Um ano depois de Lisboa ter avançado com novas regras para a circulação e estacionamento de tuk-tuk, os moradores de São Vicente dizem que o problema está longe de estar resolvido. As queixas de ruído, confusão no trânsito, ocupação de passeios e pressão turística continuam a marcar o dia a dia de quem vive junto a alguns dos pontos mais visitados da cidade.
A freguesia de São Vicente volta a surgir no centro da discussão, sobretudo em zonas como o Miradouro da Senhora do Monte e o Miradouro da Graça. Segundo a Lusa, citada pela RTP, os moradores falam numa pressão constante provocada por estes veículos turísticos, com maior intensidade na época alta, quando a circulação se torna ainda mais difícil.
O presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, André Biveti, disse à Lusa que, apesar da existência de fiscalização por parte da EMEL, “na nossa freguesia nada mudou”. O autarca refere dificuldades de tráfego, problemas de mobilidade e ruído constante, apontando também situações em que os tuk-tuk entram em passeios ou ocupam zonas de miradouro de forma ilegal.
Regras novas, queixas antigas
As regras mais apertadas entraram em vigor a 1 de abril de 2025 e passaram a proibir a circulação de tuk-tuk em 337 ruas de Lisboa. O despacho municipal abrangeu várias freguesias, entre elas Avenidas Novas, Arroios, Penha de França, São Vicente, Santo António, Misericórdia e Santa Maria Maior.
Além disso, a autarquia definiu zonas próprias para paragem e estacionamento e avançou com reforço da fiscalização. A EMEL passou a ter uma brigada especialmente vocacionada para tuk-tuk e TVDE, num esforço para ordenar melhor a circulação destes veículos na cidade.
Mesmo assim, em São Vicente a perceção local continua a ser de insuficiência. Segundo a reportagem da RTP com base na Lusa, os fins de semana e os períodos de maior procura turística continuam a gerar uma pressão difícil de controlar.
Moradores falam em “Disneyland”
Uma das imagens mais fortes da reportagem surge na voz de uma moradora da Calçada do Monte, que diz estar a ponderar colocar uma faixa a dizer “isto não é a Disneyland”. A comparação é usada para descrever o excesso de tuk-tuk, a dificuldade de circulação e até os gritos de passageiros em descidas acentuadas, incentivados pelos condutores.
Segundo o mesmo relato, o incómodo não se resume ao trânsito. Há também referência ao sinal sonoro de marcha-atrás, à música e à ocupação de espaço público em zonas muito sensíveis do ponto de vista residencial e turístico.
O presidente da junta defende medidas estruturais, como a criação de parques específicos para tuk-tuk afastados dos miradouros, obrigando depois os turistas a fazer parte do percurso a pé. A ideia, segundo explicou, poderia reduzir a pressão junto aos pontos mais congestionados e até favorecer algum comércio local.
Nem toda a cidade sente o mesmo impacto
Na freguesia de Santo António, o cenário descrito é diferente. A presidente da junta, Filipa Veiga, afirmou à Lusa que as novas regras trouxeram mais organização e ajudaram a resolver o problema dos veículos parados em várias ruas, sublinhando que muitos tuk-tuk naquela zona estão apenas de passagem.
Ou seja, o impacto das novas regras não parece ser uniforme em toda a cidade. Em algumas zonas, houve melhorias visíveis. Noutras, sobretudo em áreas com forte pressão turística e ruas mais apertadas, os moradores continuam a sentir que o problema persiste.
Ao mesmo tempo, associações do setor admitem que continua a existir excesso de tuk-tuk em Lisboa e defendem mais regulação. Segundo a Lusa, estas entidades consideram que as medidas foram um primeiro passo, mas dizem que ainda falta limitar o número de veículos e profissionalizar melhor a atividade.
Debate está longe de fechado
A discussão em torno dos tuk-tuk em Lisboa está, por isso, longe de terminar. A cidade apertou regras, reforçou fiscalização e criou restrições claras, mas a realidade no terreno mostra que, para muitos moradores, isso ainda não chegou para devolver tranquilidade ao espaço público.
Com a aproximação da época alta do turismo, São Vicente teme um novo agravamento da situação. E a frase que sai da reportagem resume bem o sentimento de quem vive no terreno: para muitos moradores, o problema não desapareceu, apenas mudou de forma.
















