Há um peso de responsabilidade que o museu carrega sobre si mesmo, desde os tempos em que era templo das musas e em que os cânones do belo (sempre variável às subjectividades das épocas e dos contextos culturais) tomava conta de vitrinas, plintos e paredes, através de objectos que tinham um significado especial para a instituição que prometia salvaguardar essas heranças a todo o custo. Esse é um peso inerente a esses espaços: o peso da salvaguarda, da conservação, da investigação, do estudo ou da comunicação. Em que uns percebiam e outros rendiam-se apenas aos prazeres da estética, sem que o auxilio de legendas ou textos explicativos fizesse muita diferença. Acontece que entretanto os museus ganharam outras consciências e outras filosofias. Felizmente. Adaptado às novas realidades que o rodeiam e às diferentes manifestações de património. O conceito de museu tem sido reformulado ao longo do tempo, fruto do entendimento mais alargado, mais interdisciplinar, múltiplo, que se tem dos objectos. Já não consta só nos catálogos de museus, as peças arqueológicas de civilizações milenares, as pinturas de mestres respeitados, o mobiliário de formas elegantes ou os azulejos de desenho magnífico. Tudo o que seja arte popular, ofícios tradicionais, paisagens, territórios ou festas, também é inventariado, também é estudado e também é conservado. Não significa que antes passasse despercebido a autores, a artigos académicos ou a entidades. A questão prendia-se mais com o reconhecimento formal que certos diplomas ou directrizes administrativas acabaram por reconhecer, mais tarde, e com isso influenciar o que é património, o que é musealizável ou até o que é belo.
Hoje o Património Cultural Imaterial tem mecanismos de salvaguarda e de inventário, que ajuda a expandir as fronteiras e os territórios de conhecimento do património. Tanto entra nessas considerações mais genéricas de património, um jardim, como um edifício contemporâneo, uma dança característica de certa região ou os escombros de uma antiga unidade fabril. Se repararmos na definição em vigor de museu, certas expressões são incontornáveis desta postura renovada e atenta à sua volta. Sublinha-se as referências à acessibilidade e ao inclusivo, à diversidade e à sustentabilidade, à participação das comunidades, à ética e ao profissionalismo. Todos estes critérios são fundamentais na gestão e na boa saúde dos museus, que admitem nesta definição, que não vivem isoladamente, mas em convívio com a comunidade e com os públicos. Como parte integrante destas soluções e das decisões que venham a ser tomadas na planificação do museu, na sua programação e nas condições de acolhimento. Assim como acontece em outros movimentos, que partilham destes princípios e destas ideias. O movimento Bauhaus tem algo de comum com estas premissas. Descobre-se uma ligação naquilo que é o entendimento do património num sentido mais abrangente do termo, na sua vivacidade, dinâmica, na participação da comunidade enquanto fonte de informação dos espaços e dos discursos museológicos, mas também enquanto intervenientes nos acertos e nos ajustes do caderno de encargos que as instalações devem garantir no bem-estar de quem recebe.
O museu tem de ser um espaço de conhecimento, mas principalmente um espaço onde todos se sintam bem. Confortáveis, seguros, respeitados, acarinhados. Esse esforço tem sido feito. Não só nas obras físicas, de requalificação, que também contam. Mas na discussão e no debate. Mais do que locais de antiguidades, de relíquias e outras tantas obras-primas, independentemente da sua época, o museu deve ser um reduto que pensa nas questões da cidadania, no respeito pela paisagem, a construída e a natural, e no conceito do património, como um todo, em que a sua sustentabilidade deve ser encarada como prioritária. Aqui entra o inventário, o estudo ou a conservação. Mas também a mediação cultural, importante no trabalho de consciencialização da protecção do património e dos seus bens, materiais e imateriais, alertando para a responsabilidade e para a interacção que se deve manter com tudo o que nos envolve. Espirito a que o movimento Bauhaus não está alheio. Dele espera-se a atenção e o cuidado pela simplicidade na construção, pela organização sustentável das cidades e um ordenamento do território regrado, pelo estilo de vida saudável, respeitoso e cooperante entre comunidades. Bandeiras que tocam ou que devem tocar aos museus, ao património, à cultura e à arte. Aos poucos é algo a que se vai assistindo, fruto de uma certa reconfiguração destes espaços da memória e da identidade, que vão sendo menos do tempo das musas e mais do tempo das consciências. Assiste-se a novas concepções artísticas. Algumas delas baseadas na reciclagem, no entendimento da terra e do que ela nos transmite. A galeria Trem – Manuel Baptista, o museu municipal e até o regional têm sido palcos dessas experiências, protagonizadas por artistas e atelieres, como a Susana Medeiros ou o Estúdio Onze. Até as exposições mais convencionais são cada vez mais contidas. Na museografia, reaproveitando materiais de mostras anteriores, e nos textos, que tentam ser de pequena dimensão. Mais simplicidade, mais consciência, mais responsabilidade. Para tudo isso surtir o seu efeito, não se dispensa a etapa da investigação, do inventário e da documentação.
Estar bem informado é um passo essencial para o conhecimento do património, do território e das comunidades, assim como para agir nas propostas de dinamização, ou na definição de políticas públicas dos espaços em que todos nos movimentamos. Entrando aqui a museologia e o novo movimento Bauhaus, mundos conciliáveis e complementares. É a partir desse momento, em que a investigação ganha forma e conteúdo, que se assume publicamente o tema e em que o curso destes projetos adquirem um caminho próprio. Assumindo diferentes formatos. Aqueles que mais se adaptam à realidade local, aos pequenos negócios, ao turismo, aos recursos envolventes. Tanto pode ser um percurso pela cidade, pela natureza, com ligação a um museu local, que tenha pelo meio uma proposta de oficinas para aprender a moldar o barro, a cozinhar uma cataplana ou a confeccionar pão em forno de lenha, como também pode ser o planeamento do território, os cuidados na construção, ou inclusivamente a definição de instrumentos para a recuperação, reabilitação ou regeneração dos espaços urbanos, em que os museus e as equipas do património devem ter uma palavra a dizer. Nem que seja pela questão do restauro, pela integridade do edificado, a sua leitura enquanto bem cultural e até pela segurança de todos.
Afinal a museologia pode estar em vários domínios. E ter um papel importante na vida dos territórios, das comunidades e do seu desenvolvimento. Basta que cumpra a faceta de observatório. Acompanhando as tendências, aproximando as pessoas, privilegiando o território no seu todo, incentivando ao debate e à reflexão, promovendo os valores da cidadania. Sempre em consciência e em compromisso com os valores da ética. Como convém e faz questão de apregoar a bem intencionada regulamentação da museologia. Não se vá dar o caso das musas abandonarem de vez o templo do nosso património e das nossas heranças.
Sobre o autor do artigo: Marco Lopes (Faro, 1977) é licenciado em História pela Universidade de Évora e Mestre em Museologia, pela mesma academia, com a tese: O ambiente museológico em Tavira no Estado Novo – Memória, Propaganda e Turismo. Foi Técnico Superior de História na autarquia de Tavira entre 1999 e 2011, data a partir da qual passa a desempenhar funções de Diretor do Museu Municipal de Faro, até ao presente. É autor de vários trabalhos de investigação de história local e regional, assim como conferencista nessas temáticas e na área da museologia. Tem exercido a função de formador no IEFP nas áreas da História, do Património, Arte e Cidadania. Na museologia regional assumiu, juntamente com outros representantes, a coordenação da Rede de Museus do Algarve e atualmente desempenha as funções de delegado regional da APOM no Algarve.
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