É um dos acontecimentos desta rentrée, este muito esperado novo romance de Afonso Reis Cabral, sete anos depois de Pão de Açúcar.
O Último Avô, de Afonso Reis Cabral, é o terceiro romance do autor, vencedor do prémio Leya em 2014. A sua obra está publicada pela Dom Quixote. Um autor que se demarca claramente pelo tempo que leva a maturar a escrita. E valeu a pena a espera.
Depois de O Meu Irmão (Prémio LeYa) e Pão de Açúcar (Prémio Literário José Saramago), este regresso arrebatador do jovem autor confirma-o como uma das vozes maiores da literatura portuguesa contemporânea.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
O autor estará em Faro sábado, dia 22 de novembro, para sessões de apresentação do livro, na Fnac do Fórum Algarve, às 17:00, e na Biblioteca Municipal de Faro, às 14:30.
Afonso Reis Cabral nasceu em 1990. Aos 15 anos publicou o livro de poesia Condensação. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, fez mestrado na mesma área e tem uma pós-graduação em Escrita de Ficção. Foi duas vezes à Alemanha de camião TIR em busca de uma história, a primeira das quais aos 13 anos. Trabalhou numa vacaria, num escritório de turismo e num alfarrabista.
Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance O Meu Irmão. No final de 2018, publicou o seu segundo romance, Pão de Açúcar, com forte acolhimento por parte da crítica e vencedor do Prémio Literário José Saramago – Fundação Círculo de Leitores em 2019. Tem contribuído com dezenas de textos para as mais variadas publicações.

É colunista do Jornal de Notícias, semanalmente com a rubrica «Ansiedade Crónica», e participou nos programas «Biblioteca Pública» e «Cinco à Quinta», da Antena 1.
É presidente da Fundação Eça de Queiroz e trabalha como editor freelancer.
Sinopse: «Quando Augusto Campelo, o mais genial escritor português, queima o manuscrito no qual trabalhou durante anos, deixa para trás um mistério: seria o tão esperado romance sobre a experiência traumática da Guerra Colonial de que tantas vezes falava, mas à qual nunca dedicou um livro?
Subsiste a dúvida: o escritor morre uma semana depois.
Resta por isso ao neto — herdeiro do nome e da memória familiar — a missão de descobrir a verdade e de compreender (ou não) o gesto do avô. Mas essa busca arrasta-o sem querer para um terreno bem mais doloroso, que se prende com a fuga e a morte prematura da mãe, cuja ausência é sublinhada há anos por um quarto trancado na casa do avô.
Atravessando a intimidade de três gerações de uma família marcada por perdas, conflitos e paixões, O Último Avô conta a história da relação entre um escritor tirânico e o seu único neto, entre a herança literária e a vida real.»
E eu ia fazendo a minha vida sem jardins, sem nada que me entretivesse senão as saudades da escrita e da minha mãe, confundindo-as com saudades do meu avô. A decisão de parar de escrever protegia-me dele, dava-me independência, mas foi uma punição sem crime, uma paga demasiado alta pela paz de espírito. Que não era paz coisa nenhuma, já que eu remoía a toda a hora a falta da escrita e me sentia roubado pelo avô.
Além disso, admito, achava impossível escrever longe do avô, ele que me ensinara e orientara e a quem eu estava unido literariamente. Preocupado, esperava que algo se desimpedisse dentro de mim, embora me orgulhasse daquela rebeldia tímida, semelhante à da minha mãe, que, bem vistas as coisas, só me prejudicava a mim. Nada tíbio, o avô até já escrevia o livro da guerra.
E assim estávamos, o meu avô ansioso por me contar o passado, talvez esperando que os episódios da guerra, em todo o caso romanceados pela memória, me enriquecessem o imaginário, me dessem a sensibilidade necessária para ser escritor – talvez achando, vulnerável como só ele podia ser, que se redimia das consequências que as histórias tiveram para a filha.
O Último Avô, de Afonso Reis Cabral
P – É um dos acontecimentos desta rentrée, o muito esperado novo romance de Afonso Reis Cabral, sete anos depois de Pão de Açúcar. Quando pensamos que O Último Avô é o teu terceiro romance é legítimo estranhar isso mesmo? Que seja apenas o terceiro num país onde há quem publique um ou dois livros por ano?
R – Não tenho em mim um romance por ano. Se achasse que tinha, se achasse que conseguia escrever um romance uma vez por ano ao nível dos que já escrevi, ficaria muito contente. Por enquanto, não tenho isso em mim. Ao mesmo tempo, respeito demasiado a literatura para despejar romances, para fazer papel impresso. Por outro lado, o meu temperamento de escrita é de lume brando, não tenho sido torrencial. E é muito difícil contrariar o temperamento, as inseguranças, o bom combate de aceitar que escrevi algo que mereça ser publicado. Isso leva tempo.
P – Esta demora prende-se menos com perfeccionismo do que com inseguranças ou constantes tentativas de melhorar o manuscrito?
R – Com as duas coisas. Como disse, há o problema do temperamento, que eu tento transformar numa qualidade, já que me ajuda a ser cuidadoso e perfeccionista e a trabalhar sempre mais. Acresce a isso que os meus temas são particularmente exigentes, pedem investigação, complexidade de estrutura narrativa e outros que tais. Pedem também simplicidade de escrita, que é paradoxalmente muito difícil de alcançar. No fundo, pedem tempo.

