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Carlos Ruiz Zafón (1964-2020) é um dos autores mais lidos e reconhecidos em todo o mundo Crédito: Marc Driessen
Cultura.Sul, Edição Papel, Opinião

Redescobrir dois clássicos contemporâneos: A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón e Nunca me deixes, de Kazuo Ishiguro | Por Paulo Serra

LETRAS & LEITURAS: Artigo de Paulo Serra publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de maio

07:30 8 Maio, 2026 08:00 8 Maio, 2026 | Cristina Mendonça
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Para a edição deste mês do Cultura.Sul, debruço-me sobre duas reedições de duas obras e dois autores que muito aprecio.

A Sombra do Vento, publicado em 2001, foi o primeiro romance de Carlos Ruiz Zafón a ser traduzido entre nós, tendo-se tornado num êxito de vendas. O autor nasceu em Barcelona, em 1964, e tornou-se num dos autores mais lidos em todo o mundo, traduzido em mais de quarenta línguas.

Em 2026, celebram-se 25 anos da publicação de A Sombra do Vento, a obra maior de Carlos Ruiz Zafón e um dos romances mais marcantes da literatura contemporânea, que o tornou um fenómeno editorial mundial, e muito possivelmente o autor espanhol mais lido em todo o mundo depois de Cervantes. Para assinalar esta data tão especial, a Planeta de Livros publicou agora uma lindíssima edição comemorativa, limitada, com capa nova e páginas pintadas.

PAULO SERRA
Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)

Um convite irrecusável para que professores e pais voltem a este livro da sua juventude e o partilhem com as gerações mais jovens, levando-os a atravessar pela primeira vez o limiar do Cemitério dos Livros Esquecidos e a ser apresentados a personagens inesquecíveis como Daniel Sempere e Julián Carax.

Como se pode ler no comunicado da Planeta:

«Carlos Ruiz Zafón era um apaixonado por livros, música e dragões. Nascido em Barcelona em 1964, aos vinte e oito anos foi viver para Los Angeles, perseguindo o sonho de se tornar escritor. Desafiando o estabelecido, forjou um estilo pessoal que cativou milhões de leitores e a crítica inter­nacional. Quando a morte o alcançou prematuramente, em 2020, tinha-se tornado o escritor espanhol mais lido em todo o mundo depois de Miguel de Cervantes, com as suas obras traduzidas para mais de 50 idiomas.

Com uma imaginação única e um estilo reconhecível ao instante, escreveu nove obras que misturam mistério, aventura e emoção. E conseguiu algo que só está ao alcance dos génios: criar um lugar impossível de esquecer, O Cemitério dos Livros Esquecidos, onde os livros têm destino e os segre­dos envolvem as personagens.»

A Sombra do Vento, o primeiro romance de Zafón para adultos, rapidamente se transformou num fenómeno literário internacional

