No próximo dia 19 de Fevereiro no Teatro das Figuras em Faro às 21:30 a Orquestra do Algarve e o seu Coro Comunitário apresentam In Paradisum um concerto dedicado à música do compositor francês Gabriel Fauré. Das três peças que constituem o programa — Pavane, Cantique de Jean Racine e Requiem — centrar-me-ei na sua missa fúnebre.
A morte, frequentemente concebida como ruptura violenta ou punição metafísica, assume um estatuto radicalmente distinto tanto na filosofia estóica como no Requiem de Fauré. Em ambos, ela é destituída da sua carga de terror e re-inscrita como elemento natural da ordem do mundo — uma passagem que, quando contemplada com lucidez, se torna fonte de liberdade interior. Em ambos os casos, o pensamento — filosófico ou musical — não busca negar a finitude, mas habitá-la com serenidade.
Séneca é explícito ao afirmar que temer a morte é um erro de perspectiva: “Não temas nem a dor nem a morte. (…) Que necessidade há de procurar os males, antecipando as desgraças que muito rapidamente haverá que sofrer, e desaproveitar o presente por medo do futuro? É, sem dúvida, uma insensatez converter-se já num desgraçado só porque algum dia o seremos” (Cartas a Lucílio, XXIV). Para Séneca, a angústia nasce não do evento em si, mas da antecipação imaginativa que o espírito indisciplinado constrói. Por isso, a prática estóica da Meditatio Mortis visa familiarizar o indivíduo com a ideia da finitude, esvaziando-a do seu poder paralisante.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezc.com)
Marco Aurélio ecoa esse princípio ao escrever: “Não organizes a tua vida como se tivesses dez mil anos para viver. A morte pende sobre ti. Enquanto vives, sê bom, enquanto ainda podes.” (Meditações, IV, 17). A consciência da morte não conduz ao desespero, mas à intensificação ética do presente.
O Requiem de Fauré parece traduzir esta mesma atitude em linguagem sonora. Diferentemente do sobejamente conhecido Requiem de Mozart, por exemplo, que é marcado por contrastes dramáticos e pela violência do Dies irae (ira de Deus), Fauré opta por uma escrita musical de contenção e recolhimento. Em vez do Deus justiceiro de Mozart, temos, em Fauré, um Deus de compaixão. O compositor chega mesmo a suprimir quase integralmente o Dies irae ao qual dedica apenas alguns compassos da secção VI Libera me (Liberta-me), dando muito mais ênfase ao lado humano — ao temor da morte e ao pedido de absolvição — do que à ira do senhor. Esta mesma linha de pensamento o fará espraiar-se em Pie Jesu (Jesus Piedoso) que compõe para um solo de soprano: “Jesus piedoso, Senhor, dai-lhes o descanso eterno.” Esta escolha não é apenas litúrgica, mas profundamente estética e filosófica: o juízo final cede lugar ao consolo e o terror, à doçura.

Do ponto de vista musicológico, essa serenidade encontra-se, por exemplo, em linhas melódicas essencialmente cantábiles, confiadas às vozes médias, contraltos e tenores, suportadas pelas vozes graves, num registo quente, dos baixos. A orquestração — especialmente na versão original com coro, órgão, harpa e cordas reduzidas — privilegia timbres velados, evitando o brilho excessivo dos metais. O resultado é uma atmosfera sonora que não impõe, mas envolve.
O último andamento, In Paradisum não integra as Missas Fúnebres sendo tradicionalmente cantado no momento em que o corpo deixa a igreja em direção ao cemitério. Porém, o compositor decide finalizar deste modo o seu Requiem e escolhe a tonalidade de Ré Maior, frequentemente associada à luminosidade e à clareza. Porém, não há retorno ao conflito, nem fechamento dramático, mas uma abertura para o repouso. Musicalmente, o movimento não resolve a obra, dissolve-a. Esta escolha já indica uma inversão estética importante: o fim não é um clímax, mas uma rarefação progressiva da matéria sonora.
Os primeiros 20 compassos deste movimento foram escritos para o naipe Soprano, escolha decisiva do ponto de vista expressivo. Essa tessitura aguda, em compasso ternário em Andante moderato, numa pulsação regular e com privilégio dos valores longos, cria uma experiência temporal quase hipnótica, próxima da meditação. Dá-nos a sensação de que o tempo parou, ficamos suspensos numa atmosfera celestial. A música flutua e parece querer sossegar-nos ao deixar-nos antever o reino dos céus. A humanidade re-integra a obra quando os restantes três naipes se lhe juntam, a partir do compasso 21, reiterando a certeza de que o Paraíso nos acolherá.
O acompanhamento é, também, de uma delicadeza extrema. Na versão orquestral, destacam-se arpas em arpejos contínuos, criando uma textura líquida e cintilante, cordas em registro médio-agudo, frequentemente em piano ou pianíssimo e a ausência quase total de metais e percussão. Este tratamento tímbrico cria uma sensação de imaterialidade sonora: o som não se impõe ao espaço, mas parece emergir dele.

