Rita Félix encontrou na escrita uma forma de transformar o luto pela filha Beatriz e a experiência das doenças autoimunes numa mensagem de amor e esperança. “Que o amor seja sempre a resposta” é o seu primeiro livro a solo.
Nascida em Lisboa, mas com Tavira como “terra de coração”, a autora fala ao POSTAL sobre as raízes algarvias, o recomeço depois de deixar a profissão e a necessidade de acolher o luto com mais humanidade. E explica o seu “gratiamor”: gratidão e amor a caminharem juntos.
Tavira, as raízes e o recomeço
Postal – Nasceu em Lisboa, mas chama a Tavira a sua “terra de coração” e foi aí conhecida como “Rita Smile”. Que parte da mulher e da autora de hoje foi moldada pelo Algarve?
Rita Félix – Tavira mora em mim de uma forma que é difícil de explicar por palavras. Não é apenas a terra onde vivi momentos importantes da minha infância. É uma parte daquilo que sou. É luz, é raiz, é memória, é o lugar onde o meu coração aprendeu a reconhecer o significado de casa.
Foi ali que me conheceram como “Rita Smile”, um nome que nasceu, talvez, da forma mais genuína que encontrei para chegar aos outros, através do sorriso. E esse sorriso acabou por se tornar muito mais do que uma característica minha. Tornou-se uma forma de estar, de enfrentar a vida e de procurar luz mesmo nos dias mais difíceis.
O Algarve ensinou-me a valorizar a simplicidade, a presença, os afetos e a beleza das coisas que tantas vezes parecem pequenas, mas que acabam por ser as maiores. Ensinou-me que não precisamos de muito para sermos felizes, precisamos de pessoas, de amor, de memórias e de um lugar onde possamos ser verdadeiramente nós.
E talvez seja também por isso que a mulher e a autora que sou hoje nasceram, em parte, ali. Naquela luz, naquela tranquilidade, naquela forma tão algarvia de sentir a vida. O Algarve deu-me raízes, mas também me ensinou a olhar para o horizonte.
Hoje, quando escrevo sobre a vida, sobre a dor, sobre a esperança e sobre o amor, percebo que há sempre um pouco de Tavira dentro das minhas palavras. Porque podemos sair da nossa terra, mas há terras que nunca saem de dentro de nós. E Tavira será sempre uma dessas partes de mim que o tempo nunca conseguirá levar.

Hoje, quando escrevo sobre a vida, sobre a dor, sobre a esperança e sobre o amor, percebo que há sempre um pouco de Tavira dentro das minhas palavras
Depois de anos na cosmética capilar, as doenças autoimunes obrigaram-na a mudar de rumo. O que teve de deixar para trás — e preservar — para chegar, aos 44 anos, ao primeiro livro a solo?
Tive de deixar para trás uma vida que eu conhecia muito bem. Uma profissão que amava, um ritmo, uma identidade que durante anos achei que seria para sempre. As doenças obrigaram-me a parar e a perceber que continuar da mesma forma já não era possível.
Mas preservei o mais importante, a vontade de comunicar, de tocar pessoas, de abraçar, de aprender e de transformar. Aos 44 anos, este livro nasceu quando deixei de olhar para a mudança como uma perda e comecei a vê-la como um renascimento. Percebi que não estava a começar do zero. Estava a começar de mim, para uma nova Rita.
Beatriz e o acolhimento do luto
Beatriz é apresentada como a razão do livro, que expõe o luto, a doença e momentos familiares íntimos. Como decidiu o que podia partilhar e o que devia continuar a pertencer apenas à família?
A Beatriz é a alma deste livro. Escrevi para honrar a sua existência e para transformar uma dor que quase me destruiu numa forma de amor que pudesse chegar a outras pessoas.
Ao escrever, perguntei muitas vezes a mim própria: “Isto pode ajudar alguém?” Se a resposta fosse sim, sentia que aquela partilha tinha um sentido maior. Mas nem tudo precisa de ser contado. Há memórias que são sagradas demais para saírem de casa. Há coisas que pertencem apenas a nós, à nossa família, ao nosso amor pela nossa Beatriz. E também nisso existe amor, saber guardar com muito respeito o que aconteceu.

