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Ana Alexandra Resende, arqueóloga e historiadora radicada no Algarve. Fotos DR
Algarve, Cultura, Edição Papel

Ana Alexandra Resende: “A História explica-nos o que aconteceu; a ficção permite-nos explorar aquilo que as pessoas sentiram”

Arqueóloga e historiadora, Ana Alexandra Resende estreia-se na ficção com um romance entre Escócia, Egito, Algarve, memória e mistério

08:30 9 Agosto, 2026 08:47 6 Agosto, 2026
Henrique Dias FreireHenrique Dias FreireJornalista
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Arqueóloga e historiadora radicada no Algarve, Ana Alexandra Resende estreia-se na ficção com A Viajante do Tempo, romance que cruza Stirling, o Egito Ptolemaico e a região algarvia para explorar memória, identidade, liberdade e espiritualidade.

Com apresentação marcada para 16 de setembro na FNAC Faro, a autora explica ao POSTAL como conciliou o rigor da investigação com a liberdade criativa e revela que o segundo romance já está concluído.

Da investigação arqueológica à ficção

P – A Viajante do Tempo é o seu primeiro romance, mas nasce de um percurso profissional ligado à arqueologia, à História, ao ensino e à investigação. Em que momento sentiu necessidade de transformar esse conhecimento numa obra de ficção e como surgiu a ideia inicial do livro?

R – Durante muitos anos contei histórias através da investigação arqueológica. Cada escavação é, no fundo, uma tentativa de reconstruir vidas a partir de pequenos fragmentos: uma pedra, uma cerâmica, um objeto esquecido pelo tempo. Mas houve um momento em que senti que havia perguntas que a investigação científica, por si só, não podia responder. A História explica-nos o que aconteceu; a ficção permite-nos explorar aquilo que as pessoas sentiram.

A ideia de A Viajante do Tempo nasceu precisamente desse encontro entre duas paixões que sempre caminharam lado a lado em mim: o rigor da História e o desejo de compreender a dimensão mais humana da nossa existência. Quis escrever um romance onde a arqueologia não fosse apenas um cenário, mas uma forma de escavar também a memória, a identidade e as grandes questões que atravessam todas as épocas.

Entre a Escócia e o Egito

P – A viagem da protagonista à Escócia abre uma porta para o Egito Ptolemaico e para memórias que atravessam diferentes épocas. Porque escolheu Stirling e o antigo Egito como dois dos principais polos geográficos e históricos da narrativa?

R – O Egito acompanha-me desde muito cedo. Antes mesmo da minha formação académica, já sentia um profundo fascínio pela sua História, pela riqueza da sua simbologia e pela forma como aquela civilização pensava a vida, a morte e a eternidade. Mais tarde, a Arqueologia deu-me os instrumentos para aprofundar esse interesse com rigor científico.

A Escócia surgiu por um caminho diferente. Nunca a visitei, mas sempre me senti atraída pela sua paisagem, pela cultura celta e pela forma como a História e a tradição convivem naquele território. Há lugares que despertam em nós uma curiosidade difícil de explicar e que acabam por alimentar a nossa imaginação.

Ao escrever o romance, percebi que poderia construir uma ponte entre estas duas culturas. Não para defender qualquer teoria histórica ou espiritual, mas porque a literatura nos permite estabelecer diálogos e explorar perguntas que ultrapassam, muitas vezes, o domínio da ciência. Foi desse encontro entre o rigor da investigação e a liberdade da ficção que nasceu A Viajante do Tempo.

P – Sendo arqueóloga e historiadora, como conciliou o rigor da investigação histórica com elementos como a espiritualidade, as vidas passadas, a memória ancestral e o mistério, preservando simultaneamente a liberdade criativa do romance?

R – Enquanto arqueóloga e historiadora, fui formada para trabalhar com evidências, e era essencial que a componente histórica do romance fosse credível e respeitasse o conhecimento disponível.

No entanto, acredito também que a experiência humana não se esgota naquilo que conseguimos medir ou documentar. Ao longo da História, diferentes civilizações procuraram compreender a vida, a morte, a memória e a transcendência. A literatura permitiu-me explorar essas inquietações sem as transformar em certezas ou em verdades absolutas.

Quando escrevo, preciso de visualizar os lugares e de me aproximar emocionalmente das personagens. É um processo semelhante ao da arqueologia: encontramos vestígios materiais, mas tentamos também compreender as pessoas que lhes deram vida. A Maria nasce dessa procura. É uma mulher que questiona, evolui e procura compreender quem é.

Símbolos, liberdade e memória

P – Os quatro escaravelhos sagrados e o simbolismo egípcio desempenham um papel central na história. O que representa o escaravelho na construção simbólica do romance e por que motivo o escolheu como uma das principais chaves do enredo?

