Já aqui escrevemos o suficiente sobre a construção do Hospital Central do Algarve, e de como não adianta prolongar batalhas florentinas sobre quem mais prometeu e não cumpriu, quem mais se preocupa com o assunto, ou sobre quem tem mais medalhas no peito ao serviço da causa. O povo algarvio já se pronunciou, já deu veredicto eleitoral, está tudo fartinho de saber que o descontentamento é total, e a paciência nenhuma.
Recentre-se a atenção no presente, com os olhos posto no futuro. Existe um governo empossado, que assumiu esse compromisso no panfleto eleitoral, escrutine-se o cumprimento, “hospitalímetro” a contar a partir de 5 de Junho passado, o resto é conversa fiada. Mas aconteceu um episódio correlacionado no palco da Assembleia da República que importa relevar, não pelas suas consequências discursivas ou deliberativas, mas pelo significado de como as redes sociais podem contribuir, a partir de um facto verdadeiro, para o disseminar explosivo de uma mentira grosseira com meros alvos políticos, com o Hospital a servir de pólvora para canhão.
No dia 27 de Junho teve lugar o debate conjunto de uma Petição intitulada “Novo Hospital Central do Algarve Já”, cujo primeiro subscritor é o Deputado Cristóvão Norte (que não o era na altura), bem como de sete projectos de resolução sobre a mesma matéria, apresentados pelo Chega, PCP, Livre, PAN, BE, PS e PSD. Destes, só os do PCP e do BE foram rejeitados. Todos os outros foram aprovados na generalidade e baixaram à Comissão respectiva para debate na especialidade.
Da leitura destas iniciativas, parece nítida uma diferença de conteúdo que certamente esteve na base da rejeição dos projectos do PCP e do BE, os quais defendiam claramente um modelo integralmente público para a construção e a gestão do futuro HCA. Pelo contrário, uma larga maioria parlamentar tem uma opção, também clara, pelo modelo de parceria público-privada. Eis o busílis da questão. A partir de uma verdade – a rejeição do projecto de resolução do PCP -, com os votos contra do PSD, da IL, e do CDS/PP, e a abstenção do Chega, apresentado nas redes sociais como se não tivessem existido outros projectos de resolução (que foram aprovados), construiu-se uma (falsa) narrativa de que o HCA teria ficado inviabilizado com os votos dos próprios partidos do Governo, o que naturalmente despoletou uma catadupa de comentários e uma pirueta de protesto e indignação que, de partilha em partilha, se espalhou como fogo em mato seco em dia de vendaval. Como se fosse crível que os partidos que suportam o Governo fossem tão estúpidos ao ponto de inviabilizar aquilo que é um propósito já anunciado e assumido há pouco mais de um mês: até ao final de 2025 avançará o concurso para a adjudicação da parceria público-privada.
A velocidade com que as (des)informações se espalham nas redes sociais é invencível. Notícias falsas podem alcançar milhões de pessoas em poucos minutos, não dando tempo a qualquer verificação. Tornam-se virais. Os algoritmos utilizados pelas plataformas digitais tendem a promover conteúdos que geram reacções emocionais, como raiva ou medo, sem cuidar da sua veracidade, ganhando visibilidade, alimentando a desinformação, facilitando a disseminação de versões distorcidas da realidade, como foi no caso do Hospital Central do Algarve.
Não são alheios a este fenómeno certos actores de má-fé, que actuam a coberto de perfis falsos para manipular a opinião pública, gerar discórdia social ou influenciar eleições. O ponto cardeal desta manobra aponta para Norte (candidato autárquico) como alvo, com epicentro eleitoral em Faro.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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