O ‘rapper’ português DEAU assinala este mês duas datas simbólicas da carreira 20 anos de palcos e 10 anos do álbum “Livro Aberto” num momento em que o seu novo trabalho de originais, “De[Au] – De Dor e De Ouro”, foi gravado no Algarve e começa a ser revelado ao público.
Em entrevista à agência Lusa, DEAU explicou que o concerto marcado para 13 de dezembro, no Hard Club, no Porto, será uma viagem pelo percurso que o trouxe até aqui. “Estou a preparar algo que demonstre a narrativa do percurso que fiz até aqui, e com aquilo que senti que as pessoas me transmitiam ao longo destes anos”, referiu o músico, que hoje reparte o tempo entre a música, o trabalho numa empresa de vinhos e projetos de inclusão social.

O alinhamento do espetáculo vai percorrer os vários álbuns editados, as ‘mixtapes’ e temas que marcaram diferentes fases do trajeto. “Estou a criar uma espécie de narrativa que vai até ao sítio onde me encontro, porque tenho muito orgulho nesse percurso”, disse.
Álbum gravado no Algarve marca nova fase
O sucessor de “Cabeça a Prémio”, lançado em 2021, chama-se “De[Au] – De Dor e De Ouro” e foi gravado no Algarve, região que acolheu o processo criativo deste novo capítulo. Os instrumentais são da autoria de Sickonce, também conhecido como DJ GIjoe.
“O disco vai-se montando faseadamente e terá quatro momentos, cada um com quatro músicas [o primeiro momento aconteceu em setembro]. É um conjunto de músicas que significa uma espécie de metamorfose entre elas, que era também uma temática abordada no ‘Livro Aberto’. Apesar de se chamar ‘Livro Aberto’ há muitos capítulos que não fechei e sinto que estou a fechar agora”, contou.
A parte gráfica do projeto, que inclui quatro azulejos revelados em cada fase, foi confiada à ‘designer’ e ilustradora Min, responsável também pela capa de “Livro Aberto”.
Para DEAU, esta etapa está artisticamente definida: “Este disco está fechado para mim. Durante o próximo ano, e se calhar pode alastrar-se mais tempo, estará todo disponível. Mas não sinto que tenha de ser fechado, não estou com essa necessidade. Fiz 20 e tal músicas e há 16 que significam estes quatro momentos”.
O número quatro não é arbitrário. “Tem muito significado para mim o 4, porque o código postal de Gaia é 4400. E é um símbolo que defendo desde o primeiro dia”, explicou.
Das sessões de Gaia ao reconhecimento nacional
Nascido no Porto em 1988 e residente em Vila Nova de Gaia, mais precisamente no Candal, DEAU (Daniel Francisco) iniciou o percurso em 2005 nas “Nova Gaia Hip-Hop Sessions”, festas que aconteciam no Hard Club, quando a sala ainda estava instalada em Gaia. Com apenas 14 anos, entrou pela primeira vez no Hard Club e fez um compromisso íntimo: um dia subiria ao palco daquela casa. “Um dia atuaria ali”, prometeu a si próprio.
Em 22 de outubro de 2005, cumpriu o objetivo, ao lado dos amigos Tacto Nato, Auge, Mash, Tostaz e Américo, num coletivo criado numas férias de verão. “Lembro-me de ser muito especial, de ter a sorte de termos muitos amigos à frente.
Lembro-me de a casa estar cheia, esgotada”, recordou. “Subir ao palco do Hard Club” era, nessa altura, a meta máxima: “não almejava mais para além disso”.
Entre as primeiras influências estavam nomes como Mind Da Gap, Dealema, Berna, Sam The Kid e Valete. As letras de Berna, próximas das vivências do jovem Daniel, deram-lhe “autorização” para começar a escrever.
