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Cultura.Sul, Edição Papel

Uma Furtiva Lágrima, de Nélida Piñon

    Se o nome causa alguma estranheza é por causa da sua herança galega, pois os seus avós galegos emigraram para o Brasil. A escritora brasileira Nélida Piñon nasceu em 1937 no Rio de Janeiro. Formou-se em Jornalismo em 1956 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Colaborou em vários jornais e revistas […]

20:14 6 Março, 2019 11:12 29 Novembro, 2024 | Cristina Mendonça
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A OPINIÃO de PAULO SERRA; Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

Se o nome causa alguma estranheza é por causa da sua herança galega, pois os seus avós galegos emigraram para o Brasil. A escritora brasileira Nélida Piñon nasceu em 1937 no Rio de Janeiro. Formou-se em Jornalismo em 1956 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Colaborou em vários jornais e revistas literários e foi correspondente no Brasil da revista Mundo Nuevo, de Paris. Publicou o seu primeiro romance, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, em 1961.

Nélida Piñon foi homenageada na edição deste ano do Correntes d’Escritas e recebeu, no passado dia 1 de Março, o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2019, atribuído pela Universidade de Évora.

A atribuição do prémio à escritora foi decidida em dezembro, em reconhecimento pela «latitude e profundidade da sua obra». Actualmente com 81 anos, este é o primeiro livro seu publicado depois de anunciado o Prémio Vergílio Ferreira 2019. Um livro intimista, feito de memórias, pensamentos soltos, reflexões, aforismos, que foi publicado em Portugal, pela Temas e Debates, primeiro do que no Brasil.

«Convocada desde cedo a fundir as tradições brasileiras e espanholas, que são a fonte da minha linguagem, o palimpsesto da minha fabulação, apraz-me pensar que herdei também os pigmentos e a emotividade de todos os povos.» (p. 46)

Além da Galiza, a autora tem aliás uma forte ligação a Portugal, onde se encontra há um ano (parece que a preparar o seu próximo romance), ainda antes de saber que iria receber o Prémio, o que não lhe deu oportunidade de reler as obras do autor Vergílio Ferreira ou as cartas que ambos trocaram e que estão guardadas no seu arquivo pessoal.

Escrever é o que sei fazer

«Escrever é o que sei fazer. Narrar me insere na corrente sanguínea do humano e me assegura que assim prossigo na contagem dos minutos da vida alheia. Pois nada deve ser esquecido, deixado ao relento. Há que pinçar a história dos sentimentos a partir da perplexidade sentida pelo homem que na solidão da caverna acendeu o primeiro fogo.» (p. 18)

Neste livro é recorrente a lembrança e a descrição da chegada dos seus avós ao Brasil, provindos da Galiza, que aliás foi recriado ficcionalmente no seu romance A República dos Sonhos, publicado em 1984, livro que a consagrou no Brasil e em Portugal, onde tenta explicar dois séculos de história do Brasil:

«É um refrigério ser brasileira, cidadã do mundo, enquanto a génese familiar facilitou-me roçar o fulcro da poesia galaico-portuguesa, estabelecer analogias entre o arcaico e o que vem até os meus dias. A recordar o velho camponês, de Cotobade, sentado à mesa, com um vaso de vinho tinto ao lado, esfregando um pedaço de broa de milho no toucinho cedido pelo porco que vi crescer na casa da avó, em Borela, e que conquanto consolidou minha visão narrativa, não pude suportar a dor quando mataram o animal a quem fizera dias antes declarações de amor.

Nélida Piñon recebeu, no passado dia 1 de Março, o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2019 (Foto: Simone Marinho)

Este conjunto de episódios estimulou-me a compor o romance A República dos Sonhos, uma saga ou uma épica que cobre dois séculos do Brasil e outros tantos séculos da trajetória espanhola, incluindo as peregrinações medievais. E que ao abordar a imigração, ressalta como os milhares de galegos, a caminho da América, cumpriram a rota da utopia individual e coletiva.» (p. 201)

A autora recorda ainda quando viveu cerca de dois anos na Galiza: «Esta temporada em Espanha, com esporádicas visitas a Portugal, quase sempre vivida em Borela, Cotobade, na casa da avó Isolina, propiciou-me uma comunhão com a natureza galega, com o mundo ancestral, como se eu fora uma druida celta prostrada em adoração diante das árvores (…) enquanto absorvia, destemida, a geografia, o campo e a montanha, as lendas, as bruxarias, as línguas galega e castelhana, as festas de verão, os cheiros, a comida, os costumes locais, o substrato enfim da grei de que me originara.» (p. 48)

Diário da morte

Nélida Piñon parece viver com desmesura, fazendo da vida um acto de amor: «Mergulha, sim, na liturgia do amor e renuncia a tua descabida ira. O amor é e será sempre teu melhor gesto na terra. O único capaz de projetar luz sobre esta precária existência humana.» (p. 29)

Ou não tivesse a autora sobrevivido a um diagnóstico, afinal errado, quando no dia 2 de dezembro de 2015 (uma das entradas deste livro) o médico ditou que teria meses de vida: «Pensei fazer um diário breve, um resumo dos meus últimos dias, segundo sentença do oncologista que, com parcimónia e convicção, antes mesmo dos resultados dos últimos exames, foi conclusivo. Eu teria entre seis meses a um ano. Retornei à casa, disposta a me preparar.» (p. 19)

Neste livro, a que chama «diário da morte», feito de fragmentos, de memórias, de uma partilha de enamoramentos, a autora explora e apresenta-nos as suas paixões, assim como algumas das suas inquietudes.

