O metrobus do Algarve, pensado para melhorar as ligações entre Faro, Loulé e Olhão, corre o risco de ficar suspenso por falta de financiamento. O projeto está avaliado em cerca de 100 milhões de euros, mas os municípios envolvidos não querem avançar sem maior apoio do Governo.
Segundo o Público, a proposta foi lançada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, mas ainda não passou da fase de estudos. A comparticipação comunitária prevista através do programa Algarve 2030 cobre 60% do investimento, deixando às câmaras de Faro, Loulé e Olhão os restantes 40%, ou seja, cerca de 40 milhões de euros.
Autarcas pedem apoio nacional
O presidente da CCDR Algarve, José Apolinário, admite que o investimento pode mesmo cair se não houver acordo entre os municípios que são os donos da obra. Neste momento, segundo o responsável, não existe consenso para avançar com o projeto nos moldes previstos. Ricardo Calé, presidente da Câmara de Olhão, considera que o metrobus é um projeto estruturante, mas defende que as autarquias não têm capacidade financeira para suportar a parte que lhes cabe. A expectativa do autarca é que o Algarve seja tratado como outras regiões do país, com apoio do Governo através do Fundo Ambiental ou de investimento público direto.
Em causa está a chamada componente nacional, estimada em cerca de 40 milhões de euros. Sem esse reforço, os municípios receiam ficar responsáveis por um encargo demasiado pesado para os seus orçamentos.
Porque é que o Algarve recebe menos apoio europeu
O problema tem origem na forma como o Algarve passou a ser enquadrado nos fundos comunitários. A região saiu da lista das mais pobres da Europa e, por isso, deixou de beneficiar das taxas de comparticipação mais elevadas que existem noutros territórios. Enquanto algumas zonas do país podem receber apoios comunitários na ordem dos 85%, o Algarve fica limitado a uma comparticipação de 60%. Na prática, isto significa que, num projeto de 100 milhões de euros, ficam por financiar cerca de 40 milhões, valor que teria de ser suportado pelas câmaras envolvidas.
Para os autarcas, esta diferença coloca o Algarve numa posição difícil. A região tem cada vez mais pressão sobre as estradas, mais população e forte atividade turística, mas recebe menos apoio europeu para projetos estruturantes de mobilidade.
Primeira fase ligaria Faro, Gambelas e aeroporto
A meta definida para a execução do projeto é 2029, mas José Apolinário admite que a obra poderia avançar de forma faseada. Numa primeira etapa, estava prevista a criação de um corredor dedicado ao transporte público com cerca de dez quilómetros entre Faro, a Universidade do Algarve, em Gambelas, e o Aeroporto de Faro. As ligações ao Parque das Cidades, Loulé e Olhão ficariam para fases posteriores. Esta solução permitiria arrancar com uma parte mais curta do projeto, mantendo a ambição de criar uma alternativa mais eficiente ao automóvel no chamado Algarve central.
O objetivo seria retirar entre 35 mil e 40 mil carros das estradas que hoje entopem os três municípios. Nesta zona vivem entre 150 mil e 180 mil pessoas, num território onde os engarrafamentos se têm tornado cada vez mais frequentes.
Projeto pode ir para a gaveta
O presidente da CCDR Algarve deixa claro que a decisão terá de ser tomada em breve. Se o impasse se mantiver durante as próximas semanas, o estudo pode ser colocado de lado e a verba disponível poderá ser proposta à União Europeia, em articulação com o Governo, para ser reencaminhada para outras prioridades.
O fundo em causa destina-se à promoção da mobilidade urbana multimodal sustentável. No entanto, sem entendimento entre câmaras e sem apoio nacional, o metrobus pode não sair do papel. A indefinição surge numa altura em que o Algarve enfrenta um crescimento populacional acentuado. De acordo com os últimos dados provisórios do INE citados pelo Público, a região registou, entre 2021 e 2025, o maior crescimento populacional do país, com uma subida de 13%.
Interior também reclama soluções
O debate sobre o metrobus surge ao mesmo tempo que continuam por resolver problemas de transporte público no interior algarvio. A Comunidade Intermunicipal do Algarve, conhecida como AMAL, é a entidade regional responsável pelos transportes públicos, mas o projeto do metrobus passou ao lado desta estrutura.
Brandão Pires, secretário da AMAL, disse ao Público que o assunto nunca foi abordado na comunidade intermunicipal. Segundo o responsável, o projeto terá sido apenas articulado entre as câmaras de Faro, Loulé e Olhão e a CCDR, no anterior mandato autárquico. Na próxima semana, a AMAL deverá reeditar o concurso público para a exploração da rede intermunicipal de transportes públicos Vamus. O processo tinha sido lançado há cerca de três meses, mas foi anulado por indicação da Autoridade Nacional dos Transportes.
Concurso da Vamus ronda os 108 milhões
O novo concurso da rede Vamus deverá ter um valor de contratação de serviços de cerca de 108 milhões de euros, por um prazo de oito anos. Ainda assim, há localidades que continuam fora da cobertura prevista. Segundo Brandão Pires, ficam de fora mais de 700 localidades com mais de 700 habitantes que, por lei, também têm direito a transporte público. A AMAL está a estudar uma solução, em articulação com as câmaras, para que essas populações possam ser servidas através de táxi ou outros meios.
Na atual concessão, em vigor até outubro, os povoados dispersos estavam contemplados no caderno de encargos, mas o modelo terá funcionado mal. O problema mostra que a mobilidade no Algarve não se limita ao eixo urbano entre Faro, Loulé e Olhão. Também passa por garantir resposta a quem vive no interior e continua dependente do carro para quase todas as deslocações.
Decisão depende agora do financiamento
O metrobus foi apresentado como uma solução para reduzir trânsito, melhorar ligações e responder ao crescimento do Algarve central. No entanto, o futuro do projeto está agora dependente de uma decisão financeira. Sem apoio nacional, as câmaras envolvidas dizem não ter condições para suportar os cerca de 40 milhões de euros que ficam fora da comparticipação comunitária. Com apoio do Governo, a obra poderá avançar, eventualmente por fases, começando pela ligação entre Faro, Gambelas e o aeroporto. Para já, o projeto permanece em risco. A decisão deverá ser tomada nas próximas semanas, num momento em que a pressão sobre a mobilidade no Algarve continua a crescer.
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