Quando uma mãe perde um filho, mesmo ainda dentro do ventre, não está apenas a viver uma situação médica. Está a perder um futuro inteiro que já tinha começado dentro dela
No capítulo “Hospital da Dor e do Pânico”, descreve um acompanhamento psicológico que agravou a sua dor. Que mudança considera mais urgente na forma como hospitais e profissionais acolhem o luto gestacional?
Humanidade e empatia. Para mim, seriam essas palavras. Quando uma mãe perde um filho, mesmo ainda dentro do ventre, não está apenas a viver uma situação médica. Está a perder um futuro inteiro que já tinha começado dentro dela. Eu senti falta de colo, de escuta, de alguém que simplesmente me perguntasse “O que precisa agora?”
Precisamos de profissionais preparados não só tecnicamente, mas emocionalmente. O luto gestacional precisa de tempo, respeito, acompanhamento e palavras cuidadas. A psicologia pode ser uma ajuda extraordinária, mas só quando existe empatia e segurança.
Uma palavra pode ajudar alguém a respirar. Outras vezes, pode ferir ainda mais.
Perdão, esperança e “gratiamor”
Escreve que “amar não é ceder” e que implica dizer não e estabelecer limites. Perante abuso, injustiça ou violência, como distingue o perdão interior da necessidade de afastamento e responsabilização?
Para mim, amar não é ceder. É também saber dizer não, estabelecer limites e ter coragem de nos afastarmos quando é preciso. Mas acredito profundamente no perdão.
Perdoar é libertarmo-nos. É aceitar que aquilo aconteceu, retirar a aprendizagem e deixar de carregar o peso, a raiva e a mágoa. Não significa esquecer nem dizer que estava certo. Significa escolher não viver preso ao que nos feriu.
Acredito que todas as pessoas que passam pela nossa vida nos deixam alguma coisa. Quando partimos, levamos um pouco do outro, mas também deixamos um pouco de nós. E, no fundo, essa troca também é aprendizagem.
Perdoar é isso, agradecer o que aprendemos, libertar o que nos pesa e continuar o caminho levando connosco apenas aquilo que nos fez crescer.

Em várias passagens, associa pensamentos, visualização, gratidão e “vibração” à saúde, embora reconheça o papel da medicina. Onde coloca a fronteira entre experiência pessoal, crença espiritual e evidência clínica, sem culpabilizar quem continua doente?
Eu escrevo a partir do que vivi. A visualização, a gratidão e a meditação ajudaram-me a enfrentar a doença e a dor de outra forma.
Nunca diria a alguém que está doente: “Porque é que não pensa positivo ou porque é que não tem fé suficiente?” Isso seria injusto e cruel.
Além disso, a medicina e o acompanhamento médico têm, para mim, um papel fundamental.
Aquilo que procuro transmitir é sobretudo uma mensagem de esperança e de amor a quem sofre. Se a minha experiência puder dar um pouco de força, conforto ou luz a alguém num momento difícil, então já terá valido a pena.
Não acredito em fórmulas mágicas para a doença. Acredito, sim, que ninguém deve atravessar o sofrimento sem esperança, sem amor e sem sentir que não está sozinho.

Daqui a cinco anos, que transformação concreta gostaria de ter provocado, a partir de Tavira ou do Algarve, para poder dizer que o seu “gratiamor” passou das páginas à vida dos outros?
Gostava muito que, daqui a cinco anos, o “gratiamor” deixasse de ser apenas uma palavra minha e passasse a ser uma forma de estar na vida de muitas pessoas. Para mim, é isso mesmo, gratidão e amor a caminharem juntos.
Gostava que esta mensagem chegasse a hospitais, escolas, lares, associações, famílias em luto, pessoas doentes ou simplesmente a alguém que, num determinado momento, se sentisse sozinho. E gostava muito de poder levar esta mensagem também através das minhas palestras e das minhas apresentações, olhando as pessoas nos olhos e partilhando não apenas o que está escrito no livro, mas aquilo que a vida me ensinou.
Não preciso que seja algo gigantesco. Se uma mãe se sentir mais acolhida, se alguém encontrar coragem para não desistir, se uma pessoa aprender a comunicar com mais amor ou fizer um pequeno gesto de bondade por ter ouvido esta mensagem, então já terá valido a pena.
Porque é nisso que acredito, o amor verdadeiro não precisa de fazer barulho. Precisa de tocar em alguém.
E se daqui a cinco anos eu souber que o meu “gratiamor” chegou a mais corações e ajudou alguém a acreditar um pouco mais na vida, então sentirei que aquilo que começou nas páginas conseguiu, finalmente, ganhar vida.