A história começa de forma envolvente, situada na cidade de Barcelona, no ano de 1945, num ambiente de cinza, como o próprio título evoca, ou não estivesse o país a reemergir dos horrores da guerra civil. Acompanhamos o percurso de um rapazinho, Daniel Sempere, ainda a sofrer com a perda da mãe, e que quando faz o seu décimo aniversário recebe um presente que determinará toda a sua vida. Filho de um livreiro, Daniel é levado pelo pai a um sítio especial que poucos conhecem, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Neste espaço dissimulado entre tantos outros edifícios e guardado por um porteiro sem idade, Daniel percorre uma biblioteca labiríntica onde estão todos os livros outrora publicados e que se encontram agora esquecidos. Nesse ambiente de pós-guerra, e considerando as pilhas de livros queimados pelo regime nazi na Segunda Guerra, não deixa de ser pertinente que a missão de Daniel seja escolher um livro, livro esse que tal como o seu autor, foi tragado pelo esquecimento, tendo-se tornado perfeitamente desconhecido com o tempo. O papel de Daniel é zelar por esse mesmo livro que escolheu e que doravante lhe é confiado, sendo que é ao ler esse mesmo livro que Daniel lhe pode insuflar nova vida, como todos nós leitores. Sem querer fugir ao assunto em mãos, podiam tecer-se inúmeras considerações em torno desta trama, como, por exemplo, deixar-nos a imaginar qual o tamanho real de uma biblioteca que pudesse albergar todos os livros escritos ao longo da história da humanidade. Ou até mesmo a extensão de um corredor onde pudessem estar perfilados nas estantes todos os livros que fomos lendo ao longo de uma vida. E quantos deles ficaram irrevogavelmente esquecidos, ou pelo menos com certos pormenores desbotados, como um retrato a sépia, pois a nossa memória tem limites, da mesma forma que cada vez mais haverá livros a serem irremediavelmente relegados para o esquecimento, enquanto nos debatemos com dezenas (ou mesmo mais) de novidades literárias que todos os meses chegam aos escaparates das livrarias. Daniel Sempere, dizíamos, escolhe um pequeno livro justamente intitulado A Sombra do Vento, de um autor espanhol chamado Julián Carax. Essa escolha traçará toda a sua vida a partir desse momento, não só pela história que irá descobrir nas páginas do livro, e que o fará remontar a acontecimentos ocorridos duas décadas antes, como pela obsessiva busca e procura de sentido quanto ao que terá acontecido a esse “obscuro” Julián Carax. Daniel será absorvido pelo mistério desse autor que foi supostamente morto em Barcelona, logo no início da guerra civil, e cujas obras desapareceram por completo da face da terra, a não ser pelo livro que ele resgatou do Cemitério, talvez o único que se salvou de ter sido queimado como todos os outros por uma estranha personagem, que se faz passar por Carax, e terá adquirido todos os exemplares do romance que pôde para os queimar. O jovem Daniel deixa de viver a sua própria vida, enquanto tenta reconstruir o quebra-cabeças da vida do autor, juntando episódios que lhe são relatados por diversas pessoas que terão feito parte da vida de Julián Carax. Mas é ao reconstruir a vida de Carax, que Sempere consegue também criar a sua própria identidade, e, naturalmente, apaixonar-se.

Uma personagem inesquecível, pelo seu carácter cómico, é Fermín, um funcionário da livraria do pai de Daniel, que esconde um passado enquanto agente republicano, depois perseguido e torturado, e reduzido à mendicidade. Fermín tem qualquer coisa de Sancho Pança, na forma como ajuda Daniel e como disserta acerca da vida, do amor e das mulheres, sendo tão especial ao ponto de regressar como o protagonista de O Prisioneiro do Céu.

Infelizmente, em A Sombra do Vento, bem como em quase todas as obras de Zafón, um início arrebatador, original e envolvente parece depois resvalar numa série de lugares comuns – O Prisioneiro do Céu, com a sua história de vingança, afigura-se bastante a uma recriação de O Conde de Monte Cristo. Com O Jogo do Anjo, segundo livro do autor a ser publicado, em 2008, regressamos ao universo de «O Cemitério dos Livros Esquecidos», constituindo-se assim um tríptico, embora o ambiente seja bastante mais negro, como compete aliás, para se recontar de forma eficaz a história de um autor, David Martín, que parece vender a alma ao Diabo (clara alusão ao mito de Fausto) quando aceita uma lucrativa comissão de um misterioso editor parisiense, que representa as Éditions de la Lumière. Logo no parágrafo de abertura deste romance, David Martín constata como todo o escritor incorre numa espiral descendente a partir do momento em que recebe algum pagamento pelo seu trabalho ou algum elogio ou aclamação da crítica: desse momento em diante, o autor está condenado e a sua alma tem um preço…

Como tende a ser hábito, partiu-se dos últimos livros para a tradução dos anteriores livros do autor. O autor iniciou a sua carreira literária em 1993 com O Príncipe da Neblina, O Palácio da Meia-Noite, As Luzes de Setembro e Marina. A tradução destes romances seguiu o ritmo de um livro por ano, sendo que, em Espanha, os primeiros três livros foram publicados num volume conjunto, pois têm em comum o facto de serem thrillers “antiquados” (remontam à primeira metade do séc. XX) e imbuídos de uma aura de sobrenatural e horror.

