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Exclusão, amor, morte e pobreza marcam a obra de Édouard Louis, que estará em Portugal entre 11 e 13 de outubro Foto Jean-François Robert | DR
Cultura.Sul, Edição Papel, Opinião

Édouard Louis no FÓLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos | Por Paulo Serra

LETRAS & LEITURAS: Artigo de Paulo Serra publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de outubro

07:30 3 Outubro, 2025 20:48 29 Setembro, 2025 | Cristina Mendonça
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Édouard Louis, um jovem autor francês a escrever no fio da navalha sobre exclusão, amor no masculino, morte.

No seu mais recente romance, O Colapso, traduzido por Diogo Paiva, o autor regressa aos temas da família e da pobreza de classe num retrato desolador da vida e morte do seu irmão mais velho.

De 11 a 13 de outubro, o autor estará em Lisboa e em Óbidos, para participar no FÓLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos.

PAULO SERRA
Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Confirmou o seu lugar no panorama literário internacional com as obras de autoficção História da Violência, originalmente publicada em 2016, e Quem Matou o Meu Pai, em 2018, ambas adaptadas ao teatro

«Não senti nada ao saber da morte do meu irmão; nem tristeza, nem desespero, nem alegria, nem prazer. Recebi a notícia como se receberiam informações sobre o tempo, ou como se ouviria alguém relatar-nos a tarde que passou no supermercado. Há quase dez anos que não o via. Não queria voltar a vê-lo.»

Partilhamos a sinopse do seu novo livro:

«O meu irmão passou uma grande parte da sua vida a sonhar. No seu mundo pobre e operário, onde a violência social se manifestava muitas vezes na forma como limitava os seus desejos, ele imaginava que se tornaria um artesão mundialmente famoso, que viajaria, que faria fortuna, que repararia catedrais, que o seu pai, que tinha desaparecido, regressaria e o amaria. Os seus sonhos chocavam com o seu mundo e ele não conseguia realizar nenhum deles. Queria sobretudo fugir da sua vida, mas ninguém o tinha ensinado a fugir, e tudo nele, a sua brutalidade, o seu comportamento com as mulheres e com as outras pessoas, o condenava; as únicas coisas que lhe restavam para esquecer eram o jogo e o álcool. Aos trinta e oito anos, após anos de fracasso e depressão, foi encontrado morto no chão do seu pequeno estúdio. Este livro é a história do seu colapso.»

História da Violência

Pode dizer-se de um livro que é claustrofóbico?

O livro História da Violência, o primeiro livro do autor francês traduzido em Portugal, publicado pela Elsinore em outubro de 2019, com tradução de Luísa Benvinda Álvares, é uma narrativa de pendor autobiográfico em que Édouard Louis narra a violência de que foi vítima. Mas conforme a narrativa se reparte em múltiplas vozes – com a sua irmã a contar ao marido a sua versão da história pontuada pelos seus apontamentos sobre o que pensa e sente em relação ao irmão, os polícias que tomam nota da queixa com o seu indisfarçado preconceito, os próprios apartes de Édouard que surgem aqui e ali entre parênteses, como se não fosse ele o narrador e autor, mas sim alguém que ao coligir uma série de fragmentos que compõem a versão oficial dos factos não consegue impedir a deixar os seus comentários – percebemos que este relato não é uma confissão mas quase uma carta de amor.

Em “História da Violência”, o autor narra a violência de que foi vítima

Édouard foi, lamentavelmente, uma vítima. Um jovem homossexual que foi abordado na rua por Reda, um estrangeiro sedutor que o ilude. Esta é a sua história de como uma noite de um amor fugaz entre dois homens estranhos se transforma num pesadelo, de uma noite de amor consentido, pelo menos no início, cujo ato se repete por várias vezes, se converte numa violação e numa violentação que deixa marcas. Mas, e é aí que o livro oprime, Édouard também se apaixona pelo seu agressor, nessa noite em que fizeram amor – é mesmo assim que o ato sexual é designado. Lê-se na contracapa do livro: «A história de Édouard é difícil, íntima e dolorosa; tanto que, sem espaço para devaneios da imaginação, lhe resta apenas o relato agitado, por vezes, implacável, daquilo que a realidade um dia lhe trouxe». Mas na verdade ele ilude-se. Ao ponto de inventar pedaços da história do homem que o violentou. De criar histórias que insere na infância do homem que lhe deu atenção naquele dia e que o fez sentir-se especial.