Rita Félix transforma o luto em escrita, com Tavira no coração
Com uma forte ligação a Tavira, Rita Félix conta como a doença e a perda da filha a levaram à escrita e a uma nova missão de apoio a outras pessoas.
Rita Félix encontrou na escrita uma forma de enfrentar o luto pela filha Beatriz e a mudança de vida imposta pelas doenças autoimunes, que a obrigaram a abandonar a profissão de cabeleireira. Com uma forte ligação a Tavira, a autora partilha no primeiro livro a solo, “Que o amor seja sempre a resposta”, uma mensagem de amor e esperança construída a partir da sua experiência.
O percurso foi tema de uma recente entrevista ao programa “Júlia”, da SIC, na qual recordou os primeiros sintomas na adolescência, o afastamento forçado do trabalho e a perda da filha às 30 semanas de gravidez. Falou também do papel que atribui à fé, à escrita e à comunicação na reconstrução da sua vida.
Uma vida com Tavira no coração
Rita Ramos Martins Coimbra Branco Vaz Félix nasceu em Lisboa, a 17 de junho de 1981, e cresceu com uma forte ligação a Tavira, cidade pela qual mantém um profundo afeto. Em 2003, mudou-se para Lisboa, onde consolidou o seu percurso pessoal e profissional.
Formada em comunicação, trabalhou durante anos na indústria da cosmética capilar. Encontrou na área da beleza uma profissão que a realizava, abriu o próprio salão e construiu uma atividade que viria a ser interrompida pela doença.
Os primeiros sinais, porém, tinham surgido muito antes. Na conversa com Júlia Pinheiro, contou que, aos 14 anos, começou a sentir dores inexplicáveis nas pernas, nódoas negras e um cansaço profundo. Sem diagnóstico, aprendeu a esconder o sofrimento: “Foi aí que eu aprendi a silenciar”.
Quando a doença obrigou a parar
Mais tarde, segundo relatou à SIC, recebeu o diagnóstico de lúpus, ao qual se juntaram outras doenças autoimunes. Apesar das dores, das feridas nas mãos e das crises, procurou continuar a trabalhar.
“Dormia enrolada em papel celofane, com cortisona, para que pudesse no dia a seguir ir trabalhar”, recordou na entrevista, ao descrever as dificuldades que enfrentava para manter a atividade profissional.
Contou ainda que uma junta médica lhe atribuiu 71,4% de incapacidade. A impossibilidade de continuar a exercer a profissão que amava foi vivida como uma rutura: naquele momento, sentiu que era “o fim”.
A mudança obrigou-a a procurar outro rumo. A comunicação, área em que se tinha formado, acabaria por ganhar um novo lugar no seu percurso, através da escrita e da partilha pública da sua experiência.
Beatriz e a experiência do luto
Apesar das limitações impostas pela doença, Rita Félix manteve o desejo de voltar a ser mãe, desta vez de uma menina. Depois de quatro perdas gestacionais, engravidou de Beatriz.
Na entrevista à SIC, recordou que, aos sete meses de gravidez, uma ecografia revelou problemas na placenta e uma perda de peso da bebé. Ficou em repouso absoluto, mas, dias depois, deixou de sentir a filha mexer-se. No hospital, ouviu a notícia que temia: “Não temos batimentos cardíacos”.
Beatriz morreu às 30 semanas de gestação. Segundo o seu relato, Rita teve um parto natural depois de cinco dias no hospital.
A experiência do luto passou a ocupar um lugar central no testemunho que hoje partilha com outras mães. “Mãe é sempre mãe desde que vê dois traços de gravidez”, afirmou no programa.
Da escrita ao “gratiamor”
Depois da doença e da perda da filha, Rita Félix redirecionou o seu percurso para o desenvolvimento pessoal, investindo em formação nessa área. Na conversa com Júlia Pinheiro, destacou a importância da escrita e da comunicação nesse processo de recomeço.
Coautora de dois capítulos em obras sobre desenvolvimento pessoal e comunicação, chegou ao primeiro livro a solo aos 44 anos. “Que o amor seja sempre a resposta” dá continuidade à vontade de partilhar o que viveu e de levar uma mensagem de apoio a outras pessoas.
Além da escrita, faz palestras motivacionais, nas quais aborda a experiência das doenças autoimunes e do luto. Apresenta como missão ajudar os outros, guiada pelo amor e pela empatia.
Para traduzir essa forma de estar, escolheu uma palavra: “gratiamor”. Metade gratidão, metade amor — dois conceitos em cujo poder transformador acredita e que procura levar das páginas do livro ao encontro com quem a ouve.
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