A cafeína poderá atenuar perdas de memória e outras alterações cognitivas associadas à inflamação cerebral provocada pelo excesso de peso, conclui um estudo desenvolvido por investigadores da NOVA Medical School.
A investigação, liderada por Sílvia Conde, professora e investigadora principal da instituição, foi publicada na revista científica Pharmacological Research e estabelece, pela primeira vez, uma relação direta entre o consumo de cafeína e a redução dos efeitos da obesidade no cérebro, nomeadamente ao nível da memória, da aprendizagem e de outras funções cognitivas.
O estudo envolveu 31 ratos Wistar machos, distribuídos por três grupos. Um dos grupos recebeu alimentação normal, outro foi submetido durante 25 semanas a uma dieta rica em gordura e açúcar e o terceiro seguiu a mesma dieta, mas recebeu cafeína na água durante as últimas 11 semanas da experiência.
Os investigadores avaliaram, assim, os efeitos do consumo crónico de cafeína em animais sujeitos a uma dieta hipercalórica, utilizada para induzir obesidade e alterações metabólicas.
Dieta hipercalórica afetou memória e atividade cerebral
Os animais submetidos à dieta rica em gordura e açúcar apresentaram maior aumento de peso, resistência à insulina, alterações na tolerância à glucose e um desempenho inferior nos testes de memória e cognição.
Foram também identificados níveis mais elevados de marcadores associados à neuroinflamação, além de alterações na atividade neuronal do hipocampo, região do cérebro envolvida na memória e na aprendizagem.
Nos animais que receberam cafeína, os investigadores observaram uma atenuação de várias destas alterações, incluindo uma redução dos sinais de inflamação cerebral e uma melhoria da sensibilidade à insulina.
O consumo da substância esteve ainda associado a melhores resultados em testes destinados a avaliar a memória espacial, o reconhecimento e a aprendizagem.
“Verificámos que a cafeína reduz a neuroinflamação, mas também promove a atividade neuronal no hipocampo, o que ajuda a explicar os efeitos observados na memória e cognição”, afirma Sílvia Conde, citada pela NOVA Medical School em comunicado.
Investigadora compara hipocampo a uma biblioteca
Adriana Capucho, estudante de doutoramento da instituição e autora do trabalho, compara o funcionamento do processo ao de uma biblioteca afetada pela poluição.
“Se o cérebro fosse uma cidade e o hipocampo a ‘biblioteca central’, onde se guardam todas as nossas memórias, a obesidade seria a poluição que danifica a biblioteca. A inflamação do hipocampo é todo o fumo e lixo acumulados. Então, a cafeína seria a equipa de limpeza e manutenção, ou seja, reduz a ‘poluição’ e ajuda os sistemas a funcionar melhor (atividade neuronal), permitindo que a biblioteca volte a operar de forma eficiente”, explica Adriana Capucho.
Os autores sublinham que a obesidade continua a aumentar a nível mundial e que as suas consequências ultrapassam as doenças cardiovasculares e metabólicas, afetando também a saúde cerebral.
Os resultados obtidos contribuem, segundo a equipa, para uma melhor compreensão deste problema de saúde pública, ao relacionarem estilo de vida, inflamação e desempenho cognitivo.
Resultados terão de ser confirmados em estudos clínicos
Partindo do conhecimento de que a obesidade está associada a perdas de memória e cognição decorrentes da neuroinflamação, e de que a cafeína pode melhorar o estado de alerta e a função cerebral, os investigadores procuraram perceber se a substância poderia exercer um efeito protetor sobre o cérebro.
A equipa considera que as conclusões poderão apoiar futuras investigações sobre estratégias de prevenção ou mitigação do declínio cognitivo associado à obesidade.
Os investigadores alertam, contudo, que os resultados foram obtidos em animais e terão de ser confirmados através de estudos clínicos antes de poderem ser extrapolados para seres humanos.
Segundo a NOVA Medical School, esta é a primeira investigação a descrever diretamente a relação entre obesidade, cafeína e cognição.
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