“Comecei a escrever por gostar do que a música despertava em mim, por gostar de sentir que aquilo que escrevia era importante para os meus amigos e para as pessoas que estavam à minha volta. As reações deles ao que eu escrevia determinavam que continuasse e justificava o que estava a fazer”, partilhou. Sem acesso a estúdios, as primeiras músicas “viviam nos blocos e na memória” dos amigos, para quem as cantava. “Adorava dar improvisos e isso foi marcando nome na rua. De escola para escola, grupos de amigos, nas festas, foi-se tornando mais comum”, contou.
Valete, “Lamento” e o impulso para o primeiro disco
Um dos momentos de viragem aconteceu em 2008, com a divulgação de “Lamento”, a primeira faixa gravada já como DEAU. “Nessa altura o Valete reconheceu o meu trabalho. Isso foi um marco enorme para mim. Era quase uma validação de um nome sonante. E mostrou-me que eu posso estar a trabalhar, entre aspas, no ‘cu de judas’ e se calhar o meu ídolo pode estar atento àquilo que estou a fazer”, partilhou.
A partir daí surgiram convites para participar em temas de outros ‘rappers’ e a organização de noites com Capicua, M7 (hoje Beatriz Gosta), Jimmy P (então Supremo G), JêPê e João Pequeno, em que cada um apresentava os seus temas.
O reconhecimento deu-lhe força para pensar num álbum. Sempre a estudar e a trabalhar – no Teatro Nacional São João durante o período de aulas e na construção civil em França nas férias –, começou a juntar dinheiro até conseguir gravar “de maneira confortável” o primeiro disco, em 2012.
“As outras músicas que saíram antes, a anunciar esse disco, e as pessoas apelidaram de EP, não é EP nenhum. Só existe porque não tinha dinheiro para fazer um disco duplo. Essas músicas faziam parte do disco, só não cabiam lá”, explicou, sobre “Retiessências”. Com esse álbum, percebeu “que era possível”: “Que mesmo sendo independente, como sempre fui, conseguia fazer as minhas coisas”.
“Livro Aberto” e a década que mudou tudo
O segundo álbum, “Livro Aberto” (2015), que agora assinala dez anos, é para DEAU um marco ambivalente. “Foi uma fase muito difícil, por causa de questões pessoais, mas é um disco que, aos olhos do mercado, foi o que me deu mais sucesso. Também foi um disco que senti que ficou em parte aquém do que eu gostaria que tivesse sido, mas ao mesmo tempo é um disco do qual me orgulho muito, porque tem músicas muito especiais para mim, adoro os videoclips que fizemos com essas músicas”, partilhou.
O terceiro trabalho, “Cabeça a Prémio”, chegou em 2021. Hoje, “De[Au] – De Dor e De Ouro”, gravado no Algarve, retoma muitos desses capítulos por fechar, num formato faseado que o artista vai revelando ao longo de 2025, conciliando a criação musical com outras responsabilidades profissionais.
Durante uma década conseguiu viver apenas da música, mas reconhece que “a covid destruiu muita coisa”, obrigando a reajustar prioridades. Atualmente, trabalha no departamento de qualidade de uma empresa de vinhos e integra o projeto “Vozes da Inclusão”, da Matosinhos Habit, “que promove a escrita criativa, que é depois transformada em música e apresentada num espetáculo, com jovens, e não só, que vivem em Matosinhos”.
Música para a vida inteira
Apesar de fases mais difíceis, DEAU garante que a criação musical não depende de contas feitas ao mercado. “Fazer música vou fazer a vida toda. Isso eu sei. Tanto como sei que enquanto for vivo vou respirar. Enquanto sentir que tenho público, faço isto como sempre fiz, com pés e cabeça e a investir o que tinha e o que não tinha. Quando sentir que já não tenho ouvintes, se calhar aí faço só para mim, e sou feliz na mesma”, afirmou.
Com o novo álbum construído a partir do Algarve e um concerto de celebração marcado para o Hard Club, DEAU entra no 21.º ano de carreira a olhar para trás com orgulho e para a frente com a mesma urgência criativa que o levou, em adolescente, a sonhar com um palco que hoje já faz parte da sua história.
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