Uma operação conjunta da Polícia Nacional e da Guardia Civil de Espanha permitiu desmantelar uma das maiores estruturas criminosas de origem argelina dedicadas ao tráfico ilícito de migrantes através do Mediterrâneo. De acordo com a Euronews, a investigação atribui à organização pelo menos 64 operações que terão permitido a entrada irregular de mais de 2.000 pessoas em Espanha e gerado lucros superiores a 24 milhões de euros.
Rede usava as mesmas embarcações para transportar droga e migrantes
A organização recorria a embarcações de alta velocidade num esquema de dupla utilização. As lanchas partiam de Espanha em direção à Argélia transportando sobretudo drogas sintéticas, como MDMA, e eram depois utilizadas na viagem de regresso para levar migrantes de forma irregular até às costas de Almería, Cartagena, Múrcia e Alicante, assim como à ilha de Ibiza.
A Europol descreve o funcionamento da estrutura como semelhante ao de uma empresa de logística dedicada ao transporte clandestino de droga, armas e migrantes entre a Europa e a Argélia.
A investigação, iniciada em 2023, permitiu às autoridades identificar uma estrutura transnacional consolidada há vários anos no Mediterrâneo. O grupo funcionava através de diferentes núcleos organizados e hierarquizados, instalados na Andaluzia, Região de Múrcia, Comunidade Valenciana e Ilhas Baleares, além de manter ramificações operacionais noutros países europeus.
Viagens podiam custar 12 mil euros por cada migrante
Segundo as autoridades espanholas, a organização chegava a cobrar 12 mil euros por cada migrante transportado e algumas travessias levavam até 50 pessoas de uma só vez. As 64 operações documentadas terão permitido transportar mais de 2.000 migrantes para Espanha, proporcionando ao grupo receitas superiores a 24 milhões de euros, às quais se juntavam os lucros obtidos com o tráfico de droga e com o fornecimento clandestino de combustível às embarcações rápidas.
As travessias representavam um risco elevado para quem seguia a bordo. Os migrantes viajavam amontoados, a alta velocidade e, frequentemente, com forte ondulação, sem iluminação e, na maioria dos casos, sem coletes salva-vidas. As autoridades revelam ainda que, em algumas viagens, os passageiros chegaram a ser amarrados para evitar que caíssem ao mar durante o percurso.
Migrantes esperavam em condições precárias antes da travessia
Antes de chegarem à costa argelina para embarcar, muitos dos migrantes faziam percursos extensos através de diferentes países africanos. Já perto dos pontos de partida, alguns eram alojados em habitações precárias, sobrelotadas e sem condições de salubridade, onde aguardavam pelo momento escolhido pela organização para iniciar a travessia do Mediterrâneo.
A polícia espanhola descreve ainda uma organização marcada por um elevado nível de violência. Ameaças, coação e agressões seriam utilizadas tanto contra membros da própria estrutura como contra migrantes, estando também documentadas referências a represálias, sequestros, ajustes de contas e ameaças de morte. Os pilotos das embarcações terão ainda recebido indicações para proteger as lanchas e enfrentar as forças de segurança quando necessário.
Operação termina com 78 detidos e 18 lanchas apreendidas
Na fase final da operação participaram mais de 180 agentes e foram detidas 78 pessoas, 77 em Espanha e uma na Argélia. Entre os detidos estão quatro dos alegados responsáveis da organização, considerados pelas autoridades objetivos de alto valor, e um homem identificado como o “hawalader”, responsável pela infraestrutura financeira utilizada pelo grupo. Do total de detidos, 27 ficaram em prisão preventiva.
Foram também apreendidas 18 embarcações de alta velocidade, equipadas com três ou quatro motores e avaliadas em mais de cinco milhões de euros. Em 17 buscas realizadas em Almería, Múrcia, Cartagena e Alicante, as autoridades apreenderam ainda 26.675 euros em dinheiro, 15 mil comprimidos de MDMA, 61 quilos de haxixe, 500 gramas de cocaína, 40 gramas de metanfetamina, armas, munições, veículos, equipamentos de geolocalização e 725 litros de gasolina. Contas bancárias, imóveis e veículos associados aos principais suspeitos foram igualmente alvo de bloqueio preventivo.
Portugal também aparece nas ramificações da rede
Portugal surge diretamente ligado à investigação. Segundo o Ministério do Interior espanhol, a organização não estava limitada a Espanha e mantinha ramificações operacionais em Portugal, França, Itália e Polónia. A fase internacional da investigação contou também com a participação da Polícia Judiciária portuguesa, juntamente com a Polícia Nacional francesa e a Polícia Nacional polaca, sob colaboração da Europol.
O comunicado oficial espanhol não especifica, contudo, que atividades concretas eram desenvolvidas pela estrutura em território português, nem refere detenções efetuadas em Portugal no âmbito desta operação.
O que está confirmado é a existência de ramificações operacionais no país e a participação da Polícia Judiciária nas diligências internacionais, mostrando que a investigação ultrapassou as rotas marítimas entre Espanha e a Argélia e envolveu autoridades de vários Estados europeus.
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