P – Foi difícil manter o silêncio em torno do tema deste novo romance, contrapondo por exemplo com o avô do romance que anuncia constantemente o seu grande livro sobre a guerra colonial?
R – Quando não tenho a certeza de que vou conseguir acabar um livro, prefiro não falar dele publicamente. A prudência exige-o, e até uma certa discrição e pudor. Mas deve ser mais divertido ser Campelo. Dizer grandes frases, chocar, fazer-me de interessante…
P – A metáfora do quarto trancado remete, por um lado para os segredos que existem em todas as famílias, mas também para o silêncio que impera sobre a guerra colonial?
R – Penso que é tanto metáfora quanto resolução de um problema prático. Eu precisava de um sítio que escondesse o luto, um sítio onde estivessem fechados os medos e os traumas do neto, mas também de um sítio onde um suposto manuscrito final talvez estivesse escondido.
P – Quando Augusto Campelo queima o manuscrito no qual trabalhou durante anos, resta ao neto, herdeiro do nome, gerir o legado familiar (casa e memória). Augusto-neto representa, afinal, o peso da História consubstanciada no Augusto-avô?
R – Talvez represente o enorme desconhecimento que as gerações dos filhos e netos de combatentes têm em relação à guerra. É como se fosse um outro mundo, um tempo derradeiramente diferente, uma fronteira difícil de ultrapassar ao encontro de quem amamos. O tema está prestes a tornar-se motivo de romance histórico. Enquanto tal não acontece, pode ser palco de dramas familiar. Dramas, aliás, vividos em tantas famílias por esse país afora, vividos por todos nós enquanto povo.
P – Lídia Jorge afirmou em tempos que a centelha que a levou a escrever Os Memoráveis foi um inquérito realizado a jovens autores portugueses que basicamente afirmavam pouco saber sobre o 25 de Abril. Parece-te ser o caso relativamente à guerra?
R – Sem qualquer dúvida.

