Numa região marcada pela proximidade ao mar e aos ecossistemas da Ria Formosa, onde a sazonalidade do turismo e a crescente pressão sobre a habitação continuam a moldar a realidade social, a Delegação da Fuseta/Moncarapacho da Cruz Vermelha Portuguesa procura responder às necessidades de um território em constante transformação, conciliando respostas de proximidade com novos projetos de inclusão social, cooperação europeia e sustentabilidade ambiental.
Com área de intervenção nas freguesias da Fuseta e de Moncarapacho, a instituição mantém equipamentos em ambas as localidades e desenvolve respostas que acompanham diferentes fases da vida, da infância ao apoio às famílias, sem esquecer a emergência pré-hospitalar e a intervenção comunitária.
Segundo o presidente da delegação, Francisco Leal, a prioridade passa por consolidar o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos, mas também por preparar a instituição para responder a novos desafios sociais.
“Temos vindo a apostar em projetos que são necessários para a população”, afirma ao POSTAL, defendendo que a Cruz Vermelha deve continuar a crescer sem perder a proximidade que caracteriza a sua intervenção.

Projeto quer reforçar inclusão social em todo o concelho
A mais recente aposta da delegação é o projeto CLDS 5.0 – Contrato Local de Desenvolvimento Social, um projeto financiado por fundos comunitários e pela Segurança Social, com duração de três anos e intervenção em todo o concelho de Olhão.
Coordenado pela educadora social Vânia Rodrigues, o projeto assenta em três eixos de atuação: emprego e formação, combate à pobreza infantil e à exclusão social e intervenção junto de famílias em situação de vulnerabilidade ou emergência social.
O objetivo, explica a responsável, passa por criar uma resposta integrada capaz de gerar impacto social junto das famílias mais vulneráveis, através de dezoito atividades que serão desenvolvidas ao longo dos próximos três anos.
O CLDS 5.0 junta-se às respostas que a instituição já assegura diariamente junto da comunidade através das creches, apoio ao estudo, centro comunitário, cantina social, loja social e apoio alimentar, acompanha famílias em situação de vulnerabilidade e promove o encaminhamento para diferentes respostas sociais.
“Conseguimos responder às necessidades da população em diferentes áreas, desde a alimentação ao acompanhamento social”, resume Vânia Rodrigues ao POSTAL.

Sazonalidade e habitação agravam vulnerabilidades
A sazonalidade continua a marcar profundamente a realidade social do concelho. A dependência do turismo e das atividades ligadas ao mar faz com que muitas famílias atravessem períodos de instabilidade económica ao longo do ano, situação que se reflete na procura das respostas sociais.
A esta situação junta-se a crescente dificuldade de acesso à habitação, sobretudo na Fuseta, onde o aumento dos preços do mercado imobiliário está a dificultar a fixação de jovens casais. “Há menos famílias jovens e menos crianças. Muitas pessoas acabam por procurar outros locais para viver porque não conseguem suportar os preços das casas”, explica Vânia Rodrigues.
A situação de Moncarapacho apresenta características distintas. A maior oferta de habitação e uma economia menos dependente da sazonalidade permitem fixar mais população, criando uma dinâmica social diferente da que se verifica na vila piscatória.
Apesar destes desafios, a responsável destaca a proximidade existente entre as instituições locais, considerando que a articulação entre a Cruz Vermelha, o Município de Olhão, a Segurança Social e as restantes entidades permite dar respostas mais rápidas às situações de maior vulnerabilidade.
Emergência e financiamento colocam novos desafios
A intervenção da delegação estende-se também à área da emergência, assegurando o transporte de doentes não urgentes e o reforço dos meios de socorro durante a época balnear, através do Posto de Emergência Médica da Fuseta.
José Brito, diretor técnico e coordenador do local de emergência, explica que a localização geográfica do Algarve obriga frequentemente as equipas a percorrer dezenas de quilómetros para responder às solicitações, com transportes que chegam a concelhos como Tavira, Castro Marim ou Vila Real de Santo António.

