Os turistas britânicos estão a mostrar sinais de mudança nos planos de férias para este verão, com Espanha a perder algum peso nas novas reservas e a Grécia a ganhar destaque entre os destinos escolhidos. Segundo dados citados pelo especialista em viagens Simon Calder, a alteração estará ligada ao receio de atrasos e complicações nas fronteiras europeias, numa altura em que o novo sistema de entradas e saídas da União Europeia continua a preocupar o setor turístico.
De acordo com a Advantage Travel Partnership, organização que representa mais de 700 agências de viagens, as novas reservas de verão feitas por britânicos passaram a favorecer mais a Grécia do que Espanha no final de abril. A tendência foi avançada ao The Independent e depois citada pela imprensa britânica, num sinal de que os viajantes estão a valorizar destinos onde a chegada ao aeroporto possa ser mais simples e previsível.
Os números indicam que a quota de reservas para Espanha continental caiu de 8,7% para 7% nas duas últimas semanas de abril. No mesmo período, a Grécia subiu de 7,7% para 9,8%, ultrapassando Espanha nas novas marcações feitas por turistas do Reino Unido.
Grécia ganha terreno antes do verão
A mudança surge num contexto de preocupação com o Sistema de Entrada/Saída da União Europeia, conhecido pela sigla EES. O mecanismo foi criado para registar eletronicamente entradas e saídas de viajantes de países terceiros no espaço europeu, incluindo cidadãos britânicos, depois do Brexit.
O problema, segundo representantes do setor turístico, está no risco de aumento das filas e atrasos nos aeroportos durante os meses de maior movimento. Para muitos turistas britânicos, a possibilidade de perder tempo à chegada pode influenciar a escolha do destino de férias.
Julia Lo Bue-Said, diretora executiva da Advantage Travel Partnership, afirmou que tem havido uma subida “clara e consistente” da procura pela Grécia entre as agências associadas. A responsável considera que os viajantes estão cada vez mais atentos à possibilidade de perturbações nas fronteiras quando escolhem onde passar férias.
A Grécia é vista como uma alternativa particularmente atrativa para os britânicos, não só pelo clima, praias e oferta turística, mas também pela perceção de uma experiência de chegada mais fluida. Em maio, várias zonas do país já registam temperaturas agradáveis, próximas dos 25 ºC, o que reforça o apelo do destino fora da época alta.
Espanha perde peso nas reservas
Espanha continua a ser um dos destinos favoritos dos britânicos, sobretudo pelas ilhas, costa mediterrânica e forte oferta hoteleira. No entanto, os dados agora citados sugerem que parte dos viajantes está a ponderar alternativas perante a incerteza relacionada com o controlo fronteiriço.
A descida da quota de reservas não significa uma quebra generalizada do turismo britânico em Espanha, mas mostra uma alteração no comportamento de quem está a marcar férias para o verão. Num mercado competitivo, pequenas mudanças podem ter impacto relevante para companhias aéreas, operadores turísticos, hotéis e economias locais dependentes dos visitantes do Reino Unido.
O tema preocupa também outros destinos europeus muito procurados por britânicos, como França, Itália, Croácia e Portugal. Especialistas em viagens admitem que os países que conseguirem reduzir filas e simplificar procedimentos à chegada podem ganhar vantagem durante a época alta.
A imprensa britânica tem dado destaque ao assunto porque os turistas do Reino Unido representam uma fatia importante do turismo em vários países do sul da Europa. No caso da Grécia, o mercado britânico tem peso económico significativo, razão pela qual qualquer perturbação nos aeroportos é acompanhada com atenção.
Setor turístico pede solução coordenada
Para a Advantage Travel Partnership, a implementação do EES, nos moldes previstos, pode afetar a confiança dos viajantes num momento decisivo para as reservas de verão. A organização defende uma abordagem mais coordenada entre os países europeus, de forma a evitar regras aplicadas de forma desigual e experiências muito diferentes consoante o aeroporto de chegada.
Julia Lo Bue-Said considera positivas as decisões pragmáticas tomadas por alguns destinos para aliviar a pressão durante o pico do verão, mas alerta que uma resposta isolada não resolve o problema. Para a responsável, seria necessária uma pausa mais ampla e coordenada, permitindo às autoridades preparar melhor a operação e garantir maior consistência.
Também Seamus McCauley, da empresa Holiday Extras, alertou que os países não deverão ficar parados se perceberem que a Grécia está a ganhar reservas por oferecer uma chegada mais simples. Segundo o responsável, o risco é económico e político, uma vez que os empregos associados ao turismo dependem da capacidade de manter a confiança dos visitantes.
A disputa mostra como a experiência no aeroporto passou a pesar mais na decisão dos turistas. Para muitas famílias britânicas, o preço e o clima continuam a ser importantes, mas a previsibilidade da viagem tornou-se um fator central depois de anos marcados por atrasos, greves, novas regras e mudanças pós-Brexit.
Britânicos procuram férias sem filas
A tendência agora revelada sugere que os turistas britânicos não estão apenas a escolher o destino pela praia ou pelo preço. Estão também a avaliar o risco de filas, burocracia e atrasos nos controlos de fronteira, sobretudo quando viajam com crianças ou em períodos de maior movimento.
Espanha mantém uma posição forte no mercado britânico, mas a Grécia surge como uma beneficiária direta desta incerteza. Com ilhas muito procuradas, clima quente em maio e forte ligação aérea ao Reino Unido, o país reúne condições para captar turistas que querem evitar complicações à chegada.
Para já, os dados mostram uma alteração nas novas reservas feitas no final de abril, não uma mudança definitiva no mapa turístico europeu. Ainda assim, o sinal é relevante para o setor, porque surge precisamente antes da época alta.
Se a preocupação com o EES continuar a influenciar escolhas, outros destinos poderão tentar seguir o mesmo caminho e aliviar procedimentos nos aeroportos. Para os britânicos, a decisão parece cada vez mais simples: entre um destino com risco de filas e outro com chegada mais previsível, muitos estão a escolher onde esperam começar as férias sem perder horas no aeroporto.
Leia também: Esta praia ‘deserta’ algarvia de águas cristalinas tem a água mais quente de Portugal e ali só se chega de barco
