As Luzes de Setembro é outro livro do autor de leitura compulsiva, narrando um episódio que afetará a vida de uma família empobrecida e convidada a viver numa gigantesca mansão de um fabricante de brinquedos e autómatos (motivos que ressurgem em Marina). Uma leitura ideal para as férias de verão, mesmo quando se arrasta um pouco. É inegável que os livros de Zafón se leem de um fôlego, mas a sensação de promessa com que muitas vezes começamos acaba por se desvanecer.

Nuno Júdice ressalva, no seu livro ABC da Crítica, a discussão que se tem gerado em torno de autores como Zafón cuja obra será «extraordinária» e deveria entrar no «cânone da literatura actual». Por fim, cita Germán Gullón que afirma estar perfeitamente de acordo com essa opinião generalizada e remata: «Acontece ser uma excelente obra que merece entrar no cânone da literatura de entretenimento.».

Marina é, nas palavras do autor, o livro que mais gostou de escrever

Em 2024 a Planeta lançou igualmente uma edição comemorativa dos 25 anos de publicação de Marina. Com ilustrações a cores e nova capa, Marina é, nas palavras do próprio autor, o livro que mais gostou de escrever e precede A Sombra do Vento. Marina foi o primeiro romance a ser traduzido e embora não seja considerado como parte integrante dessa trilogia (cujas histórias são, aliás, completamente independentes) é um romance que facilmente se enquadraria na mesma. São livros que se poderiam dizer de formação do autor, além de serem romances juvenis, até porque na sua escrita, nomeadamente nos livros da chamada Trilogia, o ambiente é mais cinematográfico do que literário, como o próprio autor salvaguarda na sua nota introdutória.

Carlos Ruiz Zafón (1964-2020) é um dos autores mais lidos e reconhecidos em todo o mundo. Iniciou a sua carreira literária em 1993 com O Príncipe da Neblina (Prémio Edebé), a que se seguem O Palácio da Meia-Noite, As Luzes de Setembro e Marina. Em 2001 é publicado o seu primeiro romance para adultos, A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num fenómeno literário internacional. Com O Jogo do Anjo (2008) – um livro mais negro – regressa ao universo de o Cemitério dos Livros Esquecidos que continua em O Prisioneiro do Céu (2012) e que finaliza a tetralogia com O Labirinto dos Espíritos em 2016.

As suas obras foram traduzidas em mais de cinquenta línguas e conquistaram numerosos prémios e milhões de leitores nos cinco continentes.

Nunca me deixes, Kazuo Ishiguro

Nunca me deixes, do autor Kazuo Ishiguro, Prémio Nobel de Literatura em 2017, cuja obra está publicada pela Gradiva, e tem sido agora relançada com belíssimas novas capas (a primeira foi Klara e o Sol, já aqui apresentada, e prestes a chegar ao cinema).

Considerado um dos melhores livros do autor, corre o risco de ser tomado como um livro enganosamente simples. Como a obra celebra agora 20 anos, a Gradiva lança uma edição de aniversário que chegou às livrarias dia 5 de maio com nova introdução do Prémio Nobel da Literatura.

Kazuo Ishiguro venceu o Prémio Nobel da Literatura de 2017. Crédito: Jane Brown

Nomeado para o Man Booker Prize, o Arthur C. Clarke Award e o National Book Critics Circle Award, e já adaptado ao grande ecrã, Nunca Me Deixes foi considerado um dos dez melhores livros do século XXI pelo The New York Times.

Margaret Atwood deixa a seguinte nota: «Um livro brilhantemente executado por um mestre artesão que escolheu um tema complexo: nós próprios a observarmo-nos através de um vidro, às escuras.»

Apesar de numa página introdutória, o autor situar a acção em «Inglaterra, finais da década de 90», este romance tem sido considerado como uma distopia, próxima da ficção científica.

A história está dividida em três partes: a infância de Kathy, Ruth e Tommy em Hailsham, um colégio interno na província inglesa, isolado do mundo; a adolescência ou início da idade adulta, na Herdade, aquilo que resta de uma quinta falida, com uma casa rural, e em redor palheiros, arrecadações e estábulos; a idade adulta, em que Kathy deixa a Herdade para trabalhar no mundo exterior como cuidadora.

Sem querer desvendar muito da intriga, pois o livro só ganha no mistério que vamos desvendando gradualmente e sempre de forma subtil, Nunca me deixes pode ser lido como uma alegoria sobre a vida e o amor.

