As sociedades democráticas, liberais e representativas, estão sob uma enorme pressão das circunstâncias histórico-políticas, as suas vulnerabilidades estão severamente expostas, as suas vetustas instituições sofrem de uma espécie de bullying tecnológico e perante a iminência de uma policrise existe o risco sério de impaciência, fadiga e deceção democráticas. Isto é sobretudo verdade no plano europeu e, mais ainda, na União Europeia, em consequência de três factos políticos da maior relevância, a saber, a guerra entre a Ucrânia e a Federação Russa, a eleição de Donald Trump e o fim anunciado da ordem liberal multilateral do pós-guerra e, por último, a radicalização política interna e a legitimação do populismo autoritário por via eleitoral. Vejamos, então, os principais vetores desta crise global e europeia das nossas sociedades democráticas liberais.
1. Uma estratégia revisionista do Ocidente Global iniciada pelos EUA com base na lei da força e por um presidente radical e transacional que utiliza a diplomacia da ameaça e do medo para obter contrapartidas favoráveis dos seus adversários, quando diz, por exemplo, não nos interessa a ordem internacional, é muito cara para nós, é preciso mudar a relação com os aliados tradicionais por causa dos custos excessivos do multilateralismo ocidental.
2. Uma revolução tecno-libertária que não conhece limites nem fronteiras e que é utilizada para prosseguir dois objetivos: o primeiro, criticar as elites tradicionais que, por via de inércia e corrupção, tornaram a administração federal ineficiente e, o segundo, por via da inovação tecnológica disruptiva, fazer o upgrade da administração e capturar o seu aparelho político através de uma visão hierárquica e autoritária de federação.
3. A instalação de um regime de autoritarismo político plutocrático, ultraliberal e desregulado, com um controlo social estrito operado através da instrumentalização das redes sociais e da esfera mediática; trata-se de montar um novo ecossistema informacional, um verdadeiro aparelho de desinformação, onde a inversão acusatória e do ónus da prova fazem a lei e onde as democracias liberais se revelam como regimes fracos e relativistas que consentem o caos social e a corrupção das elites.
4. A exposição das vulnerabilidades europeias é, por demais, evidente e gera uma crescente deceção política; a exposição destas vulnerabilidades – tecnológicas, militares, energéticas, geopolíticas, identitárias, populistas, regulamentares e regulatórias – contrasta com o pretenso excecionalismo e providencialismo americanos de que o presidente é porta-voz, mas ambos revelam o declínio do sistema de poder ocidental, imerso num caldo de cultura tecno-plutocrático onde riqueza e poder andam a par de desigualdades sociais profundas que emagrecem e empobrecem as classes médias.
5. O modelo normativista e de soft power da União Europeia está, aparentemente, em compasso de espera, pelo menos por agora; os valores e os princípios, o direito e as normas, em que assentou o projeto de construção europeia parecem estar, por agora, reféns dos custos de contexto geopolítico, enquanto a política orçamental e monetária da União procura novas regras e instrumentos financeiros para acolher as despesas de segurança e defesa da sua política de hard power que se justificam nesta conjuntura.
6. No modelo político e no sistema de poder europeus seis fragilidades são especialmente notórias e preocupantes no atual contexto geopolítico: o frágil policy-making decision das suas atuais instituições (1), a ausência de um cluster tecno-digital de dimensão europeia e mundial (2), a escassa dotação de recursos próprios em matéria de energia e terras raras (3), o baixo investimento na indústria militar e a modernização do sistema de defesa europeu (4), a debilidade do mercado de capitais europeu (5), a frágil projeção do poder europeu no mundo multipolar em formação (6). Estas fragilidades não são resolúveis a curto prazo e não se compadecem com a débil diplomacia europeia nesta fase.
7. Estamos a assistir ao fim da mundialização feliz e do multilateralismo comercial da OMC e, doravante, vai ser necessário acertar na dose certa de protecionismo comercial, de descarbonização energética, de proteção do ambiente, de ajudas ao investimento, de combate ao cibercrime, de fluxos migratórios, ou seja, as relações económicas passarão a ser filtradas pelo critério da segurança coletiva em sentido amplo.
8. O sistema de poder multipolar mundial exigirá, doravante, uma política externa e de segurança europeia mais baseada no hard power do que no soft power, ou seja, é necessário escolher bem os parceiros e reduzir as nossas vulnerabilidades, sabendo que a Rússia é um país hostil e a China um grande desafio sistémico; nos próximos anos a segurança e a soberania dependerão menos de tratados diplomáticos e mais de decisões estratégicas que reduzam a dependência de fornecimentos críticos, protejam infraestruturas e propriedade industrial, reforcem as parcerias no indo-pacifico e monitorizem a parceria entre a China e a Rússia.
9. A cultura e o espetáculo, a esfera mediática, o capitalismo da vigilância, este triângulo potencialmente malicioso precisa de estar sob observação permanente; a União Europeia e os Estados membros precisam de prestar uma atenção particular à grande área dos serviços digitais e da inteligência artificial e sua mediação pela esfera mediática, pois a tecno-cultura é uma infraestrutura interpretativa da maior relevância política que está em permanente interação com a esfera mediática por via das redes sociais.
10. Finalmente, o racional da democracia política, liberal e representativa, mas, também, burocrática, parece estar posto em causa, pois, de acordo com a ideologia tecno-plutocrata, foi capturado por elites tecno-burocráticas que ninguém elegeu e legitimou; ora, o poder e o povo, de acordo com a mesma ideologia, podem comunicar diretamente através da democracia direta e a inovação tecnológica substituir a inércia burocrática de muitos serviços da administração.
Aqui chegados, temos, de um lado, uma ideologia tecno-plutocrática que se afirma, simultaneamente, revolucionária e revisionista e que, ao invocar a sua legitimidade democrática, desemboca no autoritarismo político, usando a arte do espetáculo mediático ao serviço da propaganda política e, do outro lado, uma democracia política liberal, frágil e vulnerável, refém muitas vezes das suas próprias instituições, que não teve coragem para se reformar, e que busca, afanosamente, conciliar interesses divergentes nos limites apertados do seu envelope orçamental, ao mesmo tempo que faz germinar e crescer uma indisfarçável fadiga e deceção democráticas. A terminar, e agora que se fala tanto em guerra e segurança europeia, prefiro, em vez disso, combater a fadiga, o tédio e a deceção, com uma crítica radical consubstanciada nesta lista de interrogações:
Porque é que, apesar das evidências, a nossa terra-mãe continua a ser tão maltratada?
Porque é que a precariedade e a corrosão do carácter se agravaram tanto no século XXI?
Porque é que a crueldade e a violência prevalecem sobre a singeleza da humanidade?
Porque é que a credulidade prevalece sobre a racionalidade?
Porque é que investimos tanto em tecnologia e tão pouco em humanidade?
Porque é que o saber, o poder e o dever não estão mais alinhados?
Porque é que abandonámos o progresso, a esperança e o futuro?
No final, se quiserem, a cultura e a política podem associar-se e serem uma espécie de iluminismo radical onde todos e cada um vão buscar alguma inspiração contra o tédio e a deceção. Afinal, é, também, por isso que a política se interessa pela cultura. Sim, sim, a Europa da cultura. Não se pode mudar o mundo (a política) sem mudar o modo de a representar (a cultura).
Artigo publicado no Observador.
Leia também: União Europeia, os cenários para 2025 | Por António Covas

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