A narrativa é honesta e crua, como uma confissão pessoal.

«Nessa noite, não percebia como é que a minha história podia já não me dizer respeito (isto é, que eu estava excluído da minha própria história e que, simultaneamente, estava incluído nela à força, uma vez que me obrigavam a falar ininterruptamente dela, isto é, que a inclusão era a condição da exclusão, que ambas eram uma coisa só (…), a história da qual já não tinha o direito de sair).» (p. 41)

Mas da mesma forma que a história de Édouard rapidamente lhe escapa, o relato do que lhe sucedeu converte-se num retrato da atualidade, em que explora o ódio racial e o mal-estar da França e da Europa de hoje. Porque Reda é cabila (argelino)…

«Mataram-no, foi uma agressão, um árabe estrangulou-o, foi estrangulado por um filho da puta de um árabe» (sempre a mesma tendência para chamar árabe a tudo o que se situa para lá da Espanha, incluindo os portugueses, os gregos e até os espanhóis)» (p. 134)

Releve-se a passagem em que o autor-narrador afirma a sua necessidade de uma clivagem social, de se demarcar da família (o que lembra Regresso a Reims, de Didier Eribon).

«Reda quis saber porque é que, com pouco mais de vinte anos, tinha deixado a família e sobretudo porque é que não passava o Natal com ela. (…) Respondi-lhe que para mim os estudos tinham sido para mim mais uma consequência da minha fuga. Que primeiro tinha fugido. Os estudos, a ideia de estudar tinha surgido muito mais tarde, quando compreendi que esse seria o único caminho possível, ou pelo menos o único caminho que me permitiria afastar-me não só geograficamente, mas também simbolicamente, socialmente, e, portanto, totalmente do meu passado. Podia tornar-me operário, como o meu irmão, numa fábrica a trezentos quilómetros de casa dos meus pais e nunca mais os ver; essa fuga seria parcial. A presença dos meus tios, dos meus irmãos ficaria em mim: o mesmo vocabulário, as mesmas expressões, os mesmos hábitos alimentares e de vestuário, os mesmos interesses e mais ou menos o mesmo modo de vida.» (p. 71)

Quem Matou o Meu Pai

Depois de História da Violência, narrativa de pendor autobiográfico em que o autor conta a violação e violência de que foi vítima, chega-nos agora, novamente pela Elsinore, Quem Matou o Meu Pai. O livro está agora a ser reeditado, e conta com tradução de Luísa Benvinda Álvares.

Uma breve narrativa sobre a complexa relação do autor/narrador com o pai, como uma carta em que pretende acertar contas com a memória dele, chegando a conclusões conforme escreve, falando sempre do pai no passado, porque no presente já não o conhece…

Obra é uma breve narrativa sobre a complexa relação do autor/narrador com o pai

E ainda que esta autoficção contenha aspetos que já surgiam no seu livro anterior – onde o autor afirma, a dada altura, como os estudos superiores foram uma consequência da sua fuga, quando compreende que esse seria o único caminho possível que lhe permitiria afastar-se socialmente do seu passado familiar –, a relação intertextual que mais ressalta é com Regresso a Reims, de Didier Eribon (Dom Quixote), um ensaio onde a escrita autobiográfica também se entrelaça com a reflexão sociológica. Quando o filósofo francês perde o pai, que não via há décadas, ao ponto de não o reconhecer numa foto tirada poucos dias antes de morrer, não comparece ao seu funeral, nem faz qualquer tentativa para ver os irmãos, de quem se separou há 30 anos e provavelmente também já não seria capaz de reconhecer. Mas quando visita a sua mãe, no dia seguinte ao funeral, acaba por dar início a um reencontro com o eu que tanto procurou, sem sequer se aperceber, reprimir. Tendo saído de Reims pelos vinte anos para viver em Paris, fugindo a um pai violento e homofóbico, para poder começar a ser verdadeiramente ele, verdadeiramente livre, sem ter de se envergonhar da sua sexualidade, Didier Eribon percebe que afinal ao libertar a sua sexualidade acaba por reprimir o seu passado sociocultural enquanto prossegue numa ascensão social. Sai de um armário sexual para se meter num armário social.

