Criada em 2020, a videodança ALMOST UNINHABITED, do coreógrafo, performer e artista visual algarvio Daniel Matos, conquistou o Primeiro Prémio DanceMovie do Premio Roma Danza, em Itália, seis anos após a sua criação e depois de uma anterior distinção em Lisboa.
A obra parte da desertificação crescente do planeta para explorar a relação entre a paisagem, o corpo e a respiração. Num território onde o solo perde água e os corpos perdem estabilidade, dois homens procuram sobreviver através do último fôlego um do outro.

Entre o desaparecimento e a resistência, ALMOST UNINHABITED transforma a respiração, habitualmente entendida como um gesto automático, em matéria coreográfica e elemento central da narrativa cinematográfica.
Júri destaca “rara intensidade” da obra
Na decisão agora anunciada, o júri do Roma Danza considerou que a criação consegue transformar “uma das questões mais urgentes do nosso presente numa experiência visual e corporal de rara intensidade”.
Foram ainda destacadas a originalidade da pesquisa coreográfica, a força dramatúrgica do dueto, a fotografia, a montagem e a dimensão sonora, apresentadas como componentes inseparáveis de uma obra “de grande força poética”.
O parecer do júri realça igualmente o trabalho dos intérpretes Hugo Cabral Mendes e Rafael Pinto, cuja presença sustenta uma investigação do movimento construída em torno da respiração partilhada como gesto de sobrevivência mútua. A música original é de Sara Pissarro.
Segundo a avaliação, a composição amplia a dimensão física do filme, tornando percetíveis o peso dos corpos, a consistência do espaço e a fragilidade da respiração. O novo prémio prolonga o percurso internacional de ALMOST UNINHABITED, anteriormente distinguida no InShadow – Lisbon Screendance Festival, onde recebeu o Prémio ETIC para Melhor Filme Nacional.
Apesar de ter sido criada há seis anos, a obra continua ligada a temas presentes no debate internacional, entre os quais a desertificação, a escassez de recursos naturais e a vulnerabilidade dos ecossistemas.
A permanência destas questões tem permitido novas leituras da criação, que utiliza o corpo e o cinema para refletir sobre as consequências ambientais e humanas da perda de água e da transformação das paisagens.
Daniel Matos soma distinções
O prémio atribuído em Itália junta-se a outras distinções alcançadas por Daniel Matos nos últimos anos.
O coreógrafo recebeu o Prémio DROP, na Croácia, e o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores para Melhor Coreografia, ambos pela obra A Pedra, a Mágoa. Em 2026, estreou A Luminosa Violência da Perfeição, criação que reúne Joana Guerra no violoncelo e na voz, seis intérpretes, um grupo de crianças e uma orquestra ao vivo.
Daniel Matos encontra-se atualmente a preparar a circulação desse espetáculo e a desenvolver o seu próximo projeto, intitulado WE WORK FOR HONEY.
A distinção de ALMOST UNINHABITED no Premio Roma Danza reforça o percurso internacional do artista algarvio e a presença da criação coreográfica portuguesa em projetos que cruzam corpo, cinema, som e artes visuais.
A.Pinto / HDF
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