R – O escaravelho é um dos símbolos mais emblemáticos do Antigo Egito. Associado ao deus Khepri, representa o renascimento, a transformação e o ciclo contínuo da vida, numa profunda ligação ao Sol, elemento central da espiritualidade egípcia. Mais do que um amuleto, simboliza a capacidade de renovação e a ideia de que cada fim pode ser também um novo começo.

Enquanto arqueóloga, sempre me fascinou a forma como a civilização egípcia atribuía um significado profundo aos seus símbolos. O escaravelho sintetiza essa visão do mundo e, por isso, pareceu-me a escolha natural para acompanhar esta narrativa.

No romance, representa a viagem interior da protagonista, a sua transformação e a ligação entre o passado e o presente. De certa forma, acaba por simbolizar a própria essência de A Viajante do Tempo.

P – O livro aborda relações de controlo, destinos impostos e uma linhagem de mulheres guardiãs. Que reflexão pretende provocar sobre a autonomia feminina e sobre os padrões de poder que parecem repetir-se ao longo dos séculos?

R – Mais do que refletir sobre a autonomia feminina, interessava-me refletir sobre a liberdade humana: a liberdade de pensar, de questionar e de escolher o nosso próprio caminho, sem aceitar passivamente os destinos que nos são impostos.

Ao longo da História, muitas mulheres desempenharam um papel fundamental na transmissão do conhecimento, dos valores e da memória coletiva, embora nem sempre lhes tenha sido reconhecido o protagonismo que mereciam. A linhagem de mulheres guardiãs nasce precisamente dessa reflexão e do fascínio que sempre senti pela dimensão simbólica do feminino.

Não procurei escrever um manifesto nem colocar homens e mulheres em oposição. O que me interessava era recordar que a História é sempre mais rica e mais complexa do que os relatos que chegaram até nós. Através da Maria, quis sobretudo falar da liberdade de sermos fiéis a nós próprios e da coragem de procurar a nossa própria verdade.

O Algarve e o encontro com os leitores

P – O Algarve não surge apenas como a região onde atualmente vive, mas também integra a ação, nomeadamente através do trabalho arqueológico de Maria em Lagos e de passagens por Loulé. Até que ponto o território algarvio influenciou as personagens, a atmosfera e a identidade do romance?

R – O Algarve ocupa um lugar muito especial neste romance porque foi aqui que desenvolvi grande parte do meu percurso como arqueóloga. Ao longo de mais de duas décadas, tive a oportunidade de escavar, estudar e conhecer profundamente o património da região, e essa experiência acabou por marcar naturalmente a narrativa.

Alguns dos locais que surgem no livro inspiram-se em espaços que conheço bem através do meu trabalho; outros foram escolhidos pela sua relevância histórica. Cidades como Lagos e Castro Marim desempenharam, ao longo dos séculos, um papel importante nas ligações ao Mediterrâneo e ao Oriente, tornando-se cenários naturais para uma história que cruza diferentes culturas e diferentes épocas.

Mas o romance não se limita ao Algarve. Lisboa, cidade onde nasci e estudei, também está muito presente. Muitos dos cafés, ruas e ambientes descritos fazem parte da minha memória e da minha vivência. Gosto que os lugares tenham autenticidade, porque acredito que também eles contam histórias.

P – Com várias apresentações previstas, entre as quais uma na FNAC Faro, a 16 de setembro, que diálogo espera estabelecer com os leitores algarvios e que pergunta gostaria que permanecesse com eles depois da última página?

R – Sendo este o meu primeiro romance, sinto um carinho muito especial pelo público algarvio. Foi nesta região que construí grande parte do meu percurso como arqueóloga e historiadora e será um privilégio apresentar o livro a leitores que agora me descobrem também como escritora.

Espero, acima de tudo, estabelecer um diálogo em torno da História, da memória e das grandes questões humanas que atravessam o romance. Gostaria que cada leitor encontrasse a sua própria interpretação e que a leitura despertasse curiosidade, reflexão e vontade de continuar a explorar estes temas.

Se pudesse desejar uma reação depois da última página, seria esta: que o leitor sentisse vontade de continuar a viajar. Não necessariamente para encontrar respostas, mas para continuar a fazer perguntas. Quando um livro permanece connosco depois de o fecharmos, acredito que a viagem ainda não terminou.

Felizmente, muitos leitores têm-me feito precisamente a mesma pergunta: “Quando sai o próximo?” Não podia receber maior incentivo. O segundo romance já está concluído, mas este é o momento de deixar que A Viajante do Tempo encontre o seu caminho e os seus leitores.

Os livros começam por pertencer a quem os escreve, mas só se tornam verdadeiramente completos quando encontram quem os leia.

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