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Cultura, Edição Papel, Opinião

Baiôa sem data para morrer, de Rui Couceiro | Por Paulo Serra

LETRAS & LEITURAS: Artigo de Paulo Serra publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de setembro

09:00 23 Setembro, 2022 21:18 22 Setembro, 2022 | Cristina Mendonça
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Paulo Serra, doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do CLEPUL

Regresso às origens

Baiôa sem data para morrer, publicado pela Porto Editora, assinala a estreia literária do editor Rui Couceiro.

Dividido em 127 capítulos, além de um capítulo 0 e outro 0.1. em jeito de prólogo, este romance requer tempo e pede ao leitor alguma paciência, pois esta é uma história que se demora a ser contada e se compraz nisso mesmo, levando-nos a desacelerar.

Quando vê as fotos da casa de família, recuperada por um desconhecido, um jovem adulto da cidade muda-se para o meio do nada na planície alentejana. Na “minúscula” aldeia dos avós, no Alentejo profundo, que dá pelo “belo” nome impróprio de Gorda-e-Feia, este professor, cuja vida não tem grande rumo, procura sobretudo uma pausa do ritmo frenético da civilização e de uma vida vazia, que foi preenchendo com o frémito das redes sociais.

Terminado o ano letivo, sem grandes perspetivas de nova colocação, o professor de trinta e um anos chega à casa dos avós no dia 9 de julho de 2015. Nessa aldeia, onde tudo parece morrer, a sua vida parece estar prestes a começar.

Rui Couceiro estreou-se na literatura com o romance “Baiôa Sem Data Para Morrer” – Foto Neusa Aires / D.R.

A narrativa é contada na primeira pessoa por esse jovem professor cujo nome nunca é revelado no livro e adverte-nos desde logo que “ainda hoje continuo a ignorar se o que se passou durante os dezanove meses que vivi naquela aldeia se passou mesmo” (p. 10). Não se pense que esta incerteza advém do seu estado mental, ainda que o narrador nos deixe indicações dispersas de como parece atravessar uma espécie de esgotamento mental ou depressão, estando precisado de medicação para dormir, e tendo como recomendação médica fazer uma desintoxicação do uso do telemóvel, em particular no que respeita a ligação às redes sociais, como se percebe numa passagem que nos conta como ao tentar ler um livro, vai “interrompendo a leitura no final de cada página, para ir ao telemóvel verificar, através das redes sociais, se algo tinha acontecido no mundo, porque era imprescindível que algo estivesse constantemente a acontecer” (p. 85). Na verdade, não obstante esse possível estado psicológico alterado, os acontecimentos que o narrador se prepara para recontar são tão fantásticos que é preferível deixar a nota ao leitor para manter algum nível de descrença. Haverá pontualmente alusão a casos insólitos ou maravilhosos.

Lugares descentrados

Gorda-e-Feia é um daqueles lugares atópicos que reforçam a natureza mágica patente neste romance, de que ainda falaremos adiante. A chegada do professor à aldeia representa uma entrada num mundo apartado da realidade portuguesa. A comprovar essa alteridade de um espaço exterior ao centro (“ex-cêntrico”), existem topónimos igualmente peculiares com ressonâncias semânticas óbvias, como Vila Ajeitada ou a Ribeira Encalhada.

“Gorda-e-Feia apresentava-se como uma pequeníssima aldeia quase deserta, que noutros tempos não havia sido tão pequena nem tão deserta. Algumas pessoas foram partindo, outras morrendo e certas casas acabaram por ruir, abandonadas.” (p. 43)

A natureza mítica em que o romance incorre, desfiando uma narrativa na berma do fantástico ou do maravilhoso, num lugarejo apartado da realidade, remete-nos para um realismo mágico próximo do modelo sul-americano ou, para nos atermos ao caso português, para leituras como O Dia dos Prodígios de Lídia Jorge. À semelhança de Vilamaninhos, essa comunidade perdida no Algarve rural profundo, onde o progresso e o tempo da História não chegaram, esta aldeia alentejana encontra-se igualmente num limbo. Nesse Alentejo profundo o próprio tempo parece abrandar: “surgiram, atravessadas por um rio, as casinhas brancas e baixas, de telha torrada pelo calor e pelo tempo, esse que em lugar algum para, mas que ali se mostra afoito a abrandamentos – talvez por isso tenha levado mais tempo a chegar de Lisboa àquela terra perdida do que se tivesse viajado de avião para Londres ou Paris.” (p. 13)

Rui Couceiro é editor da Bertrand, tendo a seu cargo a chancela Contraponto – Foto Mariana Benoliel / D.R.

Atravessado esse simbólico rio até àquele “Portugal que o passar dos séculos, ao invés de aproximar, afastou mais ainda do centro onde tudo ou nada se passa” (p. 249), as poucas referências que encontramos dentro da aldeia apontam aliás para um espaço de morte: Rua do Além; Rua das Almas Idas; Travessa da Defunta.

A reforçar o isolamento dessa aldeia, temos ainda a quase inexistência de tecnologia e, especialmente, a dificuldade de ligação à internet, cuja falta de rede terá o benefício de evitar que o narrador passe “dias inteiros a vergar a cerviz e noites em branco a alimentar tendinites nos dedos” (p. 344) num imparável scroll down táctil em busca de algo que preencha o vazio dos dias. Parece sintomático que o melhor sítio para apanhar algum sinal de rede seja na ponte.

