O jornalista Ramiro Santos foi um dos oradores na sessão comemorativa dos 30 anos da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, realizada no passado dia 10 de abril, na sua sede em Albufeira. Na sua intervenção, o jornalista – amigo pessoal de Elidérico Viegas, fundador da AHETA -, deixou o seu testemunho à memória de um “homem bom, íntegro e generoso”, cuja obra está para além do Algarve.
O POSTAL destaca algumas passagens da sua intervenção numa cerimónia em que foi descerrado um memorial ao fundador e primeiro presidente da AHETA, bem como a todos os presidentes dos órgãos sociais da associação.
Conheci Elidérico Viegas por volta de 1987, numa reunião da direção nacional da Associação dos Hotéis de Portugal, na sede da sua delegação regional em Faro.
O objetivo era procurar uma alternativa para substituir na chefia da delegação da AHP, o Dr. Oliveira Santos, que vinha exercendo essas funções havia pouco mais de um ano.
Elidérico Viegas foi o nome escolhido. E a nova estrutura associada à AHP conseguiu desde logo ocupar o espaço de afirmação e o reconhecimento que era devido ao Algarve.
Em poucos anos, a nova plataforma descentralizada da AHP constituiu-se num importante interlocutor do sector turístico-hoteleiro regional, enquanto Elidérico Viegas se tornava o porta-voz dos anseios e das reivindicações do turismo algarvio, bem como do turismo nacional no seu conjunto. Porque ele estava para além do espaço restrito dos interesses do turismo local, para se apresentar como o rosto do associativismo empresarial do turismo português.
Porém, anos volvidos, este protagonismo da associação e da sua liderança, começou a ser encarado com algum embaraço. Passava a tornar-se evidente que os interesses do Algarve não coincidiam ou, dito de outra forma, não cabiam no caderno das preocupações maiores dos grandes grupos que defendiam uma política de aproximação e de compromisso com os poderes de decisão em Lisboa. E Viegas como uma voz incómoda.
(…) O divórcio apresentava-se como o desfecho mais do que previsível. De modo que os empresários algarvios entenderam que havia chegado a hora de cada um seguir o seu caminho e de o Algarve passar a ter vida própria.
E apresentavam as suas razões:
– Queriam uma maior autonomia estratégica em relação a Lisboa, uma agenda e um caderno reivindicativo próprios, sem medo de afrontar os poderes instalados na região e no Terreiro do Paço, exigindo ao mesmo tempo a sua participação e assento nos organismos regionais e nacionais de turismo de acordo com a sua representatividade económica e social.
Bem vistas as coisas, eram condições de poder que visavam claramente a afirmação do Algarve turístico com uma voz própria e autónoma. Livre para agir e para falar sem ter de pedir licença a ninguém nas decisões que entendesse adotar na defesa dos interesses dos seus associados e da região.
Foi o grito de Ipiranga que soou como uma trovoada seca por todo o país com ligação à economia e ao turismo.
Formalmente, a rutura haveria de ser consumada por escritura pública de 27 de junho de 1995. Estava assim criada a Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA).
(…) Já nada nem ninguém seria capaz de travar o vento com as mãos. O processo avançou como estava previsto, com o apoio e as assinaturas daqueles que quiseram escrever o futuro, abrindo um capítulo importante na história do turismo do Algarve e do país.
E hoje é unanime o reconhecimento de que a AHETA representou uma pedrada no charco das águas paradas do imobilismo e da inércia das forças tradicionais que se encontravam dispersas e fechadas nos seus pequenos poderes de interesses e capelinhas.
Os princípios fundamentais que haveriam de orientar a nova organização associativa, ficaram assinalados nesta frase proferida por Elidérico Viegas:
“A AHETA assume o compromisso solene de tudo fazer para conferir à atividade turística, o reconhecimento do peso económico fundamental que na realidade possui, mas que os sucessivos poderes lhe têm negado”.
Poucos anos volvidos, a associação consolidar-se-ia como a maior e mais importante estrutura associativa empresarial organizada do sector turístico-hoteleiro do país, reunindo a quase totalidade dos hotéis, apartamentos turísticos, imobiliária turística, residenciais, a generalidade dos campos de golfe, os casinos, as marinas e os parques temáticos existentes na região.
O milagre em que ninguém parecia acreditar, acontecia.
O Algarve turístico passava a falar a uma só voz, e Elidérico Viegas mantinha-se firme e determinado na liderança fortemente mobilizadora do turismo na região.
(…) E quando, em 2007, se mudou para a sua própria casa, a AHETA já se havia tornado numa referência incontestável do turismo empresarial do país e porta-voz dos interesses regionais do sector.
Direi mais: dos interesses gerais do Algarve.
De tal modo isso é assim, que hoje se pode falar de uma realidade associativa antes da AHETA e outra depois da AHETA. O Algarve ficou mais forte, mais unido e interventivo, com capacidade de fazer valer o seu peso na economia e no turismo nacional.
Honra às mulheres e aos homens que, ao longo deste percurso, contribuíram para construir e erguer este sonho, unindo o que parecia quase impossível de alcançar. Com especial destaque para a determinação, trabalho, coragem, disponibilidade, qualidade de liderança e capacidade de antecipar cenários de Elidérico Viegas.
Com uma vida dedicada à defesa e valorização do turismo do Algarve, Elidérico Viegas faleceu a 2 de novembro de 2024. Tinha 74 anos.
Porque a sua obra está para além do Algarve, Elidérico Viegas deixa um legado que é uma referência inspiradora para o associativismo empresarial do país.
A AHETA foi a sua grande obra. O Algarve e o turismo, a sua paixão. Incansavelmente. Todos os dias. Até ao fim.
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