Numa entrevista a Louis Aguettant, publicada em La Revue Musicale (1902). Fauré afirma:
“Mon Requiem a été composé pour le plaisir… Si j’ose dire, pour rien.” (O meu Requiem foi composto para o prazer… ouso dizer, por razão nenhuma.) E completa, ao falar do caráter da obra: “On a dit que mon Requiem n’exprimait pas la terreur de la mort, et quelqu’un l’a appelé une berceuse de la mort.” (Disseram que o meu Requiem não exprime o terror da morte, e alguém se lhe referiu como uma ‘canção de embalar da morte’.)
Esta imagem aproxima-se notavelmente da atitude estóica diante do fim da vida. Epicteto oferece a chave conceptual dessa aproximação ao afirmar: “Não são as coisas que perturbam os homens, mas os juízos que fazem sobre as coisas” (Discursos, LivroI). A morte, enquanto acontecimento natural, não é má; torna-se temível apenas quando interpretada como perda absoluta ou injustiça. O estóico, ao ajustar o seu juízo, liberta-se. Fauré, ao ajustar a linguagem musical tradicional do Réquiem, opera um gesto análogo: ele re-interpreta a morte, libertando-a do seu pathos excessivo.
Marco Aurélio vai ainda mais longe ao insistir na naturalidade do morrer: “A morte, tal como o nascimento, é um mistério da natureza, sendo um deles uma combinação de elementos e o outro uma dissolução nos mesmos.” (Meditações, IV, 5).

Esta visão estóica, quase cosmológica, da finitude encontra ressonância na fluidez estrutural do Requiem de Fauré. In Paradisum encarna uma estética de aceitação serena. Não há dramatização do além, nem júbilo triunfante. O paraíso é apresentado como continuidade tranquila, não como ruptura gloriosa. Poder-se-ia então dizer que Fauré realiza musicalmente aquilo que o estoicismo propõe filosoficamente: a reconciliação com a finitude por meio da serenidade. O som não luta contra o silêncio, aprende a desaparecer dentro dele.
Há, portanto, uma afinidade profunda entre o ethos estoico e a poética musical de Fauré. Ambos recusam o espetáculo do medo. Ambos compreendem que a liberdade humana não consiste em escapar da morte, mas em não ser interiormente dominado por ela. Meditar sobre a morte — seja por meio da razão filosófica, seja por meio da escuta musical — é um exercício de libertação da alma.
No encontro entre estoicismo e música, Fauré não nos ensina a morrer, mas a descansar; os estóicos não nos ensinam a negar o fim, mas a aceitá-lo sem temor. E talvez seja nesse ponto de convergência — entre som e pensamento, entre harmonia e logos — que se revele o mais profundo poder libertador da meditação sobre a finitude: viver sem servidão ao medo, em acordo sereno com a ordem do mundo.
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Caro leitor, aqui lhe deixo uma dupla sugestão: vá ao concerto no dia 19 ouvir o Requiem de Gabriel Fauré, e venha reflectir filosófica e musicalmente, através do exercício estóico Meditatio Mortis no Café Filosófico de dia 25.
Café Filosófico: Serenidade na Finitude | Club Farense | 25 Fevereiro 2026
Português: 21:00 – 22.30 | 5€
Inglês: 5:00 pm to 6:30 pm | 10€
Inscrições | To book: [email protected]
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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