A vida de uma jovem portuguesa sofreu uma reviravolta profunda quando decidiu fazer as malas e mudar de continente por motivos amorosos. O destino escolhido foi um país polémico, frequentemente associado a restrições severas, mas que lhe ofereceu uma perspetiva de rotina totalmente inesperada. Hoje em dia, o cenário de tensão militar e de guerra que paira sobre a região não é motivo suficiente para a fazer equacionar voltar para Portugal.
A nação que acolheu esta emigrante de trinta e um anos foi a Arábia Saudita, um território que tem sofrido grandes transformações sociais nos tempos mais recentes. A história de Márcia Graça é partilhada pela NiT, uma revista digital portuguesa dedicada a tendências de estilo de vida e viagens. A jovem licenciada em educação reside na cidade de Jedá desde o passado mês de março e utiliza as redes sociais para desmistificar preconceitos.
Através de uma conta com mais de catorze mil seguidores, a residente mostra que a realidade atual difere bastante da imagem ocidental sobre aquele território. A adaptação inicial envolveu um choque cultural visível logo no aeroporto, devido à proximidade geográfica da cidade com o centro religioso de Meca. As lágrimas iniciais deram lugar a um processo contínuo de descoberta e de desconstrução de velhos mitos enraizados na nossa sociedade.
A liberdade nas zonas balneares privadas
Indica a mesma fonte que a partilha de um vídeo a usufruir de uma zona balnear privada gerou uma onda enorme de reações virtuais e mensagens preocupadas. A criadora de conteúdos pagou cerca de vinte e dois euros para aceder a um espaço onde os turistas podem utilizar roupa de banho comum. Fora destes complexos reservados, as praias públicas exigem a utilização de um fato de banho integral que cubra a totalidade do corpo feminino.
Apesar das regras estritas nos espaços abertos a toda a comunidade, a jovem caminha frequentemente por areais desertos sem qualquer tipo de cobertura na cabeça. A presença de militares nestas zonas costeiras não representa qualquer ameaça à sua integridade física, refletindo a nova abertura do regime saudita. A influência das gerações mais novas e da internet ajudou a flexibilizar um país que vivia exclusivamente sob os desígnios religiosos locais.
A segurança num clima de tensão armada
A escalada de violência no Médio Oriente tem gerado preocupação global, mas a comunidade de expatriados mantém uma postura de enorme tranquilidade. O sentimento de proteção é geral e os portugueses que ali residem reúnem se frequentemente para debater os acontecimentos geopolíticos da região. O sistema de defesa governamental tem conseguido intercetar as ameaças aéreas e impedir a instalação de qualquer cenário de pânico nas ruas.
Explica a referida fonte que as acusações de compactuar com uma ditadura ou de sofrer uma lavagem cerebral são frequentes nos comentários que recebe de compatriotas. A residente defende se com o facto de ter estudado intensamente a história da região antes de emigrar, precisamente para manter a sua capacidade de análise intacta. As mudanças legais recentes, como a autorização para as mulheres conduzirem desde o ano de dois mil e dezoito, reforçam a sua perceção de modernidade.
As diferenças no tratamento diário
Os relatos de violência antiga, onde existia uma força policial religiosa dedicada a castigar comportamentos considerados impróprios com agressões físicas, pertencem cada vez mais ao passado. A mudança de mentalidade permitiu à portuguesa trocar a segurança fechada de um condomínio privado por uma habitação com acesso direto à via pública. As saídas solitárias para tratar de assuntos do quotidiano são marcadas pela cortesia extrema da população masculina local.
As idas às lojas de ferragens com roupas ocidentais, como camisolas de manga curta, não geram qualquer tipo de retaliação social ou assédio verbal. A surpresa surge quando os homens abrem caminho nas filas de espera para facilitar a passagem e o atendimento imediato das clientes femininas. O ginásio que frequenta é exclusivo para mulheres e oferece um nível de luxo superior, com equipamentos modernos e produtos de beleza de grandes marcas.
A saudade da gastronomia costeira lusitana
A integração na cultura árabe foi facilitada pela existência de grupos organizados de cidadãos lusos que partilham dicas e promovem o convívio social na cidade. A associação local conta com mais de mil membros registados e serve como ponto de apoio crucial para quem chega sozinho a este destino distante. Muitos profissionais de saúde encontram neste mercado uma valorização financeira muito superior à oferecida no seu país de origem.
Explica ainda a NiT que a emigrante visita o território nacional pelo menos duas vezes por ano para atenuar o peso provocado pela distância familiar. A época natalícia e os meses de verão são os períodos eleitos para matar as saudades mais profundas e assumir a emoção de ouvir o hino. A maior lacuna sentida no dia a dia é a impossibilidade de comer peixe fresco e mariscos com o mesmo sabor inconfundível do mar português.
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