Joaquim Baiôa

Como um anjo guardião dessa aldeia, destaca-se a personagem que empresta o nome ao título do livro. Joaquim Baiôa, velho faz-tudo, decidiu recuperar as casas que os proprietários haviam votado ao abandono e investe do seu próprio bolso, sem apoios do Estado, antes que a morte decida reclamar a aldeia por completo, mergulhando-a no esquecimento. Além de reabilitar as moradias, mantém as ruas limpas e os canteiros com flores, como um guardião de um cemitério que procura manter a ordem e a vida possível pois, naquele lugarejo, como se verá, as pessoas não pararam de morrer.

Baiôa passa a ser uma figura tutelar para o jovem narrador, enchendo-o de maravilhamento, designadamente na forma como rege a sua vida segundo rituais muito próprios: “cruzar-me com Bâioa no primeiro quartel do século XXI foi também conhecer alguém nascido noutro tempo, numa época distante” (p. 340). Não será por acaso que a primeira vez que o narrador vê Baiôa, este tenha na mão um Prontuário Terapêutico, o que tanto intriga como muito desconcerta o jovem professor.

Até ao final do livro, será sempre muito pouco aquilo que efetivamente sabemos sobre a vida de Joaquim Bâioa, como se o homem se resumisse à sua presença no instante. O narrador sente-se aliás constrangido e evitará procurar saber demais, ainda que passe a conviver com ele diariamente e a auxiliá-lo na tarefa de reconstruir as casas da aldeia.

Bâioa será quem involuntariamente libertará o professor da sua “pacovice citadina” (p. 64), ensinando-lhe truques de sobrevivência e de como tirar melhor partido da vida, sem ser mediante um ecrã, ou apenas preocupado em captar a realidade mediante filtros para a imortalizar num efémero segundo.

“Quando, com o seu andar macilento, saía para caminhar nos montes onde outrora vivera a fidalguia, o que eu via era um homem antigo a espalhar pelo vento a solidão que o habitava.” (p. 65)

É até possível que o professor seja quem também, inconscientemente, salvou o próprio Bâioa da sua solidão e da angústia de assistir ao fim de um tempo “que era o dele” (p. 66).

Morte e memória

Além deste sentimento de um mundo prestes da extinção, o tema central ao romance é o sentimento de finitude da vida. Como se escreve a certa altura, de repente todos começaram a morrer… sendo que uma grande parte das mortes acontece por suicídio. O autor cruza assim uma apologia de um Portugal antigo que se arrisca perder, de uma geração envelhecida e deixada ao abandono, e um cenário real conhecido, pois como se sabe o Alentejo apresenta “as taxas de mortalidade mais elevadas do país” (p. 381). A leitura do romance de Rui Couceiro pode assim remeter-nos, entre outras obras, como A última curva do caminho, de Manuel Jorge Marmelo (Porto Editora, 2022), que narra como o octogenário Nicolau Coelho, professor catedrático de Estética, autor de um par de livros, reformado e, perante um diagnóstico médico fatalista, retira-se para a terra da família, uma vila onde decide morrer, o que o leva a um trabalho de arqueologia da memória onde confluem as mais variadas temáticas. Alguns desses temas estão igualmente presentes em Baiôa sem data para morrer: a passagem do tempo; a vivência do instante; a erosão da memória; a solidão; a doença; a velhice.

Outra leitura cruzada que podemos evocar é o primeiro romance de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer, obra em que impera o humor negro e ironia, como forma de retratar um tema sério e polémico, o suicídio no Alentejo. Na obra de Rui Couceiro, o suicídio, contudo, está claramente associado a quem opta por antecipar o seu dia final: “Um cancro no pâncreas não deixava dúvidas quanto ao futuro. Na corda, acabou com o cancro, antecipou o futuro e evitou o sofrimento.” (p. 149)

O livro é a história da descoberta de uma outra vida fora
da cidade

Da leitura de Baiôa sem data para morrer (sobrevive era um jogo de palavras com a morte, mas já vi que não achaste piada…) perdura, contudo, uma galeria de personagens imbuídas de humor e de ironia, como Zé Patife ou a Ti Zulmira (que bem podia ser uma personagem da novela Tieta por razões que não compete aqui divulgar). Leia-se a seguinte passagem sobre a D. Tomázia e a D. Vigência que voltam à sua antiga morada todos os dias, na carrinha do lar: “As casas de uma e outra eram memórias moribundas delas mesmas, museus das próprias vidas, nos quais todos os dias entravam na dupla condição de visitantes e de objetos expostos.” (p. 153)

De modo mais subtil e disperso, há várias passagens emblemáticas em que o narrador tece uma crítica ao Portugal de hoje e uma leitura contrastiva entre o mundo urbano e o mundo rural, quando fala, por exemplo, dos prédios com a sua bonita arquitetura de “empilhadas, preclaras e graciosas marquises” (p. 350). É, contudo, em torno do digital que, paradoxalmente, o narrador desfere as mais agudas críticas – considerando que ele próprio continua a combater a sua própria dependência –, como quando se descreve “fechado num pequeno apartamento de um quinto andar”, “socializando digitalmente através da minha seringa de dopamina (…) com os seus algoritmos viciantes” (p. 344).

Rui Couceiro nasceu no Porto em 1984. É licenciado em Comunicação Social, mestre em Ciências da Comunicação e tem uma pós-graduação em Estudos Culturais. Decidiu que queria ser jornalista e, aos quinze anos, começou um percurso de oito anos numa rádio local. Estagiou na SIC e foi correspondente da LUSA, até apostar noutra paixão, em 2006 – os livros. Foi assessor de comunicação e coordenador cultural da Porto Editora durante dez anos até, em 2016, assumir funções de editor na Bertrand, tendo a seu cargo a chancela Contraponto. Nos últimos anos, reatou colaborações com a comunicação social: primeiro, partilhou a autoria e apresentação do programa «A Biblioteca de» com a escritora Filipa Martins, na rádio Renascença, e escreve para o site da revista Visão.

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