação mais pessoal como determinados animais não humanos.
Dentro da comunidade, o animal com que cada pessoa se identifica pode ser designado por “kintype” ou, mais especificamente, por “theriotype”. Já o termo “awakening” é usado para descrever o momento em que alguém toma consciência dessa identificação. Ao longo do tempo, a comunidade desenvolveu uma linguagem própria e também debates internos sobre quem pode ou não ser considerado “therian”.
O fenómeno é muitas vezes confundido com os “furries”, mas os dois conceitos não são iguais. Os “furries” estão geralmente ligados a uma comunidade cultural, criativa e lúdica, centrada em personagens animais antropomórficos, muitas vezes fictícios. Podem usar fatos, máscaras ou criar personagens, mas isso não implica necessariamente uma identificação pessoal como o animal representado.
Já os “therians” descrevem uma identificação mais profunda como um animal não humano. De acordo com a forma como a própria comunidade apresenta o fenómeno, não se trata apenas de usar acessórios ou participar numa fantasia, mas de reconhecer esse animal como parte da identidade pessoal. Entre os animais mais referidos estão cães, gatos, raposas, lobos e outros animais, embora existam muitas variações dentro da comunidade.
TikTok deu nova escala ao fenómeno
A visibilidade no TikTok teve efeitos diferentes. Por um lado, permitiu que algumas pessoas encontrassem uma comunidade, linguagem e espaços de partilha. Por outro, também levou a críticas, caricaturas e simplificações, com muitos vídeos a serem reduzidos a danças, performances ou imagens de fantasia, sem contexto sobre o significado que os participantes atribuem à prática.
A Associated Press documentou, por exemplo, encontros de jovens therians em Buenos Aires, onde adolescentes apareceram em espaços públicos com máscaras de animais, movimentos em quatro apoios e forte presença nas redes sociais. A mesma tendência tem sido noticiada noutros países, incluindo Espanha e Portugal.
Ainda assim, é importante distinguir identidade, performance e estética digital. Nem todas as pessoas que usam máscaras, caudas ou fazem “quadrobics” se identificam como therians, e nem todos os therians fazem vídeos ou usam adereços. Parte da confusão pública nasce precisamente dessa mistura entre comunidade, subcultura digital, brincadeira, performance e autoidentificação.
Portugal também entrou no debate
Em Portugal, o tema ganhou maior visibilidade em fevereiro de 2026, depois de ter sido divulgada uma convocatória para um encontro em Vila Real. Segundo o Polígrafo, o evento estava marcado para quinta-feira, 26 de fevereiro, às 18:00, em frente ao Café Club, na Avenida Carvalho Araújo.
A publicação apresentava o momento como um espaço de união, respeito e partilha entre pessoas que vivem o estilo de vida “therian”. Também indicava que não se tratava de um evento para curiosos, mas de um espaço seguro para quem se identificasse com a comunidade.
O Café Club, no entanto, demarcou-se da iniciativa, afirmando que não tinha qualquer ligação ao encontro. Notícias posteriores indicaram que o evento acabou por não se realizar, depois da onda de críticas e reações hostis geradas nas redes sociais.
O caso também entrou no debate político. O Polígrafo verificou uma publicação de André Ventura sobre o tema e concluiu que era verdadeiro que existia uma convocatória para o encontro, mas falso que o grupo estivesse a reivindicar direitos especiais.
Ordem dos Veterinários também se pronunciou
Em maio de 2026, o tema voltou a ganhar destaque em Portugal depois de a Ordem dos Médicos Veterinários definir orientações internas para eventuais situações envolvendo pessoas que se identifiquem como animais não humanos.
Segundo a Euronews, a OMV esclareceu que não havia registo de médicos veterinários portugueses que tivessem recebido pedidos de consulta por parte de therians. Ainda assim, a Ordem entendeu preparar os profissionais para responder a eventuais situações.
A posição foi clara: médicos veterinários não podem realizar diagnósticos, prescrever tratamentos ou praticar atos clínicos em pessoas, mesmo que estas se identifiquem como animais. A Ordem sublinhou ainda que a lei portuguesa não prevê um estatuto jurídico de “identidade animal” e que, para o Direito, uma pessoa que se identifica como animal continua a ser uma pessoa humana.
A tendência continua a gerar debate
A exposição nas redes sociais aumentou o conhecimento público sobre a comunidade, mas também abriu espaço a críticas, mal-entendidos e interpretações contraditórias sobre o fenómeno. Especialistas citados em notícias internacionais têm recomendado cautela na forma como o tema é tratado. A identificação subjetiva, simbólica ou identitária como animal não humano não deve ser automaticamente apresentada como doença, mas pode merecer atenção se estiver associada a sofrimento, isolamento extremo, risco para a pessoa ou dificuldade em lidar com a realidade quotidiana.
Entre a autoidentificação, a performance nas plataformas digitais e a receção pública, os “therians” tornaram-se mais um exemplo de como comunidades antes restritas a fóruns online podem ganhar projeção global através do TikTok.
Em Portugal, mais do que uma comunidade organizada com presença pública regular, o que existe até agora é um fenómeno mediático que chegou às redes sociais, gerou convocatórias pontuais, provocou reações políticas e obrigou algumas entidades profissionais a clarificar limites legais e éticos.
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