A freguesia de Moncarapacho celebrou, entre 19 e 21 de junho, 555 anos de existência, com três dias de programação dedicados à cultura, à música, ao património, à história e à participação comunitária. As comemorações juntaram moradores, visitantes, entidades locais e representantes autárquicos, num momento pensado para valorizar a identidade da freguesia e reforçar a ligação da população às suas raízes.
Mais do que assinalar uma data histórica, a iniciativa procurou lançar uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro de Moncarapacho, afirmando a freguesia como território com memória, património e ambição cultural.
O POSTAL falou com Jorge Pereira, presidente da Junta de Freguesia de Moncarapacho, sobre o impacto das comemorações, a importância de recuperar a memória coletiva e o caminho que pretende seguir para afirmar Moncarapacho como uma vila cultural, patrimonial e histórica.

P – Os 555 anos tiveram um enorme impacto. Afinal, o que pretendia com estas comemorações?
R – Os 555 anos nunca foram o destino. Foram o ponto de partida. Muita gente olhou para aqueles três dias e viu concertos, animação, exposições, uma linha cronológica, um novo letreiro na praça… Eu via outra coisa.
Via uma oportunidade para fazer as pessoas voltarem a olhar para a sua própria terra. Porque passamos grande parte da vida a admirar a história dos outros e, muitas vezes, conhecemos muito pouco da nossa.
P – Então isto não começou com as comemorações?
R – Não, começou muito antes. Começou com pensamentos, leituras, reflexões e muitas perguntas que fui fazendo a mim próprio.
A determinada altura, percebi que esta visão já não podia continuar apenas na minha cabeça. Precisava de ser partilhada. Foi então que decidi reunir cerca de vinte pessoas ligadas ao património, à cultura, à história, à arqueologia e ao movimento associativo, não para lhes apresentar um projeto fechado, mas para lançar um desafio, ouvir opiniões, identificar pessoas que quisessem caminhar connosco e enriquecer uma visão que acredito ser de todos.
Sentámo-nos à volta de uma mesa e fizemos uma pergunta muito simples: “Que Moncarapacho queremos deixar aos nossos filhos?”
Falámos do antigo Lagar. Falámos do património. Falámos da nossa história. Falámos da identidade da freguesia.
Saí dessa reunião ainda mais convencido de que Moncarapacho tinha todas as condições para iniciar este caminho.
As comemorações dos 555 anos acabaram por ser a primeira grande manifestação pública dessa visão.
Moncarapacho como referência cultural e patrimonial
P – Daí nasceu a ideia de afirmar Moncarapacho como uma Vila Cultural, Patrimonial e Histórica?
R – Exatamente. Acredito profundamente que Moncarapacho ainda não tem plena consciência de tudo aquilo que representa. Temos milhares de anos de ocupação humana. Temos património religioso extraordinário. Temos arqueologia. Temos histórias. Temos lendas. Temos um património agrícola e rural que marcou gerações. Temos uma identidade muito própria e faço muitas vezes esta pergunta: porque razão não podemos afirmar Moncarapacho como uma referência cultural, patrimonial e histórica no Algarve?
Eu acredito sinceramente que podemos. Mas acredito, acima de tudo, que o devemos fazer respeitando aquilo que somos, sem copiar ninguém e sem perder a nossa autenticidade.

P – A linha cronológica instalada na Praça foi uma das grandes novidades. Porque surgiu essa ideia?
R – Porque queria que qualquer pessoa pudesse percorrer milhares de anos de história simplesmente caminhando pela praça. Uma criança, um visitante, um emigrante que regressa, ou alguém que cá vive toda a vida.
Queria que percebessem que pertencem a uma história muito maior do que a sua própria geração. Porque acredito numa coisa muito simples: as pessoas só aprendem a defender aquilo que primeiro aprendem a conhecer. E foi exatamente isso que tentámos fazer.
O letreiro “MONCARAPACHO” tornou-se imediatamente um símbolo. Confesso que esperava que as pessoas gostassem, mas não imaginava vê-lo transformar-se tão rapidamente num ponto de encontro.
O que mais me marcou nem foram as fotografias, foi ver avós com os netos, pais com os filhos, casais, amigos, emigrantes e estrangeiros. Todos queriam levar consigo uma fotografia naquele local.
Naquele momento, deixou de ser apenas um conjunto de letras, passou a ser um símbolo de pertença. E isso deixou-me particularmente feliz.
“Era comunidade. Era orgulho. Era identidade”
P – Qual foi o momento que mais o marcou durante estes três dias?
R – Houve muitos. Mas talvez olhar para a praça cheia e pensar apenas: “Valeu a pena”. Porque aquilo que ali estava não era apenas público, era comunidade, era orgulho, era identidade e isso não se compra, constrói-se.
P – As comemorações terminaram. E agora?
R – Se alguém pensa que os 555 anos foram um ponto de chegada, então provavelmente ainda não conseguimos explicar bem aquilo que pretendíamos.
Para mim, representam exatamente o contrário, representam um ponto de partida. Agora queremos continuar a valorizar o património, recuperar memória, contar histórias, dar vida aos nossos monumentos, criar percursos, envolver escolas, associações, investigadores e moradores.
Quero que a freguesia de Moncarapacho continue a ser reconhecida pelos grandes eventos que já organiza, pelo dinamismo das suas associações e pela capacidade da sua gente. Mas acredito que podemos acrescentar mais uma dimensão à nossa identidade: que Moncarapacho seja igualmente reconhecida pela riqueza da sua história, pelo património que preserva e pela forma como sabe transmitir essa herança às gerações futuras.
“Estou a tentar ajudar a construir uma identidade”
P – Que mensagem gostaria de deixar?
R – Gostava apenas de pedir uma coisa: que as pessoas tenham orgulho na terra onde vivem. Porque acredito sinceramente que Moncarapacho ainda está muito longe de mostrar tudo aquilo que vale.
Se, daqui a alguns anos, alguém disser que os 555 anos foram o momento em que Moncarapacho voltou a acreditar em si própria… então todo este trabalho terá valido a pena.
Os concertos terminaram. O palco foi desmontado. As luzes apagaram-se, mas aquilo que verdadeiramente começou… foi um caminho. Porque uma terra não se transforma apenas pelas obras que faz, transforma-se quando as pessoas voltam a acreditar nela.
Eu não estou a construir um mandato, estou a tentar ajudar a construir uma identidade.
Porque acredito que o futuro de Moncarapacho não se constrói por uma pessoa, nem por um mandato. Constrói-se quando uma comunidade inteira decide voltar a acreditar em si própria.
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