A pressão aumenta devido ao crescimento dos custos de funcionamento, que têm colocado novos desafios à sustentabilidade da instituição.
“Os combustíveis, os recursos humanos e a alimentação aumentaram significativamente, mas os acordos de cooperação continuam praticamente inalterados”, alerta, defendendo uma atualização dos modelos de financiamento das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS).
Além das respostas sociais e da emergência, a delegação assegura ainda serviços prestados ao Município de Olhão, nomeadamente o fornecimento de refeições em escolas e o transporte de crianças e jovens com necessidades específicas para estabelecimentos de ensino e instituições do concelho.
Atualmente, a instituição conta com cerca de 55 colaboradores, cuja atividade se reparte pelas diferentes respostas sociais, projetos e serviços desenvolvidos nas duas freguesias.
Voluntariado mantém-se como um dos pilares da instituição
Apesar das mudanças verificadas ao longo dos últimos anos, o voluntariado continua a desempenhar um papel importante na atividade da Cruz Vermelha.
Segundo José Brito, é hoje mais difícil encontrar voluntários disponíveis de forma permanente, sobretudo devido às exigências profissionais e às alterações sociais. Ainda assim, a delegação continua a envolver jovens em campanhas solidárias, atividades de verão e ações de apoio à comunidade.
Todos recebem formação inicial sobre a história da instituição e os sete princípios fundamentais da Cruz Vermelha, considerados a base da atuação de colaboradores e voluntários.

Centro comunitário reforça resposta às famílias e às crianças
O centro comunitário da delegação, em funcionamento na Fuseta desde 2001 após ter sido criado com apoio de fundos comunitários e do Programa de Apoio às Comunidades Piscatórias, mantém-se como um dos principais espaços de intervenção junto da população.
A valência assegura respostas que vão do pré-escolar aos tempos livres e ao apoio alimentar, servindo diariamente cerca de 40 refeições na cantina social e apoiando ainda cerca de 150 crianças na cantina escolar.
Durante o verão, as “Semanas Divertidas” juntam perto de 100 crianças, reforçando a ocupação dos tempos livres. “É uma resposta muito completa, que acompanha as famílias em diferentes momentos do seu quotidiano”, destaca a educadora social Vânia Rodrigues.
Olhar para o território para além da intervenção social
Embora a resposta às necessidades da população continue a ser a prioridade, Francisco Leal, ex-presidente do Município de Olhão, considera que o futuro da delegação passa também por desenvolver projetos capazes de responder aos desafios específicos do território. Entre eles está uma maior participação em candidaturas nacionais e europeias, permitindo trocar experiências com outras organizações e implementar novas iniciativas na região.
Uma das áreas que o presidente considera prioritárias é a valorização da Ria Formosa, cuja riqueza ambiental entende estar intimamente ligada ao desenvolvimento económico do Algarve.
“A Ria Formosa é um património extraordinário, mas nem sempre lhe damos a atenção que merece”, afirma ao POSTAL.
Na sua perspetiva, a proteção das ilhas-barreira e dos cordões dunares é essencial para salvaguardar o litoral algarvio perante a erosão costeira e a subida do nível do mar. Ao mesmo tempo, defende uma maior valorização da biodiversidade existente naquele ecossistema, incluindo espécies protegidas como a andorinha-do-mar.

Segundo o presidente, a proteção ambiental deve caminhar lado a lado com a valorização da atividade piscatória e de um turismo sustentável, setores que continuam a desempenhar um papel fundamental na economia local. O responsável considera que “a preservação ambiental não deve ser vista como um obstáculo ao desenvolvimento, mas antes como um fator de valorização do território”.
“A atividade ligada ao mar continua a ser importante, mas hoje o turismo representa também uma das maiores fontes de rendimento da região. Precisamos de proteger aquilo que distingue o Algarve e que continua a atrair quem nos visita”, sublinha.
Para o responsável, preservar a Ria Formosa, as praias e os ecossistemas costeiros significa proteger um património natural que sustenta a economia local e contribui para a qualidade de vida das populações.
Entre a resposta às necessidades sociais do dia a dia e a preparação de novos projetos, a instituição procura adaptar a sua intervenção a um Algarve em transformação, onde os desafios sociais, económicos e ambientais exigem respostas cada vez mais integradas.
Érica Jesus / HDF













