A Feira do Livro de Portimão recebeu, a 6 de julho, uma conversa dedicada ao género thriller e policial, intitulada “O Género Policial em Portugal”. Aproveitando a ocasião, o POSTAL do ALGARVE esteve à ‘conversa’ com quatro autores portugueses em destaque neste género literário: Lourenço Seruya, Filipa Amorim, Bruno M. Franco e o algarvio Fábio Ventura.
Desde ambientes sinistros, mistérios familiares e personagens complexas, os thrillers e policiais são presença frequente nas malas dos veraneantes que procuram emoções fortes à beira-mar. Lourenço Seruya, ator e escritor, Filipa Amorim, jornalista e assessora de imprensa, Bruno M. Franco, profissional de saúde, e Fábio Ventura, natural de Portimão, partilharam connosco as suas inspirações, desafios criativos e o fascínio que este género exerce sobre os leitores.
A entrevista aos quatro autores revela também como as vivências pessoais e profissionais influenciam os seus processos criativos, desde as técnicas dramáticas de Lourenço Seruya à disciplina desportiva de Bruno M. Franco, passando pelo equilíbrio narrativo de Filipa Amorim e pela ligação subtil ao Algarve presente nas obras de Fábio Ventura.
Esta conversa promete desvendar um pouco dos bastidores destes romances carregados de suspense e que, verão após verão, conquistam leitores em busca de entretenimento com mistério e intensidade emocional.

Fábio Ventura revela como Portimão inspira cenários nos seus thrillers psicológicos
P – Sendo natural de Portimão e autor de seis livros, como é que o seu vínculo à região do Algarve influencia estilos narrativos, cenários ou personagens, especialmente nos livros “Corações de Papel, “Gatos na Noite” ou “O Sono dos Culpados”?
R – O meu vínculo ao Algarve não tem influência direta nas histórias, estilo ou género. No entanto, os cenários acabam por marcar sempre presença de alguma forma. Com uma região tão bonita e diversificada, o mar e a serra acabam por se integrar na narrativa de forma natural. Destaco a inspiração na costa do Barlavento no “Gatos na Noite” e na Serra de Monchique n’”O Sono dos Culpados”.
P – Como concilia o trabalho diurno em Comunicação com a escrita literária noturna, e que rotinas ou rituais adota para manter essa dupla dinâmica criativa?
R – É realmente um desafio conciliar uma atividade profissional “normal” com a carreira de escritor, não só por uma questão de tempo, mas também pela disponibilidade mental e emocional. O meu trabalho em Comunicação envolve escrever muito, o que me permite continuar a desenvolver essa vertente, mas a escrita criativa e literária é um mundo completamente à parte. O que acaba por me motivar é o facto de a escrita funcionar como uma espécie de “exorcismo” dos problemas do dia a dia, funcionando também como escape quando entro nas minhas histórias e vidas das personagens. Não tenho rituais específicos, apenas sentar-me à frente do computador com música e… escrever!
P – Começou com obras de fantasia no início da carreira e agora tem investido mais no género thriller. Qual o processo de construção do suspense em géneros tão distintos e qual o seu género preferido para explorar?
R – Comecei a carreira na fantasia young adult em 2009-2010, mas foi numa outra fase da minha vida e carreira. Atualmente, revejo-me mais no thriller e tenho investido mais nesse género. Sou leitor de ambos os géneros e conto um dia regressar ao Fantástico e até explorar a Ficção Científica. Quem sabe até englobar elementos dos três numa nova história fora da caixa. São processos criativos totalmente distintos e com as suas particularidades e desafios, mas senti um grande prazer em todos os trabalhos que desenvolvi até agora.
P – Nos livros “Corações de Papel”, “Gatos na Noite” e “O Sono dos Culpados” gosta de trabalhar com temas e personagens obscuros, muitas vezes piscando o olho ao sobrenatural ou à psicologia. Como valoriza a heterogeneidade do género thriller?
R – Sempre fui leitor de thrillers, mas senti o “chamamento” para o género enquanto leitor quando estava num impasse da carreira. Agrada-me imenso a sua versatilidade e a forma como podemos desafiar a nossa criatividade com os vários subgéneros que podemos explorar. Alguns dos meus objetivos enquanto autor é escrever histórias originais e fora da caixa, com temas distintos, mas sempre focados no thriller psicológico, que acaba por focar o desenvolvimento de personagens (traumas, segredos, desejos proibidos, etc.) em contextos de crise. É a forma perfeita de retratar a condição humana, ao mesmo tempo que possibilita um autoconhecimento da nossa mente.

Filipa Amorim explica como nascem os seus thrillers entre mistérios familiares e segredos do passado
P – O ambiente atmosférico e psicológico de “A Noite da Tempestade” é bastante marcado por locais como a casa em Santa Cruz. Como equilibra a descrição de cenários nos seus thrillers sem comprometer o ritmo da narrativa?
