A música, os amigos, o casamento, a natureza, o convívio e a calma, o espírito comunitário e o “sítio onde me sinto mais livre”, este ano com eclipse, marcaram esta quarta-feira o arranque do Festival Paredes de Coura.
“Viajo muito, mas as melhores férias que tenho são aqui. É onde me sinto mais livre. Não tenho horas, é onde a cabeça espairece mais. Parece uma casa grande. Já sei onde encontrar os amigos, não preciso do telemóvel”, descreve Clara Magalhães, anestesista de 28 anos, do Peso da Régua, que esteve dez vezes no evento.

Há leituras, bebidas, sestas, sonos profundos de barriga para baixo, muita gente na água, muitas boias e barcos, muito calor, muitas subidas e descidas, parques de estacionamento distantes e outros que quase cobram ouro para um lugar ao sol na 32.ª edição do Festival Paredes de Coura, que se realiza até sábado na vila minhota do mesmo nome, no distrito de Viana do Castelo.
Desenhos, também há: de biquíni, Clara está sentada no chão com os amigos junto à praia fluvial do Taboão, e todos estão de olhos postos numa folha tamanho A2 com os peixinhos de Kafka à Beira Mar (romance do japonês Haruki Murakami), a gata Luninha, as veias coronárias, cordas vocais, o muro e a capela, as suculentas da mãe, e um sol pintado hoje por causa do eclipse que não querem perder, mas “com óculos certificados” para proteção.
O “desenho livre” começou em 2025, quando Clara estava a estudar “para um exame internacional de anestesia e nos tempos livres pintava para relaxar”, este ano voltou ao festival e pode ou não ficar concluído.
“Se não for neste festival, é no próximo”, justifica.
A enfermeira Mariana Cunha, de 27 anos, viajou da Amadora para “uma semana para esquecer a rotina e os problemas, longe de julgamentos”.
Paredes de Coura como “refúgio da vida real”
“É como se fosse um refúgio da vida real. Como se houvesse um sentimento de pertença. Vim pela música, para limpar a cabeça, pelo campismo e pela parte social”, explica.
Romeu Barraca, engenheiro de 27 anos, sempre teve curiosidade de conhecer o festival, não tinha com quem, até este ano. “Vim pelo acampar, pelo ambiente. Não nos conhecemos mas toda a gente nos trata como conhecidos”, descreve.
O primo Sandro Barraca, de 25 anos, engenheiro, quis focar-se em “estar com a natureza, ser um passarinho livre” e experimentar “o espírito de comunidade”.
“Na vila, há uma senhora que abre as portas de casa como se fosse um restaurante. Este ano, para além de tudo, os astros e os planetas alinharam-se para haver um eclipse no festival”, afirma.
Um casamento algarvio com ligação de 20 anos ao festival
Também há um casamento em Paredes de Coura após o festival e um namoro com 20 anos marcado pelo evento, conta Flávia Polido, psiquiatra de 41 anos, de Portimão.
“Há 20 anos, comecei a namorar no início de agosto. Ele disse que ia ao festival com um amigo sem me convidar. É muito despistado, informou só que vinha. Eu vim com uma amiga. O festival ficou sempre um marco”, recorda.

Há três anos, com tudo marcado para o matrimónio numa conservatória no Algarve, pediram transferência para Paredes de Coura, onde têm um casal amigo, e casaram “com as t-shirts do festival”.
“Agora é uma peregrinação anual”, assegura Flávia, acompanhada dos filhos, com 13 e nove anos.
“O sítio é espetacular, o marido é mega fanático por música e tem um espaço para famílias e crianças”, justifica.
Kneecap e Wet Leg passaram esta quarta-feira pelo palco principal do festival que este ano conta também com a participação de Underworld, M.I.A., Bloc Party e Amyl and The Sniffers, Thundercat, Hermanos Gutiérrez, Patrick Watson – solo piano, Benjamin Clementine e CMAT, entre outros.
- Por Ana Cristina Gomes (texto) e Estela Silva (fotos), da agência Lusa















