Num momento em que vários países europeus enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores para as tarefas mais exigentes, o debate sobre a escassez de mão-de-obra voltou a ganhar força. Em Espanha, esse desafio é particularmente visível no modelo agrícola de Almeria, no sul do país, uma região conhecida como a horta da Europa e sustentada por milhares de hectares de estufas. É neste cenário que dois agricultores explicam por que motivo a maioria dos trabalhadores deste setor são imigrantes.
A região é frequentemente descrita como um dos motores agrícolas de Espanha. Vista do exterior, a imagem é a de um setor moderno, mecanizado e competitivo. No terreno, o retrato é diferente. Foi assim que dois agricultores, Julio e Germán, descreveram a exigência diária de trabalhar em culturas como a da curgete, de acordo com o jornal digital Noticias Trabajo.
Na exploração familiar de Germán, Julio gere 30 mil metros quadrados de produção. O ritmo é contínuo: a planta cresce todos os dias, precisa de água todos os dias e produz sem interrupções. A colheita começa cerca de um mês após a plantação e pode prolongar-se durante três meses. Só num mês e meio, explicam, retiraram cerca de 60 mil quilos.
Dureza que afasta muitos trabalhadores
A carga física é um dos aspetos que mais surpreende quem visita as estufas. Julio descreve o dia-a-dia de forma direta: quem trabalha ali vai suar, passar frio, passar calor e terminar sujo. Para muitos jovens, estas condições tornam o campo pouco atrativo, tal como acontece com outras profissões exigentes, como a de canalizador ou carpinteiro.
Ainda assim, os agricultores sublinham vantagens. A autonomia, o contacto com a terra e a liberdade de trabalhar sem pressões externas são aspetos que continuam a atrair alguns. Além disso, existe uma cultura de entreajuda: quem trabalha no campo raramente regressa a casa sem legumes frescos.
Recurso crescente a imigrantes
A falta de mão-de-obra é um problema crónico na agricultura de Almeria. É por isso que tantas explorações no setor recorrem a trabalhadores imigrantes, uma tendência que se repete noutros setores fisicamente exigentes. Segundo Julio, “as pessoas não querem trabalhar no campo”. A explicação, garante, não está no salário.
As funcionárias da exploração recebem 55 euros por dia por oito horas de trabalho. O valor é semelhante ao pago nos armazéns e cooperativas onde os produtos são classificados e embalados. A diferença está nas condições reais: nas estufas, trabalha-se com frio de manhã, calor ao meio-dia e esforço físico constante. Nas cooperativas, o ambiente é controlado e o trabalho é mais leve.
Julio refere ainda outro problema: a rotatividade. Muitos trabalhadores desistem ao fim de pouco tempo devido ao calor, às dores nas costas ou simplesmente ao desconforto diário. Encontrar mão-de-obra não é difícil, dizem. Difícil é mantê-la. Os espanhóis que continuam no setor são, na maioria, proprietários de terras. A restante força de trabalho no setor é composta por imigrantes, conforme refere a mesma fonte.
Um calendário agrícola que não conhece domingos
Outra caraterística apontada pelos agricultores é a falta de descanso. A curgete colhe-se todos os dias. O tomate, duas vezes por semana. Domingo ou feriado, a produção dita o ritmo. “Quando toca cortar, corta-se”, resume Germán. Para muitos, esta rotina é suficiente para afastar qualquer intenção de seguir carreira no campo.
Há culturas menos exigentes, como a da melancia, que requerem menos mão-de-obra. Mas isso implica despedimentos no fim de cada campanha e novas contratações meses depois, algo que dificulta ainda mais o rejuvenescimento do setor, segundo aponta o Noticias Trabajo.
Um trabalho que continua a ser vocacional
Apesar de tudo, tanto Julio como Germán descrevem a agricultura como um ofício de vocação. A satisfação, dizem, está em ver a planta crescer e transformar-se em alimento. Orgulham-se do sabor autêntico dos produtos acabados de colher, algo que garantem ser impossível de replicar num supermercado.
