Hailsham, como cenário idílico, relembra outros colégios internos sobre os quais lemos noutras obras de autores ingleses, como se toda a primeira parte do livro simbolizasse o decorrer do século XX. Os jovens aprendem como numa escola, leem e debatem filosofia, mas é a arte e a criatividade que desempenha o principal papel. O único momento em que esta rotina parece ganhar vida é quando se dão as Vendas, em que os jovens reúnem todas as fichas que conseguiram juntar para trocar por objetos que, vistas bem as coisas, são perfeitamente inúteis, mas que guardam como relíquias e que parecem dar cor à sua vida. Uma crítica a uma sociedade consumista que se foi impondo no decorrer do século XX? Uma reflexão sobre a importância da arte da beleza, nem que seja nalgum objeto estético que criamos ou adquirimos com desvelo?

Nunca me deixes, já adaptado ao cinema, é considerado um dos melhores romances do autor

Quando chegam à Herdade, Kathy (a narradora do livro, num registo discursivo na primeira pessoa que reforça a nossa afinidade com a personagem) reflete acerca da tese que deve fazer, uma vez que saiu de Hailsham e está em fase transitória para ingressar no mundo exterior, contudo nunca faz a tese que aliás não é propriamente considerada um imperativo. Ao sair da Herdade, uma vez que o confronto entre Kathy e Ruth é inevitável, dispersam-se definitivamente as amizades criadas desde a infância e Kathy, agora com 30 anos, conhece o mundo do qual viveu protegida (ou melhor dizendo escondida), e enquanto aguarda que se cumpra o único propósito pelo qual nasceu (ou foi criada), como dadora, desempenha exemplarmente as funções de curadora, auxiliando outros dadores. Em suma, conhece uma vida feita de abnegação, trabalho, sofrimento e solidão, quando cresceu sempre rodeada de colegas e professores. Fica, no final, um travo melancólico de um amor, e de uma amizade, que quase se perdia em absoluto por causa do ciúme e da inveja.

O livro foi adaptado ao cinema em 2010, pelo realizador Mark Romanek, com interpretação de Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley.

«”Never Let Me Go” é o nome de uma canção popularizada nos anos 50 por Nat King Cole (escrita por Ray Evans e Jay Livingston). Não estava familiarizado com ela quando escrevi o romance. Vi por acaso o título escrito na capa de um álbum de jazz – Alone do pianista Bill Evans – e senti-me imediatamente atraído por ele.

Além da sua elegância despretensiosa, o que me impressionou neste título foi a absoluta impossibilidade do que estava a ser pedido. “Por favor, abraça‑me durante muito tempo” seria razoável. Mas se alguém pede “Nunca me deixes”, não só está a pedir o impossível, como deve saber, mesmo no preciso momento em que está a fazer esse pedido, que pede algo que está para lá do alcance de qualquer um. Foi por isso que achei estas palavras tão comoventes – e que quis colocar a sua pungência no coração do meu romance. Porque há alturas em que nós, seres humanos, desejamos, do fundo das nossas almas, algo que sabemos estar para lá do alcance de qualquer pessoa. Ao longo dos anos, percebi que é neste território – esta terra de ninguém entre o que ansiamos desesperadamente e o que sabemos serem os limites do possível – que mais gosto de trabalhar como escritor.» (Segundo Kazuo Ishiguro, na Introdução desta nova edição)

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasáqui, no Japão, em 1954, e vive na Grã-Bretanha desde os cinco anos. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 2017 e a sua obra está traduzida em mais de cinquenta línguas. Entre as outras distinções que reconhecem o seu mérito literário contam-se o grau de Oficial da Ordem do Império Britânico e a condecoração francesa como Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.

Kazuo Ishiguro dedica-se ainda esporadicamente à escrita de argumentos para cinema. O argumento que escreveu para o filme Living valeu-lhe, em 2023, nomeações para os Óscares e para os Prémios BAFTA. Estão previstas para 2026 adaptações cinematográficas dos romances Klara e o Sol e As Pálidas Colinas de Nagasáqui. A sua obra é editada em Portugal pela Gradiva.

Leia também: Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro: um acto de preservação da humanidade pela ficção | Por Paulo Serra

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