Com Édouard Louis o reencontro com o pai, e o seu próprio eu-criança, acontece mais a tempo, apesar de o pai estar já muito debilitado: «Já não podes conduzir, já não te é permitido beber álcool, já não consegues tomar banho ou ir trabalhar sem correres um enorme risco. Tens pouco mais de 50 anos. Pertences àquela categoria de seres humanos a quem a política reserva uma morte precoce.» (p. 12)

A narrativa é difícil, íntima e dolorosa, tal como no seu livro anterior, e fala-nos agora de outro tipo de violência, essencialmente verbal: a que o pai exerceu sobre ele, como forma de o tornar mais masculino.

Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule

Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, romance de estreia de Édouard Louis, foi o terceiro livro do autor publicado entre nós pela Elsinore – depois de História da Violência e Quem Matou o Meu Pai?

Traduzido por António Guerreiro, este é um testemunho audacioso, de grande coragem, que entretece memória e ficção.

Criado no seio de uma família da classe trabalhadora, na Picardia, no interior da França, Eddy destaca-se desde cedo das outras crianças. Eddy nasce no início dos anos 90, e embora ambos os progenitores tenham outros filhos, será ele o primeiro filho dessa união entre um pai «duro», alcoólico, irascível, irremediavelmente desempregado, e uma mãe sofrida, cansada, defensiva.

Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule é o romance de estreia de Édouard Louis

A sua delicadeza, os seus modos educados, a sua maneira de falar e de se mover evidenciam a diferença do jovem Eddy, mesmo que a família nem sempre o admita abertamente. E essa maneira de ser vai instigar humilhações (tareias, escarradelas, insultos) por parte de colegas de escola, mas também a incompreensão dos pais. Por isso, quando o desejo sexual desponta nele, revela-se num misto de fascínio e inveja pelos colegas, mesmo aqueles que o maltratam.

Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, dedicado a Didier Eribon toca justamente alguns dos temas explorados por este autor no seu Regresso a Reims. Porque mais importante do que negar a sua diferença ou reprimir a sua homossexualidade, Eddy quer fugir ao meio em que nasceu e cresceu: tudo menos acabar a trabalhar na fábrica de peças de latão da aldeia em que o pai perdeu a saúde, e onde ainda antes do pai trabalharam também o seu avô e o seu bisavô.

Unindo o pendor autobiográfico confessional com a força do romance moderno, em que o autor-narrador nos confessa, em algumas passagens, chorar enquanto as escreve, entretecem-se na tessitura narrativa as vozes, destacadas em itálico, dos seus familiares, nomeadamente da mãe e do pai. A certa altura, o narrador afirma mesmo que terá voltado à aldeia da sua infância e juventude durante 2 dias para recolher informações sobre a sua família. Um romance destemido que ressoa a história de outros jovens que como ele cresceram e terão feito por, entre a intolerância e o desamor, conseguir inventar a sua própria liberdade.

O mais recente romance de Édouard Louis é sobre sonhos destruídos, exclusão social e a morte de um irmão

Édouard Louis nasceu em Hallencourt, França, em 1992. Estudou História na Universidade de Picardia e Sociologia na Escola Normal Superior de Paris. Obteve o imediato reconhecimento da crítica e do público com o seu polémico livro de estreia, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, de 2014, com o qual foi finalista do Prémio Goncourt para Primeiro Romance. Confirmou o seu lugar no panorama literário internacional com as obras de autoficção História da Violência, originalmente publicada em 2016, e Quem Matou o Meu Pai, em 2018, ambas adaptadas ao teatro. Seguiram-se títulos como Changer: méthode ou o mais recente O Colapso. A sua obra está traduzida em mais de trinta países.

Leia também: Entrevista a José Garrido: O Último Vôo do Açor | Por Paulo Serra

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