R – É um equilíbrio difícil, porque alguns leitores preferem uma ação mais rápida, não querem tanto saber de como é a casa ou como está o tempo, querem é respostas rapidamente para o enredo, enquanto outros precisam desse enquadramento sensorial para se imaginarem lá, a ver a ação desenrolar-se diante de si. O que faço é ler os meus livros em voz alta, enquanto caminho pela casa, e quando dou por mim aborrecida com alguma parte, porque está mais descritiva, encurto um bocadinho aí. Ler em voz alta, ou “bater o texto”, como costumamos dizer, ajuda a eliminar o que está a mais, porque, ao contrário da leitura simples, em que os olhos tendem a saltar parágrafos à frente se estivermos aborrecidos, ao lermos em voz alta não o podemos fazer, notamos logo que está enfadonho e cortamos mais facilmente.
P – A protagonista Sofia enfrenta os mistérios do passado do irmão e um novo crime. Até que ponto pretende explorar, nos seus livros, a ligação entre trauma pessoal e investigação criminal?
R – Acho que vou pretender sempre, porque famílias e segredos / histórias de família são algo que me interessa sempre, seja na vida real, seja nos livros, por isso ser-me-á natural escrever sobre elas também. Gosto muito de desenvolver personagens complexas, com traumas e passados que se tornem cativantes para o leitor.
P – Tendo sido jornalista e agora assessora de imprensa, de que modo esse background molda o seu estilo narrativo: prefere o rigor jornalístico ou a liberdade criativa do thriller?
R – Tenho de ser honesta: prefiro a liberdade criativa da escrita, seja thriller e policial, seja romance contemporâneo, fantasia, sci-fi, comédia, o que for. Podermos escrever o que quisermos e como quisermos é o maior prazer que existe, só comparável a ter quem nos leia depois de publicados os livros. Mas o meu background como jornalista ajudou a criar a protagonista deste segundo livro, por exemplo, porque também ela é jornalista e facilita conhecer o meio, os cânones da profissão, compreender a fundo a “sede pela verdade” que os bons jornalistas têm.
P – Ao aliar influências da série Uma Aventura aos thrillers nórdicos e à sua própria voz, como acontece o processo criativo entre essas fontes: recorre a planos rigorosos ou os enredos fluem livremente à medida que escreve?
R – A Mafalda Santos, também ela escritora de thrillers, se bem que mais numa onda de mistério / sobrenatural, e uma das nossas melhores vozes atualmente, usa uma metáfora muito gira, de que me vou socorrer agora: há escritores arquitetos e escritores jardineiros. Os arquitetos são os que planeiam todo o enredo e todas as reviravoltas da história antes de começarem a escrever, controlando tudo ao pormenor logo à cabeça; e depois há os escritores jardineiros, como nós as duas, que temos o ponto de partida da história, planeamos talvez as linhas-mestras, ou seja, preparamos os canteiros, mas a partir do momento em que plantamos as sementes, as flores começam a crescer na direção que querem, a florir como querem, e nós vamos aparando e arrancando as ervas daninhas e tentando embelezar o jardim. E revejo-me muito nisso porque acontece o mesmo com os meus livros: tenho a ideia para o ponto de partida, mas depois vou ajustando a história à medida que as personagens levam a narrativa para onde lhes apetece. Desde que no fim faça tudo sentido, deixo o jardim crescer selvagem até onde possa.

Lourenço Seruya destaca influência do teatro na construção de suspense e diálogos nos seus policiais
P – Como é que a sua formação em representação dramática e teatro influencia a construção de cenas de suspense e diálogo nos seus romances policiais, como “A Mão que Mata”?
R – Tem uma grande influência, porque me ajuda a construir diálogos credíveis. O discurso direto das personagens é algo que me fascina, e sem dúvida que a minha formação em teatro me ajuda a construir os diálogos das personagens e a escrevê-los de forma naturalista. O meu objetivo é que os leitores sintam que são diálogos “reais”, que são mesmo pessoas a dizer aquelas frases, e não personagens. A formação em teatro também me ativou a consciência dos ingredientes necessários para boas cenas de suspense, como por exemplo, a antecipação. Ou seja, criar nos leitores a sensação de que algo dramático/forte vai acontecer, fazendo-os querer ler sem parar.
P – Sendo um autor que alia a escrita criativa à docência, que técnicas extrai do ensino de escrita criativa?
R – Dar aulas de escrita criativa fez-me estar ainda mais consciente sobre o artificio da escrita, além de me estimular imenso a criatividade, pois tenho de pensar em vários exercícios de escrita diferentes para cada sessão. É muito interessante e desafiante pensar em pontos de partida que funcionem como gatilhos de escrita.