«Minha morte não é inspiradora, não pode ter traços poéticos, emenda ou salpicos metafóricos. Não há poesia na morte.» (p. 19)

Narrar é prova de amor

Contudo escrever é também um acto de amor e de entrega:

«Narrar é prova de amor. O amor cobra declarações, testemunho do que sente. Fala da desesperada medida humana. (…) A partir da escrita tornaram-se valiosas as confidências humanas. E ampliou-se o horizonte verbal, estabelecendo-se correspondência entre o afetivo, o conceitual e as palavras. A fim de verbo e sentimento não extraviarem de suas representações.» (p. 71)

É manifesto o amor da autora pela história, desfiando um rol de personagens quer míticas quer históricas, mas está bem cônscia da actualidade: «A vida, in extremis, expulso para longe. Sei, contudo, que a crueldade do planeta é da minha responsabilidade. Não ignoro os efeitos do mal radical e tão-pouco desejo que se faça desta exposição visceral instrumento de arte. E isto porque sou vulnerável aos estertores oriundos da inquisição, do tráfico negreiro, do holocausto, dos genocídios sistemáticos, das guerras religiosas, da limpeza étnica, do estupro ideológico, dos porões da ditadura.» (p. 31) Assim como o afecto pelo seu país, mesmo pleno de desigualdade e injustiça: «Escritor brasileiro é estrangeiro em qualquer recanto, mesmo no Brasil. É pena ser apátrida no mundo. Ter passaporte, mas que não tem efeito, não defende sua vida e dos livros que levam sua assinatura.» (p. 113)

A capa do livro de Nélida Pinõn

Nestes textos esparsos e sentidos, ora com meia dúzia de linhas ora com algumas páginas, Nélida Pinõn relembra amigos do mundo da escrita, como Natália Correia, Lygia Fagundes Telles, a quem se dirige por vezes como em carta, Rubem Fonseca, ou Afrânio Coutinho, um apaixonado apoiante da sua candidatura a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, em 1989, que aliás veio a presidir em 1996, sendo a primeira mulher a presidir-lhe. Enaltece a sua herança e o seu álbum de memórias de família. Percorre a história através de figuras como Epicuro ou Carlos V, até porque se sente mais feliz a reviver outras épocas: «Frequento com assiduidade as páginas da História. Desde Heródoto, Tucídides, até os anais dos historiadores modernos. Atrai-me a imaginação dos mestres da História.» (p. 165) Revisita personagens bíblicas, como Paulo de Tarso, ou mitológicas, como Ártemis. Relembra o seu querido Gravetinho Piñon, já falecido, animal que humaniza ao dedicar-lhe este livro.

Filha da língua portuguesa

Mas se há valor que lhe serve de bússola é o amor à língua portuguesa:

«Nasci no país que quis, no continente que ampara minha imaginação. Não teria escolhido o século XX para viver, mas me resta fruir, graças à fantasia, outras épocas que me atraem. Como os séculos IV, XII e XVI.

Contudo aponto como um crédito a meu favor o facto de ser filha da língua portuguesa. Eu não a trocaria por nenhuma outra, ainda que não domine seus meandros, e me oferte armadilhas para me testar. Ah, língua maldita que tem a excelência do sublime e a insídia do pecado! Mas eu a amo com a ufania e o desespero de quem cria nela.» (p. 203)

E neste diário, testamento ou testemunho de vida, escrito pela premência de sentir subir em si a maré negra da morte, que afinal acabou por enganar, pois o diagnóstico estava errado, a autora deixa-nos um rosário de pensamentos e de retalhos onde recompõe a sua existência e a dos que a amparam:

«Falar em primeira pessoa requer audácia. Mas é uma opção natural. Enquanto falo por mim, ou penso por mim, incorporo os demais à minha genealogia. Não ando sozinha pelo mundo.

Ao ser múltipla, sou muitas. Minha linguagem reverbera, tenho a memória de todos na minha psique. E o coletivo passa a me afetar, aloja-se na minha primeira pessoa, que é uma experiência dramática.» (p. 17)

Do conjunto da sua obra destacamos ainda títulos publicados pela Temas e Debates como Os Filhos da América, A República dos Sonhos, Aprendiz de Homero, e O Livro das Horas.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de março)

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