Para muitos portugueses, levantar dinheiro ainda é um gesto simples, mas há zonas do país onde pode obrigar a deslocações de vários quilómetros. Para responder a esse problema, está a ser preparado o projeto “Multibanco Social”, que prevê instalar caixas automáticas em juntas de freguesia com menor acesso a numerário.
De acordo com o Notícias ao Minuto, o objetivo passa por levar caixas automáticas a regiões onde a população tem maior dificuldade em aceder a dinheiro físico. A primeira fase deverá arrancar ainda este ano em cerca de 20 freguesias.
Caixas automáticas em juntas de freguesia
O “Multibanco Social” deverá começar por instalar caixas automáticas em juntas de freguesia. A escolha destes locais tem uma lógica de proximidade. Em muitas zonas do interior ou em freguesias mais afastadas dos centros urbanos, a junta continua a ser um dos serviços públicos mais acessíveis e reconhecidos pela população.
A medida pretende responder à redução de balcões bancários e à menor cobertura de caixas automáticas em alguns territórios, uma tendência que tem alimentado o debate sobre o acesso ao dinheiro físico.
Há freguesias sem acesso próximo a numerário
A falta de caixas automáticas não afeta todas as regiões da mesma forma. Nas cidades, levantar dinheiro pode ser uma operação rápida, feita a poucos minutos de casa. Mas em zonas rurais, envelhecidas ou mais isoladas, a ausência de uma caixa Multibanco pode obrigar a deslocações longas, muitas vezes difíceis para quem não tem transporte próprio.
Segundo dados do Banco de Portugal de 2022, citados pela associação Denária, 1.276 freguesias, o equivalente a 41% do total, não tinham qualquer ponto de acesso a dinheiro físico.
Banco de Portugal defende acesso ao dinheiro físico
O tema também tem sido acompanhado pelo Banco de Portugal. Em outubro, o governador Álvaro Santos Pereira afirmou que o sistema bancário deve manter caixas automáticas suficientes em todo o país, para garantir que a população consegue aceder facilmente a dinheiro físico.
“Embora a importância dos pagamentos digitais tenha vindo a aumentar, devemos assegurar que o numerário permanece facilmente acessível a todos os portugueses. Para tal, é essencial manter o investimento adequado na infraestrutura de distribuição de numerário em todo o território”, afirmou.
Nem todos vivem no mundo dos pagamentos digitais
Os pagamentos digitais têm crescido, mas o dinheiro físico continua a ser importante para muitos cidadãos. Cartões, transferências imediatas, MB Way e outras soluções móveis fazem parte do quotidiano de uma fatia cada vez maior da população. Ainda assim, há quem continue a depender do numerário para pequenas compras, pagamentos locais, gestão doméstica ou apoio familiar.
A dificuldade de acesso a dinheiro vivo pode afetar sobretudo pessoas mais idosas, populações isoladas, cidadãos com menor literacia digital ou residentes em zonas onde os serviços bancários desapareceram.
“Desertos de numerário” preocupam associações
A Denária, associação que defende a utilização do numerário como meio de pagamento, tem alertado para aquilo que designa como “desertos de numerário”.
Em setembro, a associação criticou a falta de caixas Multibanco em várias regiões do país, considerando que o problema atinge sobretudo grupos mais vulneráveis e isolados.
Para a Denária, reforçar a cobertura da rede é uma forma de garantir que todos os portugueses mantêm o direito de usar dinheiro físico.
Cerca de 13 mil caixas automáticas em Portugal
Dados do Banco de Portugal relativos a 2024 indicam que existiam cerca de 13 mil caixas automáticas em Portugal. O número, por si só, não resolve a questão da distribuição territorial. Uma rede pode ser extensa e, ao mesmo tempo, deixar algumas freguesias sem acesso próximo a numerário.
É precisamente essa falha que o “Multibanco Social” pretende mitigar, começando por zonas onde a distância até uma caixa automática continua a ser um obstáculo.
Primeira fase arranca em escala limitada
O projeto deverá arrancar com cerca de 20 freguesias. Ainda não são conhecidos todos os locais abrangidos, nem os critérios finais de seleção. A informação disponível aponta, porém, para a prioridade dada a regiões onde a população enfrenta maiores dificuldades para levantar dinheiro. Se a primeira fase tiver resultados positivos, o projeto poderá abrir caminho a uma expansão para mais freguesias.
Porque isto pode fazer diferença
O acesso ao numerário é uma questão prática, mas também social. Para quem vive numa cidade, pode parecer um detalhe. Para quem mora numa freguesia sem banco, sem caixa automática e com poucos transportes, levantar dinheiro pode implicar tempo, custo e dependência de terceiros.
O “Multibanco Social” surge, por isso, como uma tentativa de aproximar um serviço essencial de populações que ficaram mais distantes da rede bancária tradicional.
No final, a pergunta é simples: numa altura em que quase tudo parece caminhar para o digital, como garantir que quem ainda precisa de dinheiro físico não fica para trás?
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