O Algarve continua a ser o sonho clássico de muitos estrangeiros que pensam reformar-se em Portugal: sol, praias, golfe, comunidade internacional e serviços habituados a residentes de fora. Mas um artigo norte-americano defende que quem olha para os números com mais atenção pode estar a escolher outras zonas do país.
Segundo a publicação 24/7 Wall St., a Costa de Prata e algumas cidades do interior português estão a ganhar interesse entre reformados norte-americanos que procuram uma vida mais barata, menos dependente do turismo de resort e com custos de habitação mais controlados.
Algarve continua popular, mas mais caro
O artigo reconhece que o Algarve mantém muitos dos atrativos que fizeram da região um destino internacional de reforma. O clima, as praias, a rede de residentes estrangeiros e o domínio do inglês em várias zonas continuam a pesar na decisão.
A diferença está no preço. Depois de anos a atrair britânicos, neerlandeses e norte-americanos, o Algarve passou a refletir essa procura nos custos de habitação e no custo de vida associado às zonas mais turísticas.
Costa de Prata surge como alternativa
A publicação aponta a Costa de Prata como uma alternativa com contas mais favoráveis. Entre as localidades referidas estão Caldas da Rainha, Nazaré, Óbidos, Tomar, Coimbra e Évora, embora nem todas tenham o mesmo clima ou o mesmo acesso rápido a Lisboa.
A ideia central é simples: estas zonas podem oferecer uma versão mais tranquila da reforma em Portugal, com menor pressão turística e custos de habitação potencialmente mais baixos do que nos mercados mais procurados do Algarve.
Contas feitas para um casal reformado
O artigo faz uma simulação para um casal na casa dos 60 anos que já tenha uma casa paga, como um apartamento T2 ou uma pequena moradia. Nesse cenário, o orçamento anual estimado ronda os 44 mil dólares.
O valor inclui despesas com impostos sobre a casa, condomínio e manutenção, compras de supermercado, utilidades, internet, saúde privada ou custos médicos complementares, carro, combustível, transportes ocasionais, viagens, lazer e uma reserva para imprevistos.
Alugar pode encarecer o plano
A publicação nota que, se o casal optar por arrendar em vez de ter casa própria, o orçamento anual pode subir para cerca de 54 mil dólares, dependendo da cidade, da localização e das condições do contrato.
Ainda assim, a comparação apresentada é favorável face à despesa média anual de um agregado nos Estados Unidos, apontada no artigo em 78.535 dólares em 2024. É aqui que entra o argumento de que a escolha da zona em Portugal pode mudar muito as contas da reforma.
Segurança Social norte-americana quase cobre orçamento
O texto usa como exemplo um casal com benefícios combinados da Segurança Social norte-americana próximos dos 42 mil dólares anuais. Nesse caso, se tiver casa paga, a diferença para o orçamento estimado na Costa de Prata seria relativamente pequena.
Mas o artigo deixa um aviso importante: a carteira de investimentos não serve apenas para tapar a diferença anual. Deve também cobrir impostos, despesas médicas inesperadas, reparações na casa, viagens, inflação e eventuais quedas dos mercados.
Carteira recomendada é mais robusta
Por isso, a publicação considera demasiado frágil pensar apenas numa pequena diferença anual entre rendimento e despesa. A estimativa mais prudente aponta para uma carteira investida entre 500 mil e 700 mil dólares, além da casa paga.
Essa reserva permitiria enfrentar anos menos favoráveis, despesas imprevistas e variações cambiais. A recomendação passa também por manter uma parte em instrumentos de curto prazo ou liquidez, para evitar vender ações em momentos de queda dos mercados.
Regime fiscal mudou em Portugal
O artigo lembra ainda que o antigo regime dos Residentes Não Habituais, que tornou Portugal muito atrativo para reformados estrangeiros, já fechou para a maioria dos novos candidatos.
O novo enquadramento, referido como IFICI ou NHR 2.0, está mais orientado para investigação científica, inovação e trabalho qualificado específico, não para rendimentos normais de reforma. Para novos residentes fiscais, Portugal pode tributar rendimentos mundiais a taxas progressivas que podem chegar perto dos 48%, antes de eventuais sobretaxas.
Planeamento fiscal antes da mudança
Para os norte-americanos, a publicação sublinha que o planeamento fiscal deve ser feito antes de estabelecer residência em Portugal. Em causa estão, por exemplo, levantamentos de contas tradicionais de reforma, como IRA ou 401(k), e a forma como podem ser tributados entre os dois países.
O artigo recomenda simular conversões para Roth antes da mudança de residência, de forma a reduzir no futuro o peso de levantamentos sujeitos a tributação. Ainda assim, deixa claro que estas situações exigem aconselhamento especializado e não devem ser tratadas com regras gerais.
Poupança não é dinheiro livre
A principal mensagem do artigo é que mudar do Algarve para a Costa de Prata ou para o interior pode reduzir custos, mas essa diferença não deve ser vista como dinheiro livre para gastar.
Parte dessa margem deve ficar reservada para saúde, manutenção da casa, inflação, variações cambiais e impostos. Um destino mais barato ajuda, mas não resolve um plano de reforma mal calculado.
Portugal continua atrativo, mas com contas feitas
Para quem olha para Portugal de fora, o Algarve continua a ter enorme força no imaginário. No entanto, a publicação norte-americana defende que a escolha mais racional pode estar noutras regiões, sobretudo para quem quer equilibrar qualidade de vida e orçamento.
A Costa de Prata e algumas cidades do interior surgem assim como alternativas a considerar. Menos famosas do que o Algarve, podem oferecer uma reforma mais acessível, desde que a decisão seja acompanhada por contas realistas, planeamento fiscal e uma reserva financeira capaz de aguentar imprevistos.
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