É provável que muitos de nós estejamos a iniciar este novo ano de 2026 com uma sensação de ansiedade, medo e talvez até mesmo desesperança em relação ao futuro. Não há dúvida que a humanidade está a enfrentar uma gama assustadora de desafios complexos: alterações climáticas, polarização política, aumento dos conflitos geopolíticos com prejuízo da saúde mental.
Mesmo a uma escala individual é raro o caso de se encontrar alguém adulto que não tenha já recorrido a algum tipo de ansiolítico ou anti-depressivo, para lidar com as vicissitudes da vida: desalento, stress, ansiedade, etc.
Paralelamente os pseudo-gurus e as pseudo-terapias, para todos os gostos e potenciais carteiras, pululam!

Doutorada em Filosofia Contemporânea, investigadora da Universidade Nova de Lisboa
A filosofia era entendida na Antiguidade como uma arte de viver — isto é, um modo de existência que implica o indivíduo por completo, e não apenas o seu intelecto
Ora se, por um lado, ficar afectado pelo actual estado de coisas revela que se tem consciência da gravidade dos problemas que nos assolam, por outro lado, o ser humano, desde que existe, sempre teve de enfrentar grandes desafios. Naturalmente, desenvolveu e testou modos de com eles lidar. Que é feito deste manancial de conhecimento que herdámos e, no entanto, desconhecemos?
O filósofo francês Pierre Hadot (1922-2010) na sua obra La Philosophie comme manière de vivre recorda-nos esta herança trazendo à colação as Escolas Filosóficas da Grécia Antiga. Como Hadot enfatiza, cada escola é um modo de vida que se baseia em exercícios específicos e não apenas em ideias teóricas. Estes exercícios não são nem religiosos, nem qualquer coisa que se assemelhe a uma auto-ajuda new age. São práticas que fazem parte da nossa herança ocidental, pois, no mundo helénico, o estudo filosófico era inseparável da transformação ética e espiritual.
No capítulo “Exercícios Espirituais” da referida obra Hadot insiste em que a filosofia antiga não é apenas um conjunto de teorias, mas uma prática de vida cujo objetivo é transformar quem a pratica. Assim, a filosofia era entendida na Antiguidade como uma arte de viver — isto é, um modo de existência que implica o indivíduo por completo, e não apenas o seu intelecto.
Em que consistem, então, estes exercícios filosóficos? São práticas bem estabelecidas que, há medida que vão sendo repetidas, visam transformar o indivíduo, cultivando uma nova forma de se perceber a si mesmo e ao mundo. Não são invectivas teóricas, nem actos religiosos, são ações concretas que moldam o modo de ser e de viver. Envolvem toda a vida interior do sujeito: os seus julgamentos, emoções, imaginação, atenção e percepção de si. Constituem uma filosofia em acção.
Existem objectivos que são transversais às diferentes escolas e que se poderiam sintetizar do seguinte modo:
1. Adquirir uma visão ajustada do mundo e de si próprio — romper com visões não examinadas da vida
2. Cultivar a liberdade interior e a serenidade — libertar-se de paixões e de preocupações não essenciais
3. Viver com mais autenticidade, atenção e presença — concentrar-se no que realmente importa
O leitor dirá “sim, tudo isso é muito bonito e gostaria de atingir esses objectivos, mas, como fazer?”
Permita-me que faça aqui um flash back pessoal. Fui educada na religião católica e, quando criança, ia regularmente à missa ao domingo. Lembro-me de ouvir vezes sem conta que devíamos “amar-nos uns aos outros como Deus nos amou” e que devíamos “tratar o próximo como nosso irmão”. Ora com seis anos de idade eu morria de medo da imagem de Cristo pregado na cruz a escorrer sangue, e sofria horrores a pensar que para ser boa ia ter de deixar que me submetessem a tal tortura. Também tinha uma grande dificuldade em achar Deus-Pai um bom pai, quando não tinha protegido o seu filho da brutalidade humana e, ao invés, o enviava para “expiar os nossos pecados”. Sentia-me esmagada pelo Acto Penitencial e enquanto batia no peito dizendo em coro com os demais fiéis “por minha culpa, minha tão grande culpa”, uma réstia de mim — talvez o instinto de auto-preservação — rezava também para que os meus pais nunca se tornassem muito bons pais e, ao contrário do que tinha feito o grande Deus, me protegessem e nunca me sacrificassem para salvar quem quer que fosse. Por outro lado, tendo um irmão e uma irmã mais novos, que adorava, constituía para mim uma total impossibilidade amar outro ser tanto como amava os meus irmãos. À saída da igreja via um mar de gente que não conhecia e perguntava-me “como é que eu me ponho a gostar destas pessoas todas como gosto dos meus irmãos?”. O objectivo era enaltecedor, sem dúvida, mas nunca ninguém me explicou como lá chegar.
Pelo contrário, as Escolas Filosóficas da Antiguidade possuem exercícios filosóficos muito concretos para alcançar os objectivos que propõem.
Assim sendo, proponho que ao longo deste ano de 2026, tomemos contacto com algumas destas escolas indo redescobrir os exercícios filosóficos que se criaram para fazer face às adversidades da vida. De todas elas, aquela de que certamente todos já ouviram falar é a da filosofia Estóica. O Estoicismo surgiu em Atenas, com Zenão de Cítio, no séc. IV a.C. tendo-se desenvolvido ao longo do período helenístico e também romano. Neste destacaram-se figuras como Séneca, no séc. I, que foi preceptor de Nero e, mais tarde, seu conselheiro. Por sua vez, o imperador Marco Aurélio, já no séc. II, ficou conhecido como imperador-filósofo pois foi um grande estudioso de filosofia e seguidor do estoicismo como demonstra na sua obra Meditações onde se compilam uma série de exercícios para seu próprio aperfeiçoamento.
Para os Estóicos a virtude era o bem supremo. Consideravam quatro virtudes cardeais: sabedoria; justiça; coragem; temperança. Todas elas se veriam fortalecidas através do treino filosófico diário: askesis — um caminho de transformação pessoal através da prática disciplinada para alcançar a excelência de caráter e a sabedoria, tanto no âmbito físico como ético e espiritual.
Acreditavam na ordem racional do Cosmos. Haveria que alinhar a percepção e a vontade individual com este logos da realidade. O sábio não luta contra o que acontece, aceita as suas circunstâncias e tira o melhor partido delas. Dito estoicamente: a liberdade não consiste em mudar o destino, mas em desejar aquilo que acontece — amor fati.
Consideravam também muito importante saber distinguir o que depende de nós do que não depende de nós. Afirmavam que o sofrimento surge quando confundimos estas duas esferas.
Last but not least, haveria que aprender a lidar com as emoções: são inevitáveis, mas o nosso juízo e as nossas acções não dependem inteiramente delas.
“Tudo isto está muito bem”, dirá o leitor, “mas como fazer?” Justamente, proponho que pratiquemos askesis neste primeiro Café Filosófico do ano. Vamos realizar exercícios estóicos e treinar assim a nossa mente rumo a uma existência plena e feliz.
Parece-lhe bem? É só inscrever-se!
Café Filosófico: Arte de Viver | 21 Janeiro 2026 | Clube Farense
Das 21:00 às 22:30 em Português: Contribuição: 5€
Inscrições: [email protected]
Café Philo: The Art of Living | 21st January 2026 | Clube Farense
From 5:00 pm to 6:30 pm in English | Contribution: 10€
Registration: [email protected]
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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