P – Em obras como “Crime na Quinta das Lágrimas” e “Crime na Aldeia”, o inspetor Bruno Saraiva aparece em diversos cenários. De que forma a escolha do local (Sintra, aldeias, quintas históricas) serve a tensão narrativa?
R – O local é muito importante nas minhas histórias. É a primeira decisão que tomo, na verdade. Tudo o resto surge a partir da escolha do local: as personagens, os conflitos, o homicídio, a motivação, etc. E tenho concentrado a ação no mesmo local porque sinto que isso acrescenta uma boa tensão à narrativa. Potencia um ambiente claustrofóbico em que o leitor sabe que o autor do crime só pode ser uma daquelas personagens que está naquele espaço.
P – Ao escrever sobre segredos familiares e crimes, recorre a experiências pessoais ou a observação, e em caso afirmativo, pode partilhar connosco alguma situação que tenha inspirado diretamente uma cena do livro?
R – Recorro a experiências pessoais, mas também recorro à minha imaginação. Há histórias que ouvi ou presenciei, pessoas que conheci ou de quem ouvi falar, que acabam por ir parar aos meus livros. Um escritor deve estar atento ao que o rodeia e eu faço esse trabalho de observação para recolher ideias para as minhas histórias. Costumo dizer que a vida, no geral, é uma ótima fonte de inspiração. E depois, quando estou a construir as personagens e histórias, utilizo também a minha imaginação para complementar esse processo.

Bruno M. Franco revela como experiência médica e desportiva moldam os seus thrillers policiais
P – Como é que a sua formação em Radioterapia e o trabalho no IPO de Lisboa se refletem na criação de personagens ou no realismo de contextos médicos nos seus thrillers?
R – Creio que me ajuda a ter maior noção de determinados procedimentos e a conseguir imaginar que efeitos esta ou aquela doença pode ter numa personagem, e como posso usar isso a favor do enredo. Um dos meus personagens principais, por exemplo, tem um cancro que o leva a utilizar uma colostomia, o que me leva a desmistificar esta condição perante o público em geral, que tem ideias erradas do que é viver com isso. Por isso, a minha formação em Saúde ajuda-me a saber de antemão que doenças podem corresponder àquilo que quero ou que preciso para determinado personagem. Depois, pesquiso a fundo para ser o mais credível e realista possível.
P – A natação de competição marcou mais de uma década da sua vida. De que forma essa disciplina se traduz nos processos de escrita, planeamento ou gestão de prazos?
R – A natação de competição foi das coisas mais importantes da minha vida. Além de melhorar a minha saúde e condição física, ganhei ferramentas que pude aplicar o resto da minha vida. Ter ambição, ser trabalhador, ser resiliente e dar o meu melhor em cada livro são qualidades que aprendi em cada braçada e devo muito da minha vida à natação. Quando escrevo, tento não definir prazos, pelo que o trabalho diário e a consistência são características importantes para mim e para desenvolver a minha escrita.
P – Num género em que um segundo livro pode representar o “efeito do segundo disco”, que desafios encontrou ao lançar “Jogo Mortal” após o sucesso de “Segredo Mortal”?
R – Curiosamente, “Jogo Mortal” foi o livro mais fácil de escrever dos quatro da “Saga Morta”. Sempre quis escrever um policial que envolvesse algum tipo de jogo em que questões de vida ou morte seriam forçadas a várias pessoas, que teriam de matar para elas próprias sobreviverem. Quando me debrucei sobre a escrita deste livro, todo o enredo se formou facilmente na minha cabeça e foi um gosto escrevê-lo e ver os meus personagens a decidir que vidas eram mais importantes e quem merecia morrer ou viver. A verdade é que todos temos um preço e neste livro isso fica muito claro. Portanto, quando lancei o “Jogo Mortal” estava muito confiante de que levaria o género policial por caminhos ainda pouco explorados.
P – A “Série Mortal” aborda jogos letais. Até que ponto se inspira em relatos reais, estudos psicológicos ou investigações técnicas, e como assegura a credibilidade dos enredos?
R – Cada livro da Saga Mortal aborda temas importantes e atuais. No “Segredo Mortal” foi o controlo do clima, no “Jogo Mortal” foi o quanto custa uma vida humana e o vício do jogo, no “Fúria Mortal” foi o caso do Estripador de Lisboa e no “Vingança Mortal” foi o ódio que ainda existe à comunidade LGBT. Todos estes temas, mais os subtemas que abordo em paralelo em cada livro, são estudados por mim a fundo através de pesquisa em livros, na internet ou contactando pessoas com conhecimento de causa. Tento nunca deixar nada ao acaso e uso muito da vida real para elaborar os meus enredos, daí acreditar piamente na sua credibilidade. Embora, claro, a premissa seja sempre algo que, espero eu, nunca vá acontecer em Portugal. Mas tento que os enredos sejam credíveis caso aqueles crimes tivessem acontecido na realidade.
















