As pensões de quem trabalhou durante anos nos cuidados de saúde continuam a levantar dúvidas sobre o reconhecimento dado a profissões exigentes, marcadas por esforço físico, horários pesados e grande responsabilidade. Entre hospitais, lares e turnos sucessivos, muitos profissionais chegam à reforma com a sensação de que o valor recebido não acompanha uma vida inteira dedicada aos outros.
Sylvie, identificada pelo jornal digital francês Le Figaro como uma antiga auxiliar de enfermagem em França, reformou-se aos 62 anos depois de mais de duas décadas a cuidar de doentes em hospitais e lares. Hoje, recebe 1.790 euros brutos por mês, cerca de 1.625 euros líquidos, valor que considera insuficiente face à dureza da profissão.
Ao longo de cerca de 25 anos, passou por várias unidades de saúde no oeste de França. Ao mesmo jornal, contou que acompanhava as mudanças profissionais do marido, vendedor que mudava frequentemente de empresa, o que a levou a trabalhar em diferentes hospitais públicos, algumas unidades privadas e residências para idosos.
Uma carreira dedicada aos cuidados intensivos
Natural de Sarthe, Sylvie trabalhou em hospitais de Le Mans, Laval, Angers e Rennes. Apesar da instabilidade, explicou que a mobilidade lhe trouxe experiência e novos métodos de trabalho, considerando que uma carreira inteira no mesmo local poderia tê-la desgastado mais rapidamente.
Durante três anos, integrou o serviço de neonatologia de um hospital privado em Rennes. Foi nesse período que sentiu de forma mais evidente a importância do seu trabalho, por acompanhar bebés prematuros numa fase particularmente sensível, uma experiência que recorda como uma das mais marcantes da carreira.
Apesar das mudanças de cidade e de serviço, nunca lhe faltou trabalho. Chegava muitas vezes a equipas com falta de pessoal e era bem recebida, precisamente porque os colegas sabiam que podiam contar com a sua experiência, disponibilidade e capacidade de adaptação.
No último cargo, numa residência pública para idosos em Angers, recebia cerca de 2.300 euros brutos por mês, aproximadamente 1.900 euros líquidos. Reformou-se em outubro de 2020, antes da entrada em vigor da mais recente reforma francesa das pensões, e contou que recebeu essa nova fase com entusiasmo, por finalmente poder dedicar mais tempo a si própria, de acordo com a fonte anteriormente citada.
“A minha pensão é insuficiente”
Atualmente, a antiga auxiliar recebe uma pensão de 1.790 euros brutos mensais, cerca de 1.625 euros líquidos. Por ter trabalhado sob diferentes estatutos, é multipensionista, recebendo prestações de várias caixas, entre elas a AGIRC-ARRCO e a Caixa Nacional de Reformas dos Empregados de Governos Locais, a CNRACL.
Ainda assim, Sylvie entende que o valor não corresponde ao peso da carreira que teve. A reformada aponta jornadas longas, esforço físico, permanência prolongada de pé, falta de margem para erro e pouco reconhecimento como fatores que tornam a pensão difícil de aceitar face ao trabalho realizado.
Apesar dessa crítica, encara a reforma com serenidade, de acordo com o Le Figaro. Depois de muitos anos a cuidar dos outros, diz querer aproveitar melhor o tempo livre, viajar e cuidar de si, mantendo a ideia de que o descanso chegou, mas sem apagar a sensação de que a profissão continua pouco valorizada.
Quanto ganham auxiliares de enfermagem em Portugal?
Em Portugal, o enquadramento já mudou face ao que existia há poucos anos. No Serviço Nacional de Saúde, a carreira especial de técnico auxiliar de saúde foi aprovada pelo Decreto-Lei n.º 120/2023, com efeitos a partir de 1 de janeiro de 2024, abrangendo trabalhadores que antes estavam muitas vezes enquadrados como assistentes operacionais na área da prestação de cuidados de saúde.
A remuneração base de entrada da carreira especial de técnico auxiliar de saúde corresponde ao nível 6 da Tabela Remuneratória Única, fixado em 983,00 euros brutos mensais. Esse valor surge também em avisos de recrutamento de 2026 no SNS, como o da ULS do Médio Tejo, que indicava 983,00 euros mensais para técnico auxiliar de saúde.
Tal como em França, também em Portugal esta profissão continua associada a esforço físico, horários por turnos e contacto permanente com situações exigentes nos serviços de saúde. Mesmo sendo uma função essencial no apoio aos doentes e às equipas clínicas, a discussão sobre valorização salarial, progressão na carreira e futuro valor da reforma continua longe de estar encerrada.
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