O risco de tsunami no Mediterrâneo está a ganhar novo peso nos planos de proteção civil da Riviera Francesa, à medida que organismos internacionais, serviços do Estado e municípios apertam a preparação para fenómenos raros, mas potencialmente rápidos e destrutivos. Em vez de falar de um cenário improvável, o foco passou a estar na forma de alertar, evacuar e proteger populações costeiras em poucos minutos.
A base desse alerta é clara. A UNESCO indica que existe uma probabilidade de 100% de ocorrer no Mediterrâneo um tsunami com pelo menos um metro de altura nos próximos 30 a 50 anos, o que ajuda a explicar por que motivo a prevenção deixou de ser tratada como uma hipótese remota e passou a integrar a agenda de preparação costeira.
Alerta na costa da Riviera Francesa
A costa mediterrânica francesa já registou vários episódios relevantes. Um relatório do Senado francês recorda, entre outros casos, o tsunami associado ao sismo do mar da Ligúria em 1887, o colapso junto ao aeroporto de Nice em 1979 e o evento gerado pelo sismo de Boumerdès, na Argélia, em 2003. Mais recentemente, o BRGM voltou a modelar cenários para os Alpes-Maritimes e concluiu que a subida de água pode ultrapassar os 3 metros em alguns pontos e que várias frentes marítimas, portos e até os aeroportos de Nice Côte d’Azur e Cannes-Mandelieu podem ser afetados.
O principal problema é o tempo disponível para reagir. Segundo o BRGM, um tsunami gerado no mar da Ligúria pode atingir a costa dos Alpes-Maritimes em apenas 2 a 7 minutos, enquanto um evento vindo da margem do Magrebe pode chegar em cerca de 1 hora e 7 a 12 minutos. No caso do tsunami de 2003 provocado pelo sismo de Boumerdès, um estudo científico identificou perturbações significativas do nível do mar em oito portos franceses do Mediterrâneo.
Alertar depressa nem sempre chega
Em França, a vigilância nacional cabe ao CENALT, o Centro de Alerta de Tsunamis, que monitoriza a bacia do Mediterrâneo ocidental e o Atlântico nordeste. O próprio centro explica que o seu objetivo operacional é difundir uma mensagem de alerta às autoridades no prazo de 15 minutos após um sismo potencialmente tsunamigénico. Esse sistema é complementado pelo FR-Alert, que desde junho de 2022 permite enviar notificações diretamente para os telemóveis das pessoas presentes na zona de perigo.
Ainda assim, a própria documentação oficial mostra os limites de um aviso centralizado quando a origem do tsunami é muito próxima da costa. O BRGM sublinha que, nos cenários mais curtos do mar da Ligúria, o tempo de chegada pode ser tão reduzido que impede qualquer previsão útil, enquanto o CYPRES lembra que, no Mediterrâneo, a chegada das ondas pode ocorrer entre 10 e 90 minutos e que não se deve esperar passivamente por um sinal para agir.
Em Nice, a mensagem oficial é direta. No documento municipal sobre riscos maiores, a cidade avisa que o recuo do mar pode ser um sinal precursor e determina que, em caso de tsunami, é preciso afastar-se imediatamente do litoral e subir o mais alto possível, lembrando ainda que podem chegar várias ondas sucessivas.
O que já está a ser feito no terreno
Na Riviera Francesa, o exemplo mais avançado e melhor documentado é o de Cannes. A UNESCO reconheceu o município, a 19 de janeiro de 2024, como a primeira comunidade “Tsunami Ready” da França metropolitana e da região do Atlântico nordeste e Mediterrâneo. No processo, ficaram incluídos sistemas de alerta, avaliação do perigo, cartografia de evacuação, sinalética, exercícios e ações de sensibilização pública.
A Universidade Paul-Valéry Montpellier 3, através do laboratório LAGAM, explica que ajudou a criar planos de evacuação padronizados, sinalização de rotas de fuga e exercícios de gestão de crise, além de testar itinerários no terreno.
Também refere a mesma universidade que este trabalho continua em várias comunidades costeiras francesas, incluindo a metrópole Nice Côte d’Azur. Num processo paralelo, a própria metrópole de Nice lançou em 2025 uma consulta pública para perceber melhor como residentes, trabalhadores e visitantes encaram o risco de tsunami e para melhorar as ações de informação, sensibilização e preparação.
O que fica claro
As fontes oficiais consultadas não sustentam a ideia de um tsunami iminente e datado para a Riviera Francesa. O que mostram, isso sim, é um risco real no Mediterrâneo, com antecedentes históricos, cenários científicos credíveis e tempos de resposta por vezes demasiado curtos. Por isso, a preparação local, os percursos de evacuação, a comunicação rápida e o treino da população passaram a ser tratados como a principal linha de defesa na costa sul de França.
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