P – Parece também claro que neste romance não te arrogas dar a tua perspetiva sobre a guerra colonial, focando-te sobretudo na capacidade de efabular a neblina que circunda o trauma de um passado difícil, que há que desmistificar.
R – Quando muito, quem pode dar essa perspetiva é o narrador, Augusto Campelo Pinto. Mas isso não lhe interessa por ser banal. O que talvez não o seja é o que descreves como a capacidade de efabular a neblina. Gosto dessa imagem.
P – No processo de escrita houve também viagens envolvidas. Como foi essa descoberta e por onde andaste?
R – Achei importante visitar um dos cenários que é pano de fundo. Fui a N’Dalatando, em Angola, onde se passam alguns episódios do meu livro. Foi uma viagem literária, mas sobretudo pessoal, visto que o meu pai foi capitão miliciano nessa cidade. A proximidade com o meu pai, e ter crescido a ouvir falar da guerra, ajudou obviamente a este romance.
“Amor, violência, sexo, tudo isso é uma armadilha sem fim. E eu gosto de cair nela”
P – Neste romance realçaria sobretudo o jogo de espelhos e simetrias que se cria, entre avô e neto, entre pai e filha, entre gerações em conflito. Mas é também um romance (sem querer incorrer em biografismos) que nos fala da construção da família, da descoberta de um amor, do germinar de uma relação, do ser progenitor. Ou seja, embora o jovem Augusto seja também ele um escritor, a certa altura o seu foco é sobretudo a relação amorosa que está a desenvolver…
R – Biografismos à parte, gosto de histórias de amor porque são difíceis de escrever. Amor, violência, sexo, tudo isso é uma armadilha sem fim. E eu gosto de cair nela.

P – Apesar de, em diversas recensões e entrevistas publicadas, se referir que não há relação entre O Meu Irmão e Pão de Açúcar sempre achei que ambas procuram debruçar-se sobre o mal na natureza humana. Tens afirmado que este romance encerra um possível ciclo, como se os três formassem um tríptico…
R – Penso que sim. Talvez lhe chame a trilogia da confissão. Os três romances debruçam-se certamente sobre o mal na natureza humana, como dizes… E partem de um princípio, o da confissão desse mal. Nos três primeiros romances, o narrador confessa ter feito algo a um inocente. Neste, confessa querer fazer algo a um culpado. Pareceu-me mais interessante, agora, procurar o mal nos caminhos do bem. Simultaneamente, todos são escritos na primeira pessoa por isso mesmo: uma confissão é um contar íntimo de si mesmo. E agora confesso eu que me apetece partir para outras coisas. Para uma terceira pessoa mais versátil. Talvez uma novela que escreva de mansinho.
P – Para quando a compilação das tuas crónicas semanais no Jornal de Notícias em livro? E como as manténs vivas e atuais?
R – Já lá vão quase cinco anos de crónicas semanais. Surpreendo-me por ir conseguindo, mas suponho que seja uma pescadinha de rabo na boca: vejo para escrever e escrevo para ver. Ou seja, a crónica educa-me o olhar, a atenção à coisa pública, ao quotidiano, ao que possa caber em dois mil e quinhentos caracteres incluindo espaços…

P – Podes falar-nos, e na sequência dos encontros ocorridos este ano com professores e alunos na Escola Secundária João de Deus, em Faro, do teu processo de escrita? Há uma disciplina ou método diário?
R – Penso que realcei como a escrita planeada pode ser libertadora. Gosto de fazer esquemas, mind-maps, resumos de personagens, rascunhos de cenas, enfim, construir em torno do romance muito mais do que lá está. Ter um plano claro, um esquema em que descrevo cada capítulo em dois ou três parágrafos, ajuda-me a ser livre. Ajuda à inspiração. Nada me dava tanto gosto, a partir de meio de O Último Avô para a frente, do que rasurar no esquema a descrição de cada capítulo. Queria dizer que o tinha acabado e que me encaminhava para o fim…
P – E neste frenesi de apresentações e lançamentos do novo romance, como consegues conciliar a escrita com a agitação dos eventos. Ou assumes que este é um momento de pousio no teu processo criativo?
R – Não escrevo de todo, exceto as crónicas. Até ao fim de novembro, não é possível, falta-me a rotina, a estabilidade mental. Também me falta a coragem de começar uma coisa nova. Talvez em dezembro comece a tal novela, mas ando um pouco esgotado mentalmente, talvez no rescaldo da escrita deste livro, que foi particularmente exigente este ano, porque o próprio romance foi o mais difícil e porque não durmo uma noite seguida graças à minha filha, que é adorável e encantadora, mas não dada a dormir noites seguidas.
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