Durante séculos, o Deserto do Saara foi símbolo de aridez extrema e de paisagens inóspitas, mas um novo estudo sugere que esse cenário poderá mudar. A investigação aponta para um aumento significativo da humidade e da precipitação até ao final do século XXI, transformando o maior deserto quente do mundo num território surpreendentemente mais húmido.
Com cerca de 9 milhões de quilómetros quadrados, o Saara é o maior deserto quente do planeta e uma das regiões mais secas da Terra. Atualmente, recebe apenas 7,5 centímetros de chuva por ano, dez vezes menos do que cidades chuvosas como Chicago. No entanto, os investigadores da Universidade do Illinois (UIC), citados pela ZAP Notícias, acreditam que essa realidade poderá inverter-se dentro de poucas décadas.
Um futuro mais húmido para o deserto
De acordo com o estudo publicado na revista científica npj Climate and Atmospheric Science, citado pela mesma fonte, o aumento global das temperaturas poderá levar o Saara a registar até 75% mais precipitação do que a sua média histórica na segunda metade do século XXI. Segundo os cientistas, a tendência resulta da maior capacidade da atmosfera de reter humidade à medida que aquece, intensificando os episódios de chuva.
Os modelos climáticos analisados também indicam um crescimento da precipitação no sudeste e centro-sul de África, com aumentos estimados de 25% e 17%, respetivamente. Em contrapartida, a zona sudoeste do continente poderá tornar-se mais seca, com uma redução média de 5% na chuva.
Impacto para milhões de pessoas
“Estas alterações nos padrões de precipitação vão afetar milhões de pessoas, tanto dentro como fora de África”, alertou Thierry Ndetatsin Taguela, investigador da College of Liberal Arts and Sciences e autor principal do estudo. O especialista sublinha que o planeamento de políticas de gestão de cheias e o desenvolvimento de culturas resistentes à seca devem começar já.
Taguela explicou ainda que compreender a forma como o aumento das temperaturas influencia a precipitação é essencial para criar estratégias de adaptação eficazes. A equipa analisou 40 modelos climáticos diferentes, comparando o período futuro (2050–2099) com dados históricos (1965–2014), e observou uma tendência consistente para o aumento da humidade.
O Saara pode voltar a ser verde
Há cerca de 800 mil anos, o Saara, que é o maior deserto do mundo, era uma região verde, com vegetação e lagos, de acordo com a fonte anteriormente citada. O novo estudo sugere que essa transformação pode repetir-se, ainda que de forma gradual. “Projeta-se que o Saara quase duplique os seus níveis históricos de precipitação, o que é surpreendente para uma região tão seca do ponto de vista climatológico”, destacou Taguela.
Apesar do otimismo, o investigador alerta para a incerteza dos modelos: “Embora a maioria das simulações aponte para condições mais húmidas, ainda é difícil quantificar com precisão o volume de chuva que cairá. Melhorar os modelos é essencial para aumentar a confiança nas projeções regionais.”
Alterações climáticas e adaptação
Os resultados, de acordo com a ZAP Notícias, reforçam a influência direta das alterações climáticas nos padrões de precipitação globais. À medida que o planeta aquece, a atmosfera absorve mais vapor de água, o que favorece tempestades e chuvas intensas em regiões tradicionalmente áridas.
Para Taguela e a sua equipa, compreender os mecanismos físicos que determinam estas mudanças será crucial para preparar o continente africano para um futuro com fenómenos climáticos mais extremos, sejam eles de seca ou de abundância de chuva.
“Compreender os mecanismos físicos que determinam a precipitação é essencial para desenvolver estratégias de adaptação capazes de enfrentar futuros tanto mais húmidos como mais secos”